E Morreram Felizes Para Sempre

E se te disséssemos que podes correr atrás de D. Pedro I, Inês de Castro, Egas Moniz ou até de um enfermeiro com ideais macabros pelos corredores do Hospital Júlio de Matos? Desde abril deste ano que decorre numa ala abandonada do Hospital Júlio de Matos o espetáculo imersivo “E Morreram Felizes para Sempre” A FRONTAL explica-te num artigo em três atos o conceito inovador por detrás desta produção.full

Primeiro Ato – O Conceito

Ao entrar no pavilhão 30 do Hospital Júlio de Matos somos recebidos num ambiente enevoado, fantasmagórico, que aumenta a ansiedade própria de quem está prestes a vivenciar algo completamente novo. Um rececionista, que parece saído dos anos 50, explica que devemos deixar os nossos pertences à entrada e entrega-nos uma máscara cirúrgica para colocarmos durante todo o espetáculo. O que acontece daí para a frente é todo um desenrolar de simbioses perfeitas e improváveis.

Em primeiro lugar, somos espetadores e simultaneamente agentes. “E Morreram Felizes para Sempre” é um espetáculo imersivo, estilo que foi popularizado em Londres e Nova Iorque por peças como The Drowned Man, Sleep no More, ou Then She Fell. No teatro imersivo, enquanto a ação principal se desenrola, o espetador, que é um espetador ativo, é livre de percorrer o local onde ela decorre, decidindo de que forma deseja acompanhar a história, seja seguindo um personagem, seja explorando os diferentes espaços. Pode parecer confuso mas, na realidade, é um desafio aliciante.

Em segundo lugar, a história a acompanhar neste espetáculo é inspirada na tragédia amorosa de D. Pedro I e Inês de Castro e na invenção da leucotomia, por Egas Moniz. Ninguém diria que dois episódios tão diferentes se podiam conjugar tão bem. A verdade é que podem e o resultado é surpreendente. Citando a sinopse oficial:

Dr. M, o Diretor do Hospital, acaba de conquistar um importante prémio internacional. Ultimam-se os preparativos para uma festa em sua homenagem. Pedro, o médico residente, chega à festa acompanhado de sua mulher, Constança. Eis que surge Inês, a recém chegada enfermeira espanhola. Pedro fica hipnotizado e ela acaba em seus braços, à frente de todos. Constança, consumida pelo ciúme, interrompe o momento romântico e discute violentamente com o marido. Dr. M assiste à cena e acede ao pedido de Constança para afastar Inês. Quando Pedro descobre que Inês foi transferida, resgata-a e dá-se o contacto sexual. Dr. M percebe que foi contrariado e pede ao Enfermeiro Coelho para lidar com a situação. O Enfermeiro, aproveitando-se da situação, interpreta a ordem de forma errada e lobotomiza Inês. Pedro descobre o sucedido e confronta o Dr. M. Em seguida, movido pela dor, exige vingança. O Enfermeiro é humilhado e executado em público. Ao longo da noite, um estranho Violinista percorre os corredores, mas ninguém parece vê-lo…

Ao longo do espetáculo, são ainda feitas referências a curiosidades interessantes: há uma interpretação do cronista Fernão Lopes acerca de uma relação amorosa entre D. Pedro I e o seu escudeiro Afonso Madeira – sendo que Pedro o teria mandado castrar por ciúme após descobrir que este se tinha envolvido com uma mulher casada – e ainda à lobotomia transorbital. Esta técnica, também conhecida como icepick lobotomy foi inventada por Walter Freeman (1895-1972) e consistia na inserção de um picador de gelo através da cavidade orbital e em movimentá-lo por forma a quebrar as ligações do resto do encéfalo ao córtex pré-frontal.

