Biblioterapia: o Poder Redentor da Leitura (e o que a Ciência tem a dizer sobre isso)

Ler é, muitas vezes, sinónimo de viajar, aprender e descontrair: quem lê é capaz de desbravar novos lugares – fora e dentro de si mesmo –, descobrir novas perguntas – ou um jeito de melhor as formular – e alhear-se do bulício do quotidiano – ou fugir da solidão. Tudo isto num virar de páginas.

Há quem diga que a leitura pode ser uma experiência terapêutica. E se, literalmente, o fosse? O uso da leitura como coadjuvante em tratamentos médicos já é praticado desde o tempo dos gregos e romanos, mas só há pouco mais de uma década se começam a reunir fortes evidências científicas que atestam a virtude das palavras enquanto bálsamo curativo. Neste artigo, a FRONTAL debruça-se sobre as raízes históricas desta prática, batizada de biblioterapia, para compreender o porquê de psicólogos e psiquiatras a aplicarem atualmente nos mais diversos pontos do globo. Descobre um pouco mais do lado Homo legens da nossa espécie!

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«When you are growing up there are two institutional places that
affect you most powerfully: the church, which belongs to God,
and the public library, which belongs to you.»

Keith Richards (guitarrista e fundador de The Rolling Stones)

CONCEITO

Etimologicamente composta por dois étimos gregos (biblíon, livro; e therapeía, terapia), a palavra «biblioterapia» não é apenas o que à prima facie poderia sugerir – o recurso à leitura como estratégia de tratamento de distúrbios mentais, emocionais e comportamentais. Na verdade, além de se tratar de um adjuvante terapêutico, esta atividade assume igualmente uma vertente preventiva, concebendo a leitura (individualmente ou em grupo) como uma experiência salutar para a cartografia do «eu». Como escreveu Alberto Manguel em “A história da curiosidade, «toda a leitura é, ao fim e ao cabo, menos uma reflexão ou tradução do texto original do que um retrato do leitor, uma confissão, um acto de auto-revelação e autodescoberta». E, acrescente-se, de amplo espetro de ação, não fosse ela uma modalidade low-cost e isenta de efeitos secundários.

Em contraste com Portugal, onde ainda é pouco conhecida, a biblioterapia já é amplamente estudada e praticada em países como Espanha, Inglaterra, Brasil e EUA, sendo «prescrita» não só para doenças do foro psiquiátrico mas também para diversos outros problemas de saúde, desde a insónia à perda de memória, passando pela fobia social e dilemas existenciais. Sendo ela uma atividade de cariz interdisciplinar, e incapaz de suplantar a terapia clínica clássica, em parceria com o corpo médico deve articular-se estreitamente uma rede plural de profissionais de outras áreas, nos quais se incluem biblioterapeutas, enfermeiros e psicólogos.

PERSPETIVA HISTÓRICA

A exploração do valor terapêutico da leitura é mais antiga do que se possa pensar: não só o Alcorão fazia parte integrante do tratamento médico já na Grécia antiga, como os clássicos filosóficos eram recomendados pelo médico romano Aulus Cornelius Celsus, para quem a leitura e discussão dos mesmos abonava a favor do combate às doenças cardíacas e do apuramento da atitude crítica dos pacientes. E é precisamente pela pena de um filósofo (também médico, conquanto essa seja uma faceta sua menos conhecida) que surge a apologia do efeito catártico da leitura: para Aristóteles, esta é um meio de libertação de emoções como o medo, a dor e sofrimento e, por conseguinte, de purificação da alma humana.

