Ed Wood, o pior realizador de sempre

Em 1980, o livro Golden Turkey Awards atribuiu a Edward Wood o prémio de pior realizador de todos os tempos e ao seu filme Plan 9 from Outer Space o de pior filme alguma vez feito. A FRONTAL dá-te a conhecer a incrível história deste realizador da década de 50, que lutou por ser aceite quer a nível profissional, com os seus filmes irreverentes, quer a nível social, enquanto travesti heterossexual.

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Johnny Depp protagonizando “Ed Wood”

Para descodificarmos a personalidade extremamente complexa deste homem, vamos seguir o seguinte conselho de Nietzsche: “É dos sentidos que procede toda a autenticidade, toda a boa consciência, toda a evidência da verdade”. Arrumemos então a complexidade de Wood em 5 sentidos.

Um sabor agridoce

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Edward D. Wood Jr

Edward Davis Wood Jr, conhecido por Ed Wood, nasceu em 1924 na cidade de Poughkeepsie, NY, filho único de um carteiro e de uma dona de casa. Enquanto criança, dois acontecimentos moldaram para sempre a sua vida.

Wood justificava a sua paixão por roupa de mulher com o facto de ter vestido roupas de menina quando era criança – a sua mãe sempre desejou uma filha e, não tendo esta nascido, vestiu ocasionalmente o pequeno Ed com roupa feminina. Enquanto soldado na segunda guerra mundial, a combater no Japão, utilizou também roupa interior feminina e, nesses momentos, receava mais ser ferido com gravidade do que ser morto em combate, uma vez que ser ferido implicava ter que ser despido do seu uniforme.

Wood alistou-se no United States Marine Corps com 18 anos, poucos meses após o ataque a Pearl Harbor. Era descrito como um soldado feroz e corajoso. Cumpriu as suas missões de forma exemplar, sobrevivendo à terrível batalha de Tarawa, e foi condecorado por diversos feitos militares. Aos 20 anos de idade foi honorably discharged do exército e passou a dedicar-se ao seu sonho cinematográfico. Este brotou do segundo acontecimento que mais marcou o pequeno Ed: a primeira ida ao cinema, para assistir ao filme Dracula (1931), protagonizado por Béla Lugosi. Daqui começou a nascer a sua paixão pela sétima arte, pelo género de terror e ainda a admiração por Lugosi, de quem se tornaria amigo pessoal no futuro. Wood dedicaria grande parte da sua vida adulta a perseguir o sonho de ser um realizador/produtor/argumentista de sucesso, como o seu ídolo Orson Wells. Os dois grandes prazeres de Ed seriam tão responsáveis por doces vitórias como por momentos difíceis e amargos.

Tateando o travestismo

Para Ed Wood, o travestismo está intimamente ligado ao tato, ao toque da roupa feminina na sua pele. O realizador tinha uma obsessão particular por camisolas de angorá, um tecido macio produzido a partir do pêlo dos coelhos angorá. Wood era heterossexual e uma das grandes batalhas da sua vida foi encontrar alguém que o aceitasse como travesti.

Enquanto entrevistava atrizes em busca de uma musa, conheceu Dolores Fuller, que o encantou de imediato por envergar uma camisola de angorá. Os dois mantiveram uma relação amorosa que durou três anos. Durante algum tempo, Dolores não soube que Ed era travesti. A revelação da verdade surgiu com o primeiro filme do realizador: Glen or Glenda? (1953), que retratava a vida de Glen, protagonizado por Ed Wood, um homem travesti que se debatia com o seu gosto por roupas femininas e o escondia da sua namorada, encenada por Fuller.

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Poster de 1953 do filme “Glen or Glenda”

Glen or Glenda? emerge na sequência dos da divulgação pelos jornais, em 1952, da história de Christine  Jorgensen, nascida George Jorgesen, que chocou a sociedade conservadora dos anos 50 com a sua mudança de género. Aos 24 anos de idade Christine viajou para a Dinamarca, onde realizou terapia hormonal com estrogénios sob a orientação do Dr. Christine Hamburger, de quem adotou o primeiro nome após a mudança de género. Hamburger  encorajou Jorgensen a assumir uma identidade feminina em público durante o primeiro ano de terapia hormonal e garantiu-lhe acompanhamento psiquiátrico – medidas que visavam garantir que estava efetivamente certa da sua decisão. Das suas notas médicas refere como  primeiro sinal da eficácia da terapêutica “um aumento das glândulas mamárias e o crescimento de cabelo numa área em que o doente estava a começar a ficar careca”. Há que ter em conta que, por esta altura, tinham sido poucas as cirurgias de mudança de sexo efectuadas (como por exemplo as de Lili Elbe, cuja história inspirou o filme de 2015 Danish Girl).

Este foi o primeiro caso que veio verdadeiramente a público: “Ex-GI soldier becomes blonde beauty”, dizia a manchete do jornal Daily News no dia 1 de dezembro de 1952. Efetivamente, depois das cirurgias, Jorgensen voltou a casa, nos Estados Unidos da América, onde ajudou a iniciar uma revolução na conceção da sexualidade como um espectro e não como dois pólos. De forma muito gradual, o próprio travestismo começou a ser visto como um espectro que ia de indivíduos heterossexuais que retiravam algum prazer em utilizar roupa do sexo oposto, como Ed Wood, a indivíduos homossexuais, que desejam efetivamente mudar de sexo, como Christine Jorgensen. 

