COBERTURA | FutureMD: Sessões Plenárias

Sabes as diferenças na Formação Geral entre um Hospital Central e Distrital? Queres manter-te informado no que toca à Formação Geral e Especializada? Sabes como podes ser médico do INEM ou médico militar? Tens interesse em fazer a especialidade no estrangeiro ou explorar carreiras médicas alternativas? Não te preocupes! A FRONTAL esteve no FutureMD e fez a cobertura das sessões plenárias para responder a estas e outras perguntas discutidas.

A Formação Geral (Dra. Catarina Reis de Carvalho)

Como pontapé de saída do Congresso, a Dra. Catarina Reis de Carvalho começou por fazer uma breve introdução acerca do Conselho Nacional do Médico Interno (CNMI), o qual é responsável por acompanhar o funcionamento do internato médico em Portugal.

Alerta para:

  • As subespecializações da Medicina;
  • O grande gap geracional que se verifica entre os médicos efetivos (>50% com mais de 50 anos).

Relativamente à Formação Geral:

  • Tem a duração de 12 meses, distribuídos por Medicina Interna, Cirurgia Geral, Cuidados de Saúde Primários e Pediatria Médica;
  • É composta por 40h semanais, nas quais estão incluídas 12h semanais de urgência;
  • O interno não é autónomo e não tem o dever de assumir a responsabilidade de prescrever medicação, sendo neste contexto protegido pela Ordem dos Médicos.

Quanto à Formação Especializada:

  • O seu acesso varia de acordo com o ano de matrícula na faculdade de Medicina: todos os alunos que se matricularam no curso de 2018/2019 para diante terão um peso de 20% da nota final (normalizada às milésimas) e 80% da PNA (Prova Nacional de Acesso);
  • É realizada uma avaliação contínua, sendo esta composta por 40h semanais e 12h de trabalho extraordinário por semana.

Finalizou a sessão concluindo que, apesar de tudo, Portugal tem um dos melhores programas de internato na Europa, aconselhando-nos a aproveitar ao máximo este momento da nossa formação médica.

 

Carreiras alternativas – INEM (Dr. José Cidade)

O Dr. José Cidade, começa a sua sessão plenária a explicar as principais divisões do INEM, nas quais podemos participar como médicos:

  • CODU (Centros de Orientação de Doentes Urgentes), que são Centrais de Emergência Médica responsáveis pela medicalização do Número Europeu de Emergência – 112;
  • CODU-MAR (Centro de Orientação de Doentes Urgentes Mar), que tem por missão prestar aconselhamento médico a situações de emergência que se verifiquem a bordo de embarcações;
  • CIAV (Centro de Informação Antivenenos), que é um centro médico de consulta telefónica na área da toxicologia, responsável pela prestação, em tempo útil, das informações necessárias e adequadas a profissionais de saúde ou ao público em geral, visando uma abordagem correta e eficaz a vítimas de intoxicação;
  • CAPIC (Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise), que tem o intuito de atender às necessidades psicossociais da população e dos profissionais. É formado por uma equipa de psicólogos clínicos com formação específica em intervenção em crise psicológica, emergências psicológicas e intervenção psicossocial em catástrofe;
  • VMER (Viaturas Médicas de Emergência e Reanimação), que são veículos de intervenção pré-hospitalar destinados ao transporte rápido de uma equipa médica ao local onde se encontra o doente.

Explica como nos podemos candidatar ao INEM: (1) ser licenciado em Medicina, (2) ser pelo menos interno de especialidade (uma vez que é necessária autonomia médica) e (3) realizar o Curso do Doente Crítico do INEM, que ocorre 2 vezes por ano, com o custo de 800 euros para médicos. A seleção é feita de acordo com o nível de experiência com doentes críticos. Os turnos são de 8h, exceto ao fim de semana, onde são 12h, sendo necessário ter disponibilidade para pelo menos 4 turnos por mês.