Se na Antiguidade Clássica os livros eram tidos como «remédios para a alma», na Idade Média vinculou-se a prática de uma espécie de biblioterapia religiosa, utilizando-se a leitura de livros sagrados (dos quais a Bíblia e o Alcorão) como método terapêutico complementar. Séculos mais tarde, em 1850, John M. Galt defende o exercício da leitura nos hospitais e, naquele que é o primeiro artigo sobre biblioterapia – “On reading, recreation and amusement for the insane” (1858) –, elenca cinco vantagens que elevam a leitura ao estatuto de aliada terapêutica: (1) focaliza a atenção do paciente, expurgando pensamentos menos saudáveis; (2) faculta momentos de lazer e divertimento, ao mesmo tempo que (3) contribui para a instrução; (4) aumenta a qualidade de vida durante o internamento e (5) facilita a aceitação da terapia.

Contudo, foi preciso esperar até ao princípio do século XX para o termo surgir pela primeira vez, num artigo a que o ensaísta norte-americano Samuel Crothers intitulou “Literacy Clinic”: «bibliotherapy is such a new science that it is no wonder that there are many erroneous opinions as to the atual effect which any particular book may have» (1916). Os primórdios da biblioterapia sobrepõem-se a um período negro na História mundial: é durante a Primeira e a Segunda Grandes Guerras que se multiplica, nos EUA, o número de bibliotecas pelos hospitais de campanha, passando a leitura a ser encarada como uma terapia do ponto de vista médico (atualizava-se, assim, o cognome que os gregos haviam estampado na entrada das bibliotecas: «lugar para a cura da alma»). Tal prática é rapidamente adotada pelas comunidades psiquiátricas no processo de reabilitação dos soldados feridos e dos veteranos acometidos por stresse pós-traumático, após os psiquiatras se terem apercebido de que os militares que dispunham de acesso à leitura registavam uma evolução mais favorável. Alguns anos depois, na Universidade de Berkeley (Califórnia), Caroline Shrodes defende, em 1949, a sua tese de doutoramento – “Bibliotherapy: a theoretical and clinical-experimental study” –, a qual se serve da teoria aristotélica da catarse e da teoria psicanalítica freudiana para estudar a reação dos leitores à literatura ficcional. Nesta tese, que ainda hoje é considerada um referencial pioneiro e teórico dos fundamentos da biblioterapia, C. Shrodes defende que o valor terapêutico da leitura reside quer na introspeção quer na projeção do ego. Mais recentemente, em 2003, o psiquiatra Neil Frude lançou um novo fôlego à biblioterapia ao perceber que, entre os pacientes que tomavam antidepressivos, os que liam como forma de entretenimento não só respondiam melhor à frustração como isso parecia favorecer o seu estado clínico.

Apesar de as suas raízes históricas se encontrarem mergulhadas a vários milénios de profundidade, o conceito de biblioterapia não se encontra, à data, abrangido pelo dicionário de língua portuguesa (versão impressa), ao contrário do que sucede no mundo anglo-saxónico, onde é definida da seguinte forma: «The use of selected reading materials as therapeutic adjuvants in medicine and psychiatry. Also: guidance in the solution of personal problems through directed reading» (Association of Hospital and Institution Libraries, 1966).

MÉTODO BIBLIOTERAPÊUTICO

“Fiction is the simulation of selves in interaction. […] Fiction can be thought of as a form of consciousness of selves and others that can be passed from an author to a reader or spectator, and can be internalized to augment everyday cognition.”  

| Fiction: Simulation of Social Worlds, Keith Oatley (Trends in Cognitive Sciences, 2016)

O diálogo – a linguagem em movimento – é o fundamento da biblioterapia (Caldin, 2001), tendo como ponto de partida a leitura (daí a importância de serem selecionados textos adequados ao perfil de cada paciente). Com efeito, a discussão grupal e o diálogo mediador colocam em confronto diferentes «eus», potenciando a partilha de intersubjetividades, desejos, emoções e ideias. Só após esta interação social a leitura se tornará terapêutica – e catártica.