Wood acabou por confessar a Dolores Fuller que a história do filme é na verdade a sua história. Após um choque inicial, Dolores aceitou eventualmente esta faceta do realizador e, apesar de não apreciar as suas aparições públicas vestido de mulher, emprestou-lhe diversas vezes a camisola de angorá, já que, para Wood, vestir angorá era o melhor calmante em tempos de stress. O casal acabou por se separar devido aos hábitos alcoólicos de Ed.

Ed veio a casar-se com Norma McCarty; no entanto, só lhe revelou o seu hábito na noite de núpcias, em que veste roupa interior feminina. Norma repudiou o travestismo do seu jovem marido, pelo que pediu uma anulação do casamento. Mais tarde, Wood conheceu Kathy Everett , que o aceitou como era e com quem esteve casado até ao fim da sua vida.          

Vendo o cinema

Wood tentou a sua sorte no mundo do cinema durante toda a década de 50. Depois de Glen or Glenda?, seguiram-se filmes como Bride of Monster (1955), Plan 9 from Outer Space (1956) ou Night of the Ghouls (1958), nenhum deles com sucesso.  A sua visão cinematográfica era muito particular. Dizia que no cinema

O que importa é a ideia geral e não os pequenos detalhes.

Em consequência, é possível observar vários erros nos seus filmes. Todos eles apresentam problemas de continuidade e diálogos bizarros. Em Plan 9 from Outer Space, o filme de que mais se orgulha, é possível ver fios ligados a OVNIS feitos de pratos de papel e até mesmo uma sepultura de cartão a ser derrubada. Encontramos carros que mudam de modelo a meio da cena e ainda um cockpit improvisado onde é possível identificar uma cortina para chuveiro. Alguns destes erros podem ser em parte justificados pelo orçamento reduzido de que Wood dispunha para as produções. 

O realizador tinha um gosto particular pelo uso de stock footage, ou seja, pequenos vídeos em arquivos livres para utilização. Contratou Bella Lugosi para quase todos os seus filmes, tendo sido o único realizador a dar emprego ao ator de terror clássico no final da sua vida – algo pelo qual Lugosi lhe seria eternamente grato. Wood foi, aliás, um grande apoio para Lugosi quando este tentou combater o seu vício em morfina. 

O faro para angariar fundos

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Poster de 1959 do filme “Plan 9 from Outer Space”

Alguns dos amigos mais chegados de Wood referiam que ele retirava mais prazer do processo de desenvolver as suas ideias do que em ver o filme concluído. 

As suas estratégias para obter investimento iam desde simples acontecimentos como festas de angariação de fundos até  complicadas artimanhas como uma afiliação à Igreja Baptista de Beverly Hills. – Wood precisava de investimento para realizar o filme Grave Robbers from Outer Space, sobre uma raça alienígena que, para impor o seu poder, decide ressuscitar os mortos do planeta terra e, ao saber que  a Igreja Baptista de Beverley Hills desejava produzir uma série de filmes bíblicos, sugeriu-lhe um negócio: a Igreja financiaria um dos seus filmes  de ficção científica, género muito na moda na altura e, com uma boa porção dos seus lucros, financiaria os seus filmes bíblicos. Os membros da Igreja aceitaram, apontando como condições a alteração do título do filme (que passou assim a Plan 9 from Outter Space) e a conversão de todo o elenco à Igreja Batista. E foi assim que Ed Wood e os seus amigos se deixaram batizar numa piscina com o objetivo de obter financiamento para aquele que é considerado o pior filme de todos os tempos.

Ouvindo as críticas

Apesar de terem sido alvo de duras críticas, Wood sempre defendeu os seus filmes. No entanto, estes nunca produziram lucro, pelo que o realizador se viu forçado a desistir do seu sonho. Durante os anos 60 e 70, passou a escrever novelas pornográficas como forma de sustentar a sua família. Faleceu em 1978, de enfarte agudo do miocárdio, em grandes dificuldades económicas.

Curiosamente, dois anos depois, a sua popularidade aumentou exponencialmente devido ao título de pior realizador de sempre. Desde então, têm surgido movimentos de fãs, ciclos de cinema em sua honra e até documentários. Os seus filmes passaram a ser “tão maus que se tornam bons”, à semelhança de The Rocky Horror Picture Show (1975), uma comédia musical de terror com aliens travestis, bem ao estilo de Wood,  hoje considerado um filme de culto.

Podemos então perguntar: será Ed Wood, efetivamente, o pior realizador de todos os tempos?  Se, por um lado, não há como negar as suas falhas em termos técnicos, por outro, devemos  ter em conta que os temas que abordava e a sua personalidade eram demasiado irreverentes para a sociedade dos anos 50. Talvez numa década posterior tivesse vingado. Resumindo: quer os consideremos bons ou maus, os filmes de Ed Wood têm um estilo próprio, incomparável,  e acabamos por com eles estabelecer uma relação de amor-ódio. Wood ajuda-nos ainda, como futuros médicos, a compreender que o travestismo tem, muitas vezes, origem em acontecimentos na infância ou adolescência e que pode englobar um conjunto muito variado de comportamentos sexuais.

Deixamos-te o conselho de assistires a um filme deste realizador para tirares as tuas conclusões e, se quiseres saber mais sobre a sua vida, recomendamos-te ainda o filme de Tim Burton Ed Wood (1994), protagonizado por Johnny Deep.

Bibliografia
Fontes das Imagens