Termina a sessão informando que qualquer especialidade médica pode participar no INEM, de acordo com o número de vagas disponíveis.

 

Formação Geral: Hospital Central vs. Distrital (Dra. Inês Neri)

A Dra. Inês Neri apresentou-nos uma comparação entre os diferentes hospitais relativamente às especialidades que integram a Formação Geral. Os dados foram obtidos com base em feedback de Internos de Formação Geral (IFG) que frequentam diferentes hospitais.

De uma forma genérica, o acesso, o número de vagas, serviço noturno e fins de semana de serviço predominam em hospitais centrais quando comparados com hospitais distritais. De seguida, enumeramos algumas particularidades de cada especialidade.

Quanto a Medicina Interna:

  • A principal função do IFG consiste em gerir doentes em internamento e a sua atividade é major em todos os Centros Hospitalares;
  • É atribuído a cada IFG, em média, três doentes;
  • O serviço de urgência consiste em 12h/semana;
  • Pode ser necessária permanência obrigatória no serviço.

Quanto a Cirurgia Geral:

  • Elevada autonomia principalmente em Pequena Cirurgia;
  • Extensa participação no Bloco Operatório nos hospitais centrais, enquanto nos hospitais distritais ronda apenas 8%.

Quanto a Pediatria:

  • Atividade autónoma variável, que pode ser de caráter meramente observacional a autonomia total (pouco frequente nos hospitais);
  • É possível fazer estágios em subespecialidades (com duração de um mês).

Quanto a Medicina Geral e Familiar:

  • Implica deslocação até USF que, em média, fica a 8 Km dos hospitais centrais e a 22 Km de hospitais distritais;
  • É permitido fazer um estágio de especialidade optativa em tempo livre e, em 17% dos casos, em período laboral.

Para além de tudo isto, há que ter em conta outros fatores na escolha do hospital, nomeadamente limitações para marcação de férias e questões de acessibilidade e estacionamento.

 

A Formação Específica by Academia CUF (Dr. José Paulo Farias)

O Dr. João Paulo Farias, Presidente do Conselho Nacional do Internato Médico e Diretor do Internato Médico dos Hospitais CUF, trouxe-nos a sua visão sobre a Formação Específica do internato médico.

Começou por contextualizar, numa perspetiva histórica, a criação do conceito de internato médico, durante o reinado de D. Manuel I, ainda que só mais tarde, em 1969, tenha surgido o internato médico semelhante ao perfil atual – constituído por um exame anual e um exame final orais. Em 1982 a Ordem dos Médicos criou programas de formação das várias especialidades, e em 1991 estes programas foram unificados para os diferentes hospitais.

Atualmente existem, em Portugal, 10.000 médicos no regime de internato médico, que inclui a Formação Geral e Formação Específica, que demoram no total 4 a 6 anos. Relativamente à sua estrutura, o internato médico permite um ou mais estágios externos, que no total devem perfazer, no máximo, 1 ano. Este pode ser suspenso desde que devidamente justificado perante a Ordem dos Médicos (como nos casos de doença, por questões de família, gravidez…).

Existe também um Estatuto Interno Doutorando, para médicos que se encontram a fazer doutoramento, permitindo interromper parcialmente o internato. Compreende-se que esta é uma forma de incentivar e promover jovens médicos a iniciar um doutoramento.

Quanto ao horário de trabalho durante este período, apenas é permitido fazer 12h de urgência seguidas por semana, um máximo de 12h de urgência por semana a pedido hospitalar (sendo que horas que excedam este limite incluem-se no regime de horas extraordinárias) e 58h/semana máximas de trabalho.

Na perspetiva de repensar o modelo atual de internato médico, foram abordados os resultados do estudo “The Postgraduate Hospital Educational Environment Measure”, que refletem a opinião dos médicos internos em relação ao meio em que trabalham, ao nível de questões de discriminação racial e de género, cooperação e competição entre colegas. Estes pontos constituem aspetos positivos do internato médico, enquanto que a ausência de aconselhamento na carreira, inexistência de manuais de procedimentos e falta de tempo para estudar são referidos como pontos negativos.