Posto isto, no processo biblioterapêutico está em jogo a «identidade dinâmica», que agrega o sistema de ideais e valores pelos quais a pessoa se rege, e que contrasta com a «identidade estável», representada pelo que socialmente a identifica (nome, profissão, posição social). De acordo com Clarice Caldin, estudiosa da biblioterapia, este método subdivide-se em quatro fases:

  1. Identificação: trata-se da vinculação emocional do leitor com uma personagem da obra, ora pela sua virtude ora pela má índole, permitindo-lhe vivenciar, numa esfera intelectual e indolor, os conflitos do «outro», o que fomenta a introspeção;
  1. Introspeção: aqui entendida como reflexão interior. Nesta tomada de consciência psicológica, o leitor é impelido a refletir sobre os seus próprios processos mentais (ações, pensamentos, emoções) e a rever-se, o que poderá culminar numa mudança comportamental e/ou numa aceitação de si;
  1. Projeção: consiste na «expulsão» do ego e na transferência dos seus sentimentos, expectativas e ideias para o outro. Nesta etapa de evasão e de reconhecimento, o leitor pode aproximar-se ou afastar-se das personagens ou situações expostas, a pretexto das quais repensará a sua própria experiência;
  1. Catarse: a fase da resposta emocional e da pacificação das emoções, categórica para o fim ulterior a que a biblioterapia se propõe. O facto de, a partir de um texto literário, o leitor se ter «apoderado» de uma personagem (engagement with the other) e compartilhado as suas dores, medos e anseios promove a libertação da tensão, gerando alívio emocional com propriedades terapêuticas. O livro surge, assim, como equivalente à tragédia grega, pelo que a literatura reclama para si, nas palavras de Caldin, um papel sedativo e curativo.

BENEFÍCIOS

A biblioterapia tem um papel colaborativo na gestão de diversos domínios, entre os quais se evidenciam os da ordem intelectual, social, emocional e comportamental. Eis alguns dos seus potenciais benefícios:

  • Auxílio na adaptação à vida hospitalar, prisional ou escolar;
  • Reforço do papel ativo do paciente no decurso do processo terapêutico;
  • Redução da ansiedade, alívio do stress e aumento da autoestima;
  • Incentivo à socialização através da conversa em grupo, diminuindo a sensação de isolamento e auxiliando o leitor a perspetivar outras formas de sentir e pensar;
  • Facilitação do desenvolvimento emocional do leitor, ajudando-o a lidar com a raiva, a frustração, a tristeza e o medo;
  • Aumento da capacidade de verbalização e exteriorização de pensamentos, emoções e problemas, clarificando assim as dificuldades individuais;
  • Favorecimento de  uma perceção mais apurada da condição existencial do leitor (autoconhecimento), podendo agilizar a mudança de comportamentos.

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Além de melhorar a saúde mental – por exercitar a imaginação, a memória e o raciocínio –, a prática da leitura literária, sobretudo narrativa de ficção, pode fomentar a empatia e ajudar os pacientes a superar as suas fragilidades emocionais, desempenhando assim um papel importante na formação da personalidade.

Como escreveu Antonio Candido, «a literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas» e de erigirmos o nosso próprio universo concetual e imagético, singular e irrepetível, a partir do imaginário facultado pela leitura – ao invés do que acontece com outros métodos audiovisuais. «A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos à natureza, à sociedade e ao semelhante». Daí que este sociólogo e crítico literário brasileiro vá ainda mais longe e proponha que a literatura seja alçada ao patamar dos direitos universais do ser humano.

O que Annie Murphy Paul escreveu numa das suas colunas semanais publicadas na revista Time  corrobora o poder empático da literatura: «Recent research in cognitive science, psychology and neuroscience has demonstrated that deep reading – slow, immersive, rich in sensory detail and emotional and moral complexity – is a distinctive experience». E há diversos estudos que provam e explicam porquê.