Freeman baseou-se na leucotomia pré-frontal, idealizada por Egas Moniz em 1935. Nesse ano, Egas Moniz tinha participado numa conferência de neurologia em Londres e tomou conhecimento dos trabalhos de Jacobsen e Fulton. Estes dois neurologistas tinham realizado experiências em chimpanzés que, após serem leucotomizados, não adotavam comportamentos  agressivos quando cometiam erros – algo que ocorria sempre até então.  Sentindo-se inspirado, Moniz considerou que talvez fosse possível reduzir a ansiedade em humanos por via cirúrgica.

Primeiro, Moniz experimentou injetar álcool na substância branca do lobo frontal, que atuaria como agente esclerosante, quebrando as conexões do referido lobo com o lobo pré-frontal. Posteriormente, aperfeiçoou a sua técnica desenvolvendo um instrumento que designou como “leucótomo”, utilizado para cortar certas zonas de ambos os hemisférios do lobo frontal, através de orifícios criados no crânio. A técnica demostrou resultados promissores em doentes com esquizofrenia. O neurologista português viria a receber o prémio Nobel da 1949 pelo desenvolvimento desta técnica.

Mais tarde, Freeman desenvolveu a icepick lobotomy, tendo inclusivamente realizado a cirurgia numa uma carrinha modificada,  a que chamava “lobotomobile”, enquanto percorreu os Estados Unidos em digressão. Apesar de ter ajudado a aprofundar o conhecimento sobre a lobotomia, os seus métodos foram considerados questionáveis e macabros.

Na peça, podemos encontrar um Dr. M, representando Egas Moniz, atormentado pela ideia da sua técnica ter servido de inspiração ao Dr. W, que representa Walter Freeman.doutor m

Segundo Ato – A Experiência

Estamos 1949. Somos então colocados na sala onde decorre a referida festa. A sala, bem como todas as outras divisões do hospital, estão decoradas com objetos vintage. Existe sempre um nevoeiro no ar que em conjunto com e a música e a iluminação nos dão a sensação de termos invadido um filme. Este contraste de estar fisicamente presente num local que parece surreal provoca uma estranha e agradável sensação.

Após o escândalo na festa, cada personagem dirige-se para um dado local e temos que tomar decisões sobre como vamos experienciar o espectáculo, escolhendo uma personagem a seguir. É de referir que a ação ocorre em dois momentos: temos assim a opção de seguir um dado personagem na primeira atuação e, na segunda, seguir outro, ou simplesmente percorrer as diferentes salas. Além disso, nem todas as personagens participam diretamente na ação principal havendo pequenas histórias escondidas a descobrir. Podemos ainda ser interpelados para momentos one-on-one com os atores.

Existe, portanto, uma panóplia de formas de viver o espetáculo, pelo que não é de estranhar que nos encontremos com espectadores que estejam a assistir/participar ao E Morreram Felizes para Sempre pela terceira ou quarta vez.

O trabalho dos atores impressiona. Para que um espetáculo deste tipo resulte o timing tem que ser perfeito. Além disso, este formato de teatro faz com que a empatia e as emoções que sentimos sejam amplificadas pela nossa imersão no cenário e pela proximidade física com os personagens.

Terceiro Ato – O Regresso à Realidade

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No final do espetáculo temos direito a uma bebida no bar onde parte da história se desenrolou. Esse momento proporciona uma transição agradável que faz com que não se sinta um choque grande ao abandonar o pavilhão 30 e regressar à realidade.

Fomos então espetadores e agentes nesta versão do romance de Pedro e Inês que se funde com a história da psiquiatria e que decorreu num espaço fisicamente real mas que parecia saído de um sonho. Não é de estranhar que tenhamos saído de lá com sentimentos contraditórios: satisfeitos com a maravilhosa experiência nova, mas ainda insatisfeitos pela vontade de regressar.

Após duas temporadas, o fim do espetáculo decorreu no dia 19 deste mês, com casa cheia e sessões esgotadas.


Todas as imagens utilizadas neste artigo foram retiradas da página Facebook de E Morreram Felizes para Sempre.