Concluindo, embora o modelo atual tenha servido de base para a União Europeia, como pontos a aperfeiçoar pretende-se um modelo de avaliação final escrito e o desenvolvimento de estágios de investigação em hospitais centrais e distritais, à semelhança do que é desenvolvido atualmente nas especialidades de Pediatria e Ginecologia e Obstetrícia.

 

Trabalhar fora das grandes cidades (Dr. Artur Canha da Silva)

O Dr. Artur Canha da Silva começou a sua palestra por analisar a perspetiva de trabalhar em hospitais centrais vs. distritais sobre vários pontos de vista (não esquecendo a possibilidade de imprevistos), realçando alguns exemplos:

  • Fatores pessoais, como tempo livre e qualidade de vida, questões económicas (muito importantes), acessibilidade e deslocação, e relações familiares (sobretudo filhos) e sociais;
  • Investigação, que pode ser mais fácil ou mais difícil em hospitais centrais, onde está muito associada a universidades e é menos recetiva a iniciativas individuais:
  • Atividades administrativas, facilitadas nos hospitais distritais por haver aí mais carência, surgindo oportunidades para quem tiver interesse nessa vertente.

Realçou ainda que devem ser consideradas as carências em determinadas áreas do país (essencialmente fora das grandes cidades) aquando da realização dos mapas de vagas para os internatos, bem como fomentar a candidatura para essas regiões com estratégias como vagas preferenciais e incentivos de acordo com as zonas carenciadas.

Ainda assim, a verdade é que a formação de internos nesses locais se debate também com o problema de não haver recursos humanos suficientes para assegurar os internos durante toda a especialidade – para contornar isso, os internos colocados em hospitais distritais fazem muitas vezes formações específicas em outros locais com idoneidade para lhas proporcionais.

Referiu ainda a importância da multidisciplinaridade para colmatar défices de instituições individuais.

Tudo isto é verdade não esquecendo que, não obstante, as normas da prática médica são iguais em todo o lado, regendo-se pela leges artis e pelo cumprimento do Código Deontológico, sendo o principal garantir as melhores condições para os doentes, dentro ou fora das grandes cidades.

 

Construção da Confiança na medicina do futuro: máquina vs. humano (Dra. Sofia Rocha)

A Dra. Sofia Rocha começou a sua apresentação por desmistificar o preconceito de que quem se foca na tecnologia deixa a atividade assistencial, exemplificando com o facto de ela própria continuar a fazer clínica. Enfatizou também a importância do desenvolvimento de competências extra-Medicina, seja através de hobbies, relações familiares e sociais, ou outros meios.

Após apresentar as variações da relação médico-doente ao longo da História e de dar o testemunho do seu percurso pessoal, passou a demonstrar a evolução exponencial da tecnologia ao longo dos últimos anos – a uma velocidade tal que ultrapassa a capacidade humana de a acompanhar.

Falou-se, então, de inteligência artificial, deep learning (a capacidade de a máquina seguir um algoritmo, mas nunca com a capacidade de improviso que o cérebro humano possui), blockchain (utilizado para documentar identidade e propriedade, bem como para autenticar bens e serviços), Lei de Proteção de Dados (com a importância magnificada que assume na saúde), terrorismo digital (com o exemplo do sucedido em Portugal em 2018), entre outros conceitos. Ao longo de todo este percurso, foi sendo sempre enfatizada a importância da privacidade, sobretudo da privacidade dos doentes no que toca às questões tecnológicas aplicadas à saúde, apelando ao envolvimento dos médicos nestas questões.

Mostrou ainda exemplo da aplicação de algumas destas tecnologias à saúde, como a App de telemóvel que fará screening de lesões, a utilização de jogos para encontrar a conformação ideal de uma proteína ativa, e a mais valia do conhecimento dos doentes e respetivos cuidadores acerca das suas próprias doenças (“Patient Innovation”).

