A Arte de ser Doutor e a Arte de ser Doente I

Há livros que nos deixam doentes – de tão bons, de tão maus, de nos despertarem emoções, de nos revolverem o âmago, de não nos fazerem sentir nada. E há livros em que a doença se faz palavra, servindo aos escritores de matéria-prima.

Camus e Saramago II

Ou, como diria Carla Crabbé Rocha no capítulo dedicado à Medicina e Literatura em Medicina e outras Artes (edição da Fundação Calouste Gulbenkian): “A doença, a decrepitude e a morte são temas maiores da literatura de todos os tempos, escusado será lembrá-lo. A doença individual e a doença coletiva, a doença geracional (como o mal du siècle romântico ou o spleen baudelairiano), a doença civilizacional, a doença como situação ficcional ou real de escrita (…) e a doença como objeto literal ou metafórico da própria escrita (…)”.

Por fim, há os livros que nos deixam doentes e têm a doença como linha condutora. A Peste é uma dessas obras que se destaca das linhas orientadas da folha e mobiliza um pouco por todo o lado, à nossa volta: o ar sente-se irrespirável, como irrespirável nos é descrito, e o medo do flagelo que acomete a pequena cidade de Oran, na Argélia, é um medo que se apodera do leitor; e porquê? Porque Albert Camus narra n’A Peste, com mestria, algo que verdadeiramente aconteceu, fazendo desta não uma alegoria, mas sim uma crónica acerca da condição humana conseguida pelo relato dos dias vividos num lugar, quando sobre ele se abate a peste bubónica, enquanto uns morrem de forma indiscriminada e outros procuram a cura – aguarda-se o milagre, aguarda-se o fim.

Ainda na saga das obras sobre grandes pandemias, entretenha-se o leitor com Saramago e o seu Ensaio sobre a Cegueira, de tal forma terrível, de tal forma sufocante, de tal forma colossal, que por momentos se torna difícil não sentir a alvura da página inundar-nos também a vista, quando a cegueira branca que acomete uma pequena cidade de um qualquer país nos é descrita.

O que difere o Ensaio sobre a Cegueira d’A Peste é que, no primeiro, o surto nunca foi relatado na História; porém, tanto Camus, como Saramago, põem a nu – de uma maneira que dói – a fragilidade imensa do Homem, facilmente manipulado, no confronto com a doença, pela espera e pela incerteza, num teste sem fim aos limites da liberdade.

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“O bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido (…) espera pacientemente, (…) e viria talvez um dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz” in A Peste, de Albert Camus

“É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade.” “Mas quando a aflição aperta, quando o corpo se nos desmanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos.” in Ensaio sobre a Cegueira , de José Saramago

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Ana Luísa tem 22 anos e frequenta o 5º ano da FCM-NOVA, desde setembro de 2010. É natural de Caldas da Rainha, mas foi na vila da Benedita que completou o ensino secundário. Hoje, além de estudante de Medicina, é voluntária na Liga Portuguesa Contra o Cancro e Editora-geral da FRONTAL, onde já foi colaboradora e editora da secção de Cultura da revista (Para Inspirar) e do site. Fez parte da comissão organizadora do iMed Lisbon 2014 e interessa-se por viagens em geral - reais e irreais - além de tantas outras áreas diversas em particular, o que sempre levantou dilemas na hora de decidir o que fazer no futuro; o Ser Humano no seu todo é, contudo, o grande interesse que poderá sumarizar os restantes - o Cérebro, a Literatura, a Filosofia, a Natureza – e justificar a sua atual escolha.

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