Anatomia Sistina

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After the divine part has well conceived
Man’s face and gesture, soon both mind and hand,
With a cheap model first at their command,
Give life to stone, but this is not achieved by skill.
In painting, too, this is perceived:
Only after the intellect has planned the best and highest,
Can the ready hand take up the brush
And try all things received.

Michelangelo (1475-1564)

Corria o ano de 1508 quando o Papa Júlio II, talvez olhando para o azul estrelado que cobria então o tecto da Capela Sistina, decidiu ser aquela a altura de mudar. Michelangelo, à época embrenhado em planos para o túmulo papal, aceitou relutantemente interromper os seus trabalhos de escultura para se dedicar, durante quatro anos, aos frescos que se viriam a tornar num dos mais grandiosos marcos da arte do Renascimento.

Representação do auto-retrato de Michelangelo, por Jean Louis Potrelle

Incontestável no seu engenho e vivendo num período efervescente de curiosidade científica, Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni destacou-se não apenas como escultor, pintor e arquitecto, mas também pelos seus conhecimentos anatómicos notáveis. O fascínio de Michelangelo pela Anatomia começou nos seus primeiros anos de formação através da observação de dissecções em cadáveres na corte dos Medici e, a partir dos dezoito anos, aventurando-se sozinho na mesa de dissecção. Apesar de poucos terem sido os manuscritos de anatomia que sobreviveram (restam alguns estudos na sua maioria referentes ao sistema músculo-esquelético, tendo os outros sido alegadamente destruídos pelo próprio – note-se que a Igreja, que não via com bons olhos a prática de dissecções, era um dos principais mecenas do artista), o interesse pela anatomia humana encontra-se sobeja e inegavelmente visível na obra de Michelangelo, reflectindo-se desde as harmoniosas curvas de David até ao realismo das mais de 300 figuras que ocupam o tecto da Capela Sistina.

“… there is no animal whose anatomy he would not dissect; and he worked on so many human anatomies that those who have spent their lives at it in this profession hardly know as much as he does”.

Condivi, contemporâneo de Michelangelo e um dos seus primeiros biógrafos

Hoje, mais de 500 anos volvidos da hercúlea tarefa que marcou a vida (e, sem dúvida, a região lombar) de Michelangelo, é já extensa a lista de vozes que clamam a existência de achados anatómicos “escondidos” por entre as pinceladas do artista na Capela Sistina.

Uma lição velada de anatomia?

Há 25 anos, o Dr. Frank Meshberger publicou um artigo em que revelava uma surpreendente descoberta no painel d’A Criação de Adão: o formato do cérebro humano, com detalhes de dois planos em simultâneo. Assim, num plano sagital mediano, o manto de Deus corresponde ao limite externo; o sulco do giro cingulado entrevê-se no contorno da coxa do anjo à sua frente, continuando-se pelos seus ombros até ao extremo da sua mão esquerda; a ponte, bulbo e medula espinhal adivinham-se no dorso e membro inferior esquerdo do anjo mais abaixo; e a haste hipofisária e o quiasma óptico na perna e joelho do anjo mais à esquerda. Depois, vendo de lateral, seguindo o antebraço do mesmo anjo até à cintura de Deus, desenha-se a fissura de Sylvius, e na figura de uma esvoaçante faixa verde tem-se, ascendendo, a artéria vertebral.

A Criação de Adão

Representação da teoria de F.L. Meshberger no painel d’ “A Criação de Adão”

Num outro fresco – A Separação da Luz das Trevas –, o neurocirurgião Rafael Tamargo e o especialista em desenho anatómico Ian Suk, em 2010, puseram em evidência traços daquilo que admitem ser uma visão anterior do tronco cerebral na região cervical de Deus, bem como dos segmentos cervical e torácico da medula espinhal, com a fissura mediana anterior, nas pregas longitudinais que se observam nas vestes do mesmo. Os autores, através da análise digital dos jogos de sombra deste fresco, notaram ainda que as zonas de sombra cervicais corresponderiam com uma exactidão surpreendente à anatomia das cisternas da base.

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1 – Comparação entre detalhe d’ “A Separação da Luz das Trevas” e zona correspondente de uma peça de dissecção | 2 – Detalhe d’ “A Separação da Luz das Trevas”, com destaque para o eventual esboço cérvico-torácico da medula espinhal | 3 – Digital “shadow analysis” evidenciando a anatomia das cisternas

 

Mas não é só neuroanatomia que se descobre nos tectos outrora erguidos como homenagem ao papa Sisto IV. Em 2000, o Dr. Garabed Eknoyan, nefrologista e professor na Baylor College of Medicine, no Texas, notou a semelhança entre os drapeados e dobras do manto de Deus com o contorno do rim e a pelve renal, vislumbrando também nos anjos que o ladeiam um esboço das pirâmides de Malpighi. Tendo em conta o tema deste painel – A Separação da Terra e das Águas – e a fisiologia de Galeno que, então, compreendia o rim como o órgão que separava o sólido do líquido (sangue), quão genial seria se Michelangelo tivesse deliberadamente ocultado um rim neste painel?

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a – Detalhe d’”A Separação da Terra e das Águas” | b – Remoção das figuras para evidenciar o contorno renal | c – Versão recriada a partir de b) para destacar o ureter e os vasos renais | d – Ilustração anatómica do rim

Seguindo para o aparelho respiratório, e avançando para o painel d’A Criação de Eva, o Dr. Barreto e o Dr. Oliveira, médicos brasileiros, apontaram para a possível representação de parte da árvore traqueobrônquica, na figura do tronco encostado ao qual dorme Adão; e do pulmão esquerdo, visto lateralmente no manto de Deus.

Destes autores surge também a teoria de que, no fresco onde está representada a Sibila de Cumas, é possível entrever o pericárdio e a emergência dos grandes vasos na sacola azul que pende à direita e inferiormente ao livro segurado pela Sibila. Veja-se então a primeira alça da sacola, azul, que representaria a veia cava superior, seguida das folhas de papel enroladas, representando o arco aórtico e, mais abaixo, as franjas vermelhas como sendo fibras do diafragma sobre o qual repousa o pericárdio fibroso. Note-se ainda a posição sugestiva de um dos anjos, assentando a mão sobre o precórdio do outro.

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“A Criação de Eva”: 1 – Detalhe do painel | 2 – Contorno do pulmão esquerdo em evidência | 3, 4 – Ilustrações anatómicas do pulmão esquerdo e parte da árvore traqueobrônquica || “A Sibila de Cumas”: 1- Detalhe do fresco | 2 – Figuras comparadas ao pericárdio e grandes vasos postas em evidência | 3 – Ilustração anatómica do pericárdio

Os parcos exemplos de achados anatómicos aqui abordados não fazem jus à imensidão de estruturas já “reveladas” na obra de Michelangelo: desde a articulação glenoumeral, ao hióide e até um possível bócio, muito fica ainda por explorar. E depois, até que ponto se poderá dizer que estas estruturas não são mais que a tendência humana, toldada pelo hábito, a ver padrões onde estes não existem? Tal como o neurocirurgião descobre o contorno da medula oblonga, e o nefrologista descortina a loca renal, escapariam os tectos da Capela Sistina ao olho viciado de um cirurgião geral? Ainda que nunca se venha a saber se estes achados são realmente pequenos enigmas semeados por Michelangelo ou apenas a imaginação dos especialistas a completar aquilo que vêem, hoje, olhando para o tecto da Capela Sistina, a única certeza é a de haver muito mais para desvendar  que no céu estrelado de outros tempos.

Bibliografia