Terminou a sua palestra realçando a importância de olhar também para as outras áreas do saber, uma vez que a inovação em Medicina, por ter de passar por validação, certificação e legislação, ser muito lenta. E não deixou de realçar que as máquinas nunca substituirão os humanos, pois o ser humano tem sempre o poder de decisãoos médicos não vão deixar de trabalhar, mas vão ter de ter espírito crítico e a humildade para decidirem quando as máquinas têm a capacidade de tornar as coisas melhores.

 

Testemunho de especialidade no estrangeiro (Dr. Sérgio Macedo)

O moderador da sessão, ex-estudante da Faculdade de Ciências Médicas, teve um percurso que reflete a ambição de ingressar numa carreira clínica no estrangeiro. Fez parte do programa ERASMUS em Berlim no 4º ano, fez estágios novamente no 6º ano e, terminado o curso, voltou para esta cidade, concorrendo para a especialidade de Oftalmologia.

Primeiramente, o orador expôs à plateia a importância da reflexão sobre aquilo que realmente somos e aquilo em que nos queremos tornar. Viver no estrangeiro acarreta diversos desafios, e só aqueles que querem experienciar ou até preferem ingressar num percurso de outsider, longe da família e longe da cultura em que cresceram, é que acabarão por encontrar conforto neste tipo de opção. Outro aspecto importante – a proximidade a um aeroporto, para podermos voltar à nossa família em situações de maior urgência.

Posteriormente, o discurso orientou-se para termos mais práticos: quais as particularidades do ingresso na carreira médica na Alemanha?
É tudo bastante mais simples que em Portugal, ou, melhor dizendo, mais fácil – frisando o facto de a realização de um exame como o antigo Harrison ou a nova PNA não ser uma realidade. O que um jovem médico deve fazer é procurar um posto de trabalho entrando em contacto diretamente com os hospitais – enviar e-mails para propor o cargo e ir a empresas de recrutamento de médicos. Estas empresas foram criadas para assistir à necessidade atual de contratação de mais médicos no país em questão.
Após o primeiro contacto e entrevista, o próximo passo é a “Approbation”, que se aproxima a um pseudo-registo na Ordem dos Médicos. Para isso, é necessário procurar a organização responsável por cada área (que diverge entre cidades e regiões) e contactar telefonicamente, por e-mail ou pessoalmente. É aconselhada a mentalização para o espetro alemão deste tipo de registos: burocracia, burocracia, burocracia! E a aposta financeira andará por volta dos 500 euros.
Os documentos requisitados para o contrato de trabalho resumem-se a documentação pessoal e certificado de língua alemã. As exigências divergem também entre cidades, tendo como exemplo:

  • Berlim: exige o B2 de alemão (Goethe)
  • Munique: exige o C1 + C1 em alemão médico.

Depois deste primeiro passo, seguem-se outros, nomeadamente:

  • Registo na Ordem dos Médicos da Alemanha;
  • Procura de emprego, como explicado acima – sendo que nos devemos candidatar especificamente como internos do 1º ano de especialidade.

O orador também abordou a temática do 6ºano na Alemanha, considerando empiricamente que o ensino médico português é superior face ao alemão e que a grande diferença está na componente mais prática do currículo alemão. Alguns hospitais oferecem vencimento (num hospital periférico um aluno pode chegar a ganhar 420 euros/mês) e um aluno tem bastante autonomia (pode ser cirurgião principal em cirurgias de menor exigência técnica, como apendicectomias). O horário será de 30 horas semanais.

Durante a especialidade, o Dr. Sérgio focou-se em transmitir que trabalhar em hospitais mais centrais (Uniklink, que perfazem 16% dos hospitais) é mais gratificante a nível curricular (Hospitais A, considerados de “topo”) mas também mais exigente, tendo de trabalhar 60h semanais (ao contrário das 40h nos hospitais periféricos) e não tendo tutor. A permutação entre especialidades com obtenção de equivalências é possível – por exemplo, trocar Anestesia por Medicina Interna a meio do internato, com equivalência de estágios comuns.

