A dádiva à Humanidade de Jonas Salk

 
O que têm em comum o presidente norte-americano Roosevelt, o imperador romano Cláudio e Frida Kahlo? Todos viveram com as marcas permanentes da mesma doença. Todos foram vítimas da Poliomielite. Mas que se desengane o comum mortal ocidental que hoje pensa na poliomielite como uma doença do passado distante. Poderiam ter sido mencionados os nomes dos actores Donald Sutherland, Mia Farrow, Ingrid Bergman ou o do músico Neil Young, quase todos eles ainda bem vivos, todos eles vítimas deste mal. O que transformou uma das doenças mais temidas nos países industrializados no início do século XX numa recordação mais ou menos longínqua? Entre outros, o trabalho e a generosidade de Jonas Salk.

A poliomielite é causada por um enterovírus que se transmite entre humanos por via fecal-oral. Foi descrita pela primeira vez em 1840 pelo ortopedista alemão Heine e o primeiro estudo clínico anatómico foi desenvolvido pelo sueco Medin, entre 1887 e 1895.

A maioria dos infectados permanece assintomática ou produz apenas sintomas minor, como febre, náuseas ou dores de garganta. Numa pequena percentagem de doentes, contudo, o vírus atinge o sistema nervoso central, destruindo os neurónios motores, e causando consequentemente paralisia. Documentam-se 3 tipos de poliomielite paralítica, consoante o segmento nervoso afectado:

 Tipos Características
Espinhal A mais comum. Afecta sobretudo os movimentos dos músculos do tronco e membros.
Bulbar Afecta o tronco cerebral. Paralisa músculos inervados pelos nervos cranianos, culminando em quadros de encefalite, com problemas no controlo respiratório, da fala e da deglutição.
Bulboespinhal ou respiratória Afecta a espinal medula na sua porção cervical, de C3 a C5. Origina paralisia do diafragma. Nestes doentes eram usados os famosos “pulmões de aço”, a técnica disponível na época para promover ventilação com pressão negativa.

Não existe cura para a poliomielite e a paralisia induzida é permanente. O tratamento passa sobretudo pelo alívio sintomático e pela prevenção de complicações.

A História da poliomielite

Até aos anos 50, o Verão era um período de ansiedade para os pais de crianças com menos de 5 anos. Tal acontecia  porque é nesta estação do ano e nestas idades que existe mais susceptibilidade para a infecção pelo vírus da poliomielite. E é por esta última razão que a doença era chamada de paralisia infantil. Não havia prevenção possível.

Nos Estados Unidos, anualmente, eram afectadas por paralisia entre 13.000-20.000 pessoas, morrendo cerca de 1000.

Capa da revista TIME de 29 de Março de 1954
Capa da revista TIME de 29 de Março de 1954

Em 1955, a vacina de Salk, que utiliza o vírus inactivado, foi tornada disponível. A partir desta data, a incidência da doença diminuiu rapidamente, fenómeno que se acentuou a partir de 1961, ano em que Sabin desenvolveu uma vacina oral. Os últimos casos de paralisia por poliomielite registados nos Estados Unidos foram em 1979.

Nos anos 70, muitos países introduziram esta vacina nos respectivos planos nacionais de vacinação, expandindo para a esfera global o importante papel das vacinas de Salk e Sabin.

A Global Polio Erradication Iniciative foi criada em 1988, com o apoio de mais de 200 países e 20 milhões de voluntários e com o objectivo de erradicar a poliomielite. Este esforço persiste até hoje.

Em Portugal, nos anos 50, a poliomielite permanecia um problema de Saúde Pública. Após uma epidemia da doença na cidade do Porto em 1958, foi introduzida no país a vacina de Salk, mas a cobertura conseguida foi insuficiente para causar um impacto epidemiológico relevante. Só em 1965, quando foi iniciada uma iniciativa de vacinação em massa, no contexto do início do Plano Nacional de Vacinação, é que os efeitos se começaram a sentir: comparando o período de 1950-1965 com o ano de 1967, a diminuição da morbilidade (casos declarados) e mortalidade por poliomielite foi, respectivamente, de 97,7% e 92,8%. Nos anos seguintes, o número de casos manteve-se muito baixo. O último caso de poliomielite registado em Portugal foi em 1986.

A vida de Jonas Salk

Jonas Salk nasceu em Nova Iorque, em 1914, numa família de imigrantes, com pouca escolaridade e baixo nível socioeconómico. Foi, contudo, incentivado a estudar, e fê-lo na New York University, onde estudou Medicina.

Depois de terminar os seus estudos, dedicou-se à Virologia, inicialmente estudando o vírus Influenza. Em 1947, aceitou uma colocação na Pittsburgh Medical School, e foi aqui que dedicou 8 anos ao desenvolvimento da vacina contra a poliomielite. Em 1955, terminados os ensaios clínicos, foi tornada pública, e Salk prescindiu de a patentear no sentido de a tornar disponível mais rapidamente.

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Críticos desta atitude questionam-se se Salk tomou esta decisão por saber que não estariam reunidas as condições legais para obter uma patente, ou se porque a investigação foi feita com fundos provenientes de doações populares, fazendo com que o acto de patentear a vacina fosse cobrá-la novamente a quem já tinha pago por ela. Independentemente destas questões, esta atitude de facto tornou o acesso à vacina muito mais rápido às populações de menores recursos económicos, o que contribuiu para a rapidez do sucesso da vacinação no controlo da doença.

Em 1963, fundou o Jonas Salk Institute for Biological Studies, um centro dedicado exclusivamente a investigação médica e científica. Sob a sua direcção, o instituto dedicou-se à pesquisa em múltiplas áreas, estando Salk directamente envolvido em estudos de várias patologias, como a esclerose múltipla, doenças auto-imunes, imunologia do cancro e o aperfeiçoamento da manufactura da vacina da poliomielite.

Os seus últimos anos foram dedicados ao estudo do vírus do VIH, na tentativa de desenvolver uma vacina.

Faleceu em 1995, com 80 anos.

A Poliomielite hoje

Os casos de poliomielite reduziram drasticamente em número após a introdução da vacinação. Em 1988 houve 350.000 casos no Mundo. Em 2013, apenas 416.

A doença foi erradicada na maioria dos países, sendo registados casos em apenas alguns: Guiné Equatorial, Camarões, Síria, Paquistão, Afeganistão, Etiópia, Iraque, Israel, Nigéria e Somália. São consideradas zonas endémicas da doença apenas o Paquistão, o Afeganistão e a Nigéria.

Existem novos desafios para os programas internacionais de erradicação da doença (sobretudo em zonas de conflito, com instabilidade política, de difícil acesso ou com poucas infra-estruturas), que complicam a eliminação desta incidência residual. Há, nomeadamente, um aumento significativo de novos casos no Paquistão comparativamente a dados dos últimos 15 anos, por alguns pais recusarem a vacinação dos seus filhos, já que lhes foi incutida pelos talibãs a ideia de que, por exemplo, esta é uma conspiração dos países ocidentais para esterilizar as suas crianças.

Em suma, a vacina de Salk e a sua dádiva à Humanidade foram determinantes na luta contra a Poliomielite. A vacina constituiu uma ferramenta essencial para que uma doença que antes tinha uma prevalência significativa em todo o globo, com uma morbilidade muito importante, se tenha tornado hoje rara e endémica em apenas alguns países.

Esperemos pois que a sua erradicação seja possível num futuro próximo.

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