A Língua Portuguesa vai ao Médico

No rescaldo de um ano particularmente glorioso para a pátria de Camões e porque ser patriota é mais do que gritar “golo”, reflectimos, hoje, sobre a Língua Portuguesa.

É à quarta língua mais falada no Mundo (e à mais falada no Hemisfério Sul) que nos referimos, contando actualmente com 261 milhões de falantes nos cinco continentes e múltiplas pluralidades e dialectos. É desta vivacidade e dinâmica que vão surgindo os linguajares próprios, determinados pela geografia, faixa etária ou situação profissional. O ambiente hospitalar parece, então, constituir um universo singular e com a sua própria gíria, que se foi arquitectando em torno das maleitas de cada um. Desde a “senhora que vai ao médico”, erudita detentora de sabedoria popular, à terminologia mais técnica e, por vezes, hermética dos profissionais, foi-se desenvolvendo um vocabulário peculiar por entre os corredores estéreis dos serviços de saúde.

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Numa conjuntura em que tudo tem de ser feito à velocidade da luz, parece não haver tempo para cuidar da nossa pátria que, como quis o desassossegado Soares, é a Língua Portuguesa.

Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa.

A FRONTAL debruça-se sobre os pontapés lexicais que as paredes de um consultório ouvem, prometendo deixar-nos a todos com mais “tento na língua”.

Comecemos pela gíria das octogenárias. A Língua Portuguesa vai ao médico quando a “senhora-que-vai-ao-médico” vai ao médico e nos brinda com as mais belas corruptelas, ingénuas deformações das palavras que nos fazem conter um sorriso (ou que nos fazem sorrir para conter uma gargalhada). A senhora-que-vai-ao-médico recorre ao médico de família para fazer as analzes a tudo, um táco e um ró-xis (também conhecido como tirar uma chapa). Não gosta de tomar medicamentos genéticos (ou transgénicos), acha que deve ser sempre prescrito um tibiótico – pelo menos o dos três dias – e, para os acessos de tosse, a solução é quase sempre um rebuçado Dr. Bayard. Não padece de qualquer doença, no entanto, quando questionada, exibe os comprimidos para o castrol e para os diabretes altos, imaculadamente acondicionados num saco de plástico. Continuando no campo da medicação, existe ainda o latarzan para a atensão alta, o vaifino para o sangue grosso, a estorvastatina para o colesterol e o diapazom para dormir melhor. Muitas tiveram princípios. Princípios de AVC, princípios de enfarte… e algumas têm a vacina do této em atraso.

Depois, há os maridos das senhoras-que-vão-ao-médico, muitas vezes acompanhados pela sua intérprete (mais comummente intitulada de esposa) e surgem pérolas como esta: “Para a prosta é ½ copo de Licor Beirão”, que nos provam que existem muitos poetas anónimos escondidos nas salas de espera por esse Portugal fora.

O pequeno consultório acaba por ser um lugar comum às expressões e sotaques carregados vindos dos quatro cantos da Lusitânia (e ilhas), e cuja riqueza nos faz perceber que nada é estático ou normativo.

Passando para a secretária do médico, não podemos negar que os registos simplificados pelos diários electrónicos são uma mais-valia para a dinâmica hospitalar. No entanto, têm contribuído para a simplificação da língua e mesmo para alguns equívocos. As anotações por vezes demasiado coloquiais (‘’vai com digoxina, depois logo se vê”) contrastam com o vocabulário codificado que alguns doentes não entendem, podendo mesmo motivar alguns pânicos desnecessários, não fosse tremendo o poder das palavras.

Além disso, quando surge um FARVRHAE (leia-se fibrilhação auricular com resposta ventricular rápida e hemibloqueio anterior esquerdo)  podemos levar uns bons segundos a perceber que é necessário iniciar terapêutica antiarrítmica. Usa-se e abusa-se das siglas e dos acrónimos, fugindo ao vernáculo da nossa língua materna.

Mais penoso, ainda, é quando surgem os dislates, entenda-se “as calinadas”. O famigerado e recorrente mau uso do verbo haver no plural, os pleonasmos, os acentos nos advérbios de modo e aquele hífen que teima em aparecer no pretérito perfeito. No hospital tudo se pode fazer. Fazer medicação, fazer uma entorse ou fazer um AVC. Por vezes as coisas ocorrem de forma expontânea e a aderência à terapêutica nem sempre é a melhor (nem à ortografia). É a gíria médica na sua ausência de esplendor e propriedade.

Por fim, as confusões legítimas que apoquentam qualquer estudante de medicina:

  • Craneano ou craniano? Craniano.
  • Co-morbilidade ou comorbilidade? Comorbilidade ou, se preferirmos poupar uma sílaba, comorbidade.
  • Alergénio ou alérgeno? Para alívio dos consternados, ambas as formas estão correctas.

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Olhando para o papel, não podemos esquecer a célebre “letra de médico”. Haverá um dia em que seremos incapazes de interpretar a nossa própria caligrafia, estando superada a derradeira confirmação de que somos oficialmente médicos (pelo menos é assim que o imagino). Existem inclusivamente teorias que tentam explicar o que, na realidade, deve ser apenas fruto da desistência de alguém que esteve seis anos a batalhar contra a celeridade de um professor a debitar um tratado de Medicina Interna numa aula de 45 minutos. Uma delas defende que, quando não existiam laboratórios farmacêuticos, os médicos faziam prescrições que só os boticários conseguiam decifrar, evitando que o doente fizesse o próprio remédio e actualmente existe, mesmo, uma portaria no Código de Ética Médica que requer que as receitas sejam legíveis.

Purismos e pedantismos gramaticais à parte, nem só de ofensas à língua portuguesa os médicos são feitos. Temos vários exemplos de individualidades que nos deixaram um delicioso legado na área da Literatura. Miguel Torga (1907-1995), Fernando Namora (1919-1969) ou António Lobo Antunes são apenas alguns dos que se aventuraram, e bem, pelo mundo da escrita.

António Lobo Antunes, na atribuição do prémio “Vida e Obra” pela Sociedade Portuguesa de Autores, a 15 de Março de 2017.

O português é rico, valioso e complexo como idioma que evoluiu desde os seus primórdios latinos, há mais de dois mil anos. O erro de português é uma doença omnipresente e contagiosa, e até é bom que existam doenças ortográficas e gramaticais, como variantes vivas e aceitáveis de uma língua dinâmica e florescente. Mas há que haver prudência na banalização e aceitação tácita dos erros, com consequente generalização, correndo o risco da regressão linguística.

Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m’a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

A palavra, escreveu Bernardo Soares, é completa, vista e ouvida, e o seu uso sem propriedade trai a função da língua. Trai, afinal, a pátria portuguesa.

Este artigo foi escrito segundo o antigo Acordo Ortográfico.

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