O salário-base na Alemanha evolui com os anos de serviço e não com a carreira. Um médico interno ganha, em média, 4000 a 5000 euros líquidos; um especialista entre 6000 a 7000 euros, sendo que, com os descontos, totalizará aproximadamente 50% deste valor ao final de cada mês.

Um médico português que complete a especialidade na Alemanha pode retornar a Portugal, sendo que o currículo na Alemanha é muito valorizado em todos os países da União Europeia.

 

Ser Clínico Geral (Dra. Teresa Nóbrega)

A oradora iniciou a exposição com uma contextualização do surgimento dos médicos sem acesso à Formação Especializada. Desde 2013, o número de vagas é inferior ao número de candidatos, mas até 2015 o problema não foi notório, devido a eventuais desistências de um número ténue de candidatos. Foi em 2015 que este problema já conhecido dentro das entidades envolvidas começou a ter as suas repercussões: alguns médicos ficaram de fora do concurso (120 médicos recém-formados). Esse ano foi um ano-piloto, que provocou uma situação incongruente na medida em que os contratos assinados no início do Ano Comum ainda garantiam a especialidade, por parte do Ministério da Saúde, aos médicos recém-formados. Os lesados, tendo terminado este ano e não tendo acesso a vaga, colocaram o caso em tribunal, que culminou na polémica retirada de 75 vagas do concurso do ano passado que foram distribuídas por estes colegas do concurso de 2015.

A partir do referido ano, foi estabelecida uma cláusula nos contratos do Ano Comum que garantia a cessação do contrato a partir do momento em que o candidato não entra na especialidade, resultando no surgimento dos Médicos Sem Especialidade que, desde o ano passado, se contam em 2700. De acordo com a evolução das vagas, prevê-se que existam 4000 médicos sem acesso à formação especializada em 2021.

A oradora aponta como principal problema nesta temática a falta de organização dos recursos em saúde, que retira a oportunidade aos jovens médicos de poderem escolher a carreira em que querem ingressar: clínica ou não-clínica. Referindo a falta de apoio sentida por algumas entidades como a Ordem dos Médicos e os sindicatos, surgiram outras organizações, como a AMPFE (Associação de Médicos pela Formação Especializada), que trabalham em prol da resolução da problemática inerente à indiferenciação médica.

Quais as vantagens, os desafios e a situação laboral dos médicos sem acesso a especialidade?

  • Flexibilidade: horário e férias são organizados de forma muito flexível;
  • Autonomia: existem dois lados da moeda, sendo que, por um lado, permite ao médico seguir os doentes de forma independente, e, por outro, existe uma responsabilidade que abate um médico sem diferenciação pela falta de acompanhamento e supervisão;
  • Crescimento: existe um estudo constante para corresponder às expectativas dos doentes e dos colegas com quem se trabalha paralelamente; a oradora realça a importância do reconhecimento dos erros, da necessidade de pedir ajuda e de trocar opiniões sem sentir vergonha pela posição em que se trabalha;
  • Rendimento: tendo em conta os descontos, a oradora aponta para os 13euros/hora de rendimento, sendo a principal desvantagem a inexistência de subsídio de férias, natal ou outros apoios. Em alguns hospitais privados o rendimento é superior. O pagamento é a recibos verdes (existindo alguns hospitais que realizam contrato) e os médicos sem especialidade não têm direito à greve, ao apoio dos sindicatos e Ordem dos Médicos e não têm enquadramento na carreira médica;
  • Justiça: o médico sem especialidade não pode recorrer ao tribunal de trabalho, sendo que, quando necessário, os sindicatos podem prestar apoio no início do processo mas não prestam acompanhamento;
  • Formação paralela: é financiada pelo próprio médico, com escasso reconhecimento pela falta de enquadramento na carreira médica.