Uma investigação conduzida pela Universidade de Sussex, em Inglaterra (“Galaxy Commissioned Stress Research”, 2009), concluiu que bastam seis minutos de leitura para que os níveis de stress decresçam 68%, sendo portanto um método mais eficaz de relaxar comparativamente com outras atividades, como ouvir música (61%), beber chá (54%), caminhar (42%) ou jogar videojogos (21%). Por outro lado, é cada vez maior o número de evidências que demonstra que o hábito de ler ficção leva ao aumento da empatia, na medida em que capacita a vivência, em segunda mão, de todo um manancial de situações problemáticas e de sentimentos fictícios na pele de um «eu» cujas crenças, valores e perspetivas são distintas da do leitor. Este tenderá, portanto, a ser mais compreensivo e aberto a novas maneiras de pensar e viver – em suma, mais empático.

É precisamente para isso que aponta um estudo publicado no Journal of Applied Social Psychology. O título diz tudo: em “The Greatest Magic of Harry Potter: Reducing Prejudice”, os investigadores avaliaram jovens de diferentes níveis de ensino, em Itália e no Reino Unido, e constataram que aqueles que haviam lido livros da saga Harry Potter e se identificavam com o protagonista homónimo eram mais empáticos para com grupos socialmente estigmatizados (neste caso: imigrantes, homossexuais e refugiados). Afinal, um leitor que se preze vive mesmo mais vidas do que o comum dos mortais, como sugere o estudo: «Contact via fictional characters improved out-group attitudes by eliciting a cognitive process similar to that activated in real contact (i.e., perspective taking)».

A Ciência e a Literatura parecem estar, portanto, de acordo. Como aponta de forma certeira o escritor David Foster Wallace:

«We all suffer alone in the real world. True empathy’s impossible. But if a piece of fiction can allow us imaginatively to identify with a character’s pain, we might then also more easily conceive of others identifying with their own. This is nourishing, redemptive; we become less alone inside. It might just be that simple».

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Em janeiro de 2017, Barack Obama confessou ao The New York Times que os livros o ajudaram a gerir os oito anos de presidência. Nas suas palavras,“the role of stories to unify — as opposed to divide, to engage rather than to marginalize — is more important than ever.”

MODELOS DE SUCESSO

Se no solo português a biblioterapia é ainda esparsamente praticada, o mesmo não se pode dizer do panorama mundial. Do Brasil ao universo anglo-saxónico, passando por centros de pesquisa e universidades de todo o mundo, o recurso à biblioterapia nas áreas da psicologia e psiquiatria tem sido crescente. Eis alguns modelos de sucesso:

Reading Agency

The Reader Organization

Veterans Administration

Instituto Sonia-Shankman

A Biblioterapeuta

The Therapist
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No site A Biblioterapeuta, lê-se em primeira pessoa que, neste «serviço de consultadoria lançado em Maio de 2016, combino a metodologia do Coaching com os conhecimentos adquiridos durante os anos de trabalho no mercado livreiro. Desta forma, pretendo ajudar indivíduos e empresas a atingir objectivos e a mudar para melhor. Basta ler os livros certos.»

Em coexistência com as suas potencialidades, a biblioterapia depara-se também com limitações que lhe estão inerentes e com desafios que importa conhecer no âmbito do seu exercício profissional. Desde logo, como balizar o campo de atuação de um bibliotecário e de um biblioterapeuta? Acabará o papel dos clínicos por ser secundarizado nesta modalidade terapêutica? Dever-se-á instituir uma agência de acreditação para o treino de profissionais neste ramo? E, como tão bem formulou Leah Price, escritora e professora na Universidade de Harvard:

«What’s lost when a bookshelf is repurposed as a medicine cabinet – and when a therapist’s job gets outsourced to the page?»

Perante estas dúvidas resta a certeza de que a leitura contribui para a gestão otimizada das emoções e de que a criação de padrões narrativos assume-se, desde tempo imemoriais, como um modo de fabricar sentido face ao caos e ao absurdo que reinam no universo. Como uma prova da nossa humanidade.

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