Quanto a este último ponto, a oradora mencionou que existem muitas oportunidades a nível de Mestrados e Doutoramentos que são acessíveis a outros interessados com cursos diferentes de Medicina. Estes Mestrados vão desde a Emergência Médica  Medicina Desportiva, Medicina Militar ou Administração Hospitalar, entre outros.

Tendo optado por um Mestrado em Saúde Pública, a oradora referiu que, em Portugal, o sistema não está organizado para receber médicos com este tipo de formação (estando os centros de Saúde Pública reservados para médicos com a especialidade); assim, grande parte das oportunidades dentro da área encontram-se no estrangeiro, através de ONGs.

Em suma, houve um apelo à não desmotivação. Um médico sem especialidade coloca-se em paralelo a grande parte dos profissionais portugueses com cursos superiores: é necessária a abertura e vivacidade de procurar aquilo que queremos fazer, sem uma perspectiva tão linear de futuro como o que é dado aos estudantes quando ingressam no Mestrado Integrado de Medicina. É necessária a adaptação do sistema e da sociedade face a uma nova geração de médicos, contrariando as falsas expectativas que se colocam desde o início do curso de Medicina.

 

O médico na Indústria Farmacêutica (Dra. Maria João Lourenço)

A Dra. Maria João Lourenço introduziu a sua palestra contando-nos um pouco do seu percurso profissional – licenciou-se em Direito, mas não encontrou realização pessoal na carreira jurídica e acabou por especializar-se em Recursos Humanos, sendo atualmente Diretora dos Recursos Humanos da Bayer.

Estando familiarizada com diárias entrevistas de emprego, sublinha que, enquanto estudantes de Medicina, devemos procurar ser o mais completos possível a nível pessoal e profissional. Acredita que novas competências fora da área de formação são cruciais para o sucesso em qualquer empresa. Estas incluem conhecimentos de outras áreas, boa capacidade de comunicação interpessoal e método nas funções desempenhadas.

De seguida, orientou a palestra segundo testemunhos de vários profissionais que, nos últimos anos, trabalharam consigo na Bayer. Em primeiro lugar, estes médicos que se dedicam à Indústria Farmacêutica, defendem que esta é também uma forma de exercer Medicina e simultaneamente alcançar a realização pessoal. A principal função nesta área consiste em conhecer os produtos desenvolvidos pela empresa, sendo para isso necessário ter gosto em comunicar e interpretar dados científicos, facilidade em argumentar, gerir conflitos e possuir conhecimentos em marketing.

Ao longo da sua apresentação, realçou inúmeras vezes quais os pré-requisitos necessários para enveredar pela Indústria Farmacêutica, nomeadamente o conhecimento técnico inerente à atividade, as capacidades crítica e multidisciplinar e o bom inter-relacionamento pessoal, que se pode tornar bastante útil em situações de tensão, tomadas de decisões ou discussões. Acima de tudo, para seguir esta vocação, é imprescindível ter gosto e completar a formação principalmente nas áreas da gestão e farmacoeconomia.

 

O médico militar (Dr. Diogo Cavalheiro)

O Dr. Diogo Cavalheiro iniciou a sua sessão com uma breve apresentação da organização das Forças Armadas em Portugal e, partindo daí, das várias vertentes da Medicina Militar: Assistencial, Operacional, Ocupável e Medical Advisor.

A Medicina Assistencial é a análoga ao trabalho nos hospitais e centros de saúde mas, na Marinha, é praticada aos seguintes níveis:

  • Hospital das Forças Armadas;
  • Centro de Medicina Naval;
  • Unidade de Tratamento Intensivo de Toxicodependência e Alcoolismo (UTITA);
  • Médico de bordo em embarques (quando as missões o justificam);
  • Centro de Medicina Subaquática e Hiperbárica (que recebe cerca de 50 doentes por dia, 97% dos quais são civis); existe já uma competência da Ordem dos Médicos em Medicina Subaquática e Hiperbárica que regula e permite a atuação a esse nível.

Enquanto médico de bordo em embarques, o médico militar:

  • Faz parte da família que é a tripulação, acabando por, não só ficar familiarizado com os diferentes problemas de saúde, mas servir também de “conselheiro”, assumindo uma função especial mesmo no que concerne a questões pessoais;
  • Resolve os problemas imediatos de saúde;
  • Tem a oportunidade de adotar uma medicina preventiva nos seus tempos livres;
  • Apresenta uma parte operacional (como medical advisors ao nível de treino militar – p.e. avarias, quedas de helicópteros, emergências médicas, sinistrados fora do navio -, com simulações e exercícios permanentes);
  • E é ainda responsável pela parte ambiental (p.e. qualidade da água e do ar), alimentação, higiene e segurança do trabalho.

Enquanto médico de bordo, então, o médico militar tem a oportunidade de fazer algo completamente “fora da caixa”. Segundo o Dr. Diogo, a grande desvantagem dessa posição é a disponibilidade permanente, por ser o único médico presente na embarcação.

A Medicina Operacional consiste na preparação para e atuação ao nível de medicina de emergência, em contexto de catástrofe, guerra, conflitos, etc. Para o orador, trata-se da grande especificidade da Medicina Militar, sendo a vertente que a diferencia.

A Medicina Ocupável é o equivalente à Medicina do Trabalho aplicado ao contexto militar.

A vertente de Medical Advisor consiste em consultadoria em determinadas áreas.

A Medicina Militar tem ainda atuação em missões internacionais em locais de conflito real, tratando-se de contextos onde é realmente complicado garantir a segurança das pessoas e muitas vezes há vítimas. Nestes contexto, os médicos “despem a especialidade” e são médicos de emergência.

A Medicina Militar faz ainda treino externo, com protocolos externos, como por exemplo ao nível de formação ATLS.

De tudo isto se pode depreender que a Medicina Militar preza muito pela ausência de rotina.

Em jeito de conclusão, o Dr. Diogo Cavalheiro terminou a sua palestra com a apresentação das 2 vias através da quais se pode enveredar na Medicina Militar:

  1. Fazer o curso de Medicina desde logo nas academias (Marinha, Exército, Força Aérea), sendo-se militar desde início → Formação Geral (1 ano) → Período de disponibilidade (2 anos, durante os quais podem ser chamados para missões) → Especialidade;
  2. Fazer o curso de Medicina como civil → Formação Geral (1 ano) → Concorrer aquando de abertura de concursos, sendo assim incorporado nas Forças Armadas e tornando-se aqui militar → Período de disponibilidade (2 anos) → Especialidade.

 

Carreiras Médicas Alternativas – Gerir um serviço (Dr. José Novo de Matos)

O Dr. José Novo de Matos abriu a sua palestra falando da importância de saber gerir um serviço hospitalar, de modo a tornar-se director ou responsável deste. Seguidamente abordou as diversas vertentes que englobam este trabalho, apresentando exemplos da sua vivência hospitalar.

Na gestão de serviços, tem que se trabalhar em diferentes planos:

  • Recursos Humanos – Na medida em que é englobado todo o pessoal que trabalha no serviço (médicos, enfermeiros, auxiliares, etc.) O Dr. José Novo de Matos realçou a necessidade de conhecer os indivíduos que lideramos, de modo a poder criar um ambiente motivante e recompensante, melhorando a vivência e produtividade da equipa.
    • Relações interpessoais – Incluem dinamização de actividades de Team Bluilding, resolver conflitos entre elementos, e criar um ambiente para todo o pessoal do serviço, valorizando o trabalho de cada uma das classes envolvidas.
    • Incentivar a formação e publicação científica – De modo a que o serviço evolua e os profissionais desenvolvam competências. Devem ser premiados os melhores trabalhos feitos pelo serviço, e incitar a partilha de conhecimento (ex: em reuniões de serviço)
  • Estabelecimentos Físicos e Materiais – O ponto económico-financeiro também é alvo da atenção do gestor de serviço, estando em contacto com a direção sobre o ponto de situação das infra estruturas e materiais que o serviço dispõe.

 

Carreiras Médicas Alternativas – Investigação em Medicina (Dra. Helena Canhão)

A palestra dada pela Dra. Helena Canhão focou-se sobre a necessidade de inovação a nível da promoção da saúde e qualidade de vida dos doentes, frequentemente ignorados por muita da investigação mais tradicional. A Dra. Helena Canhão começou por introduzir o conceito de User Inovation, em que o doente elabora soluções para os próprios problemas. Neste âmbitos, apresentou diversos projetos:

  • Michael Seres, com doença de Crohn, após realização de ileostomia, criou uma app, ligada a um sensor, que informava sobre o estado de enchimento do saco de ileostomia;
  • David Day, de modo a que a sua filha com fibrose quística realizasse os exercícios respiratórios necessários, adaptou o sistema de controlos de videojogos, permitindo tornar mais efectivo a realização desses exercícios;
  • Ivan Owen, juntamente com um carpinteiro sul-africano, criaram próteses de membros, usando impressoras 3D. Em 2015, juntamente com a Dra. Helena e a Universidade Católica, criaram um antebraço para um rapaz português, custando este apenas 18€;
  • Projecto “offer your hand”, do qual faz parte, que cria próteses para crianças portuguesas, com recurso a impressoras 3D.

Neste contexto, é salientada a necessidade de colaboração entre médicos e outras classes, como engenheiros, designers e químicos, etc, na elaboração de produtos e tecnologias que visem a melhoria dos cuidados de saúde prestados. Também se realça a velhice, obesidade e sedentarismo, áreas onde a inovação tem um papel preponderante.

Concluindo, a Dra. Helena Canhão convida os futuros médicos a participarem activamente nos ensaios clínicos feitos por farmacêuticas ou empresas tecnológicas, que recolhem dados importantes para o avanço da ciência médica, num trabalho conjunto de “aliar a investigação à clínica”.

 

Carreiras Médicas Alternativas – Publicação Médica by AMP student (Dr. Tiago Villanueva)

O Dr. Tiago Villanueva começou a intervenção falando da sua experiência profissional, que diverge bastante da tradicional. Enquanto estudante de medicina juntou-se à The BMJ Student, enquanto editor, em busca de mais informação médica. Seguidamente, após ter concorrido, tornou-se o primeiro editor-chefe da The BMJ Student não britânico. É actualmente editor-chefe da Acta Médica Portuguesa (AMP) e editor da The BMJ.

As principais funções de um editor de uma revista médica são:

  • Lidar com os trabalhos médicos de outros colegas, aceitando, recusando, e preparando estes para serem publicados numa revista médica. É o trabalho de preparar e “curar o trabalho dos outros médicos”;
  • Estar envolvido desde a pré-submissão (onde o autor confere o interesse da revista num dado artigo) até à sua publicação;
  • É responsável por lidar com as reclamações feitas pelos autores, e gerir a equipa de edição da revista, no caso do editor-chefe.

Finalmente, o Dr. Tiago Villanueva enumerou as diversas vantagens em adotar uma carreira como esta, destacando-se a componente criativa, a etiologia multidisciplinar do trabalho, as viagens inerentes ao trabalho de edição de revistas internacionais, e a possibilidade de conhecer líderes médicos e académicos. Há sempre o reverso da medalha, que são as vagas limitadas, a ausência de uma carreira estruturada e o facto de um editor receber menos do que um clínico.

Terminando, o Dr. Tiago Villanueva indicou que muitos dos editores de revistas médicas mantêm a prática clínica, e convida os estudantes a procurar a AMP Student, a revista médica dos estudantes de medicina em Portugal.


AUTORES

Beatriz Oliveira 

Carolina Gavancho

David Gil

Joana Farrica

Sara Serra

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