Half in Love with Easeful Death

“The Night” (1889-1890), Ferdinand Hodler.

“Quando a realidade supera a ficção” — este poderia ser o mote algo inusitado para descrever a (curiosa) história de vida de John Keats, poeta inglês do século XIX, que contribuiu decisivamente para a construção da imagem do poeta romântico. Os contornos da história não seriam compreendidos se não tivéssemos presente o desenvolvimento, em moldes algo bizarros, da representação estética da tuberculose no Período Romântico. A história de vida do poeta inglês materializa a atitude pervertida de um século que fabricou a ideia da aparente aprazibilidade da morte por esta doença.

A floreada onomástica é exemplo não só da ignorância, mas também da sádica atitude de transformar a doença em prazer verbal. Tísica e consunção são, provavelmente, as designações mais comuns e que, de forma mais ou menos inspirada, partilharam o protagonismo com uma lista extensa e curiosa de designações que povoaram o léxico romântico; alguns exemplos são: “peste branca”, “mal du roi”, “doença dos românticos”, “doença de Chopin” ou “febre das almas sensíveis”.

O retrato estético desta doença polimórfica colide com a realidade daqueles que a enfrentaram. A tísica romântica foi uma doença conotada aos artistas, não atingia somente as massas anónimas, mas músicos, escritores, cientistas, pintores, Mozart, Paganini, Schubert, Chopin, Lord Byron, Molière, Albert Camus, Edgar Allan Poe, as irmãs Brönte, Maupassant, D. H. Lawrence, Franz Kafka, René Laennec, Lec Vygotski, Eugène Delacroix, Paul Gaugin, Modigliani e, entre nós, Cesário Verde, António Nobre, Júlio Diniz, António Aleixo, Amadeo de Souza-Cardoso. O diagnóstico é seguramente duvidoso, sendo em alguns boato, ou, deduza-se, elogio. A referência aos nomes serve apenas para notar o alcance da doença, isto é, o alcance junto das massas não-anónimas, junto de notáveis.

A representação estética da tuberculose é transversal a todas as formas de arte, mas é especialmente notória na literatura. As imagens verbais encontradas na literatura inglesa vitoriana sintetizam o quadro de doença romântica, em que simultaneamente, mas não consistentemente, se encontra associada à juventude, pureza, sensibilidade e aumento da libido. A aglutinação destas imagens criou o que podemos chamar de lugares comuns, isto é, personagens que se tornaram tipo, como a criança inocente que morre por ser demasiadamente pura para este mundo, a mulher que anseia o amor da sua vida em zelosa submissão, ou o poeta melancólico cujas frustrações emocionais resultam em doença. Sim, esta última descrição ajusta-se perfeitamente à vida de Keats, não fosse o próprio a inspiração para o desenvolvimento desta personagem tipo.

Keats é a figura simbólica primária do poeta consumptivo, é frequentemente apresentado como pertencente à segunda geração de românticos ingleses, em conjunto com Byron e Shelley.

Da esquerda para a direita, Anne, Emily e Charlotte Brontë pelo irmão Patrick Branwell (1834). A figura esbatida central é o próprio Patrick Branwell que removeu mais tarde a sua imagem. A família Brönte é o que de mais próximo existe do conceito de família consumptiva; especula-se que a causa de morte dos irmãos, Maria, Elizabeth, Charlotte, Patrick Branwell, Emily e Anne, tenha sido tuberculose.

Nasce em Londres, em Outubro de 1795, o mais velho de quatro irmãos. A infância e a adolescência ficam marcadas pela morte precoce dos pais, a do pai, quando tinha 8 anos de idade, e a da mãe, que morre de tuberculose, quando tinha 14 anos de idade. Ao cuidado da avó materna, decide tornar-se aprendiz de cirurgião apotecário e prossegue, mais tarde, os estudos em medicina no Guy’s Hospital em Londres. Em 1817 desiste do curso, com o objectivo de se dedicar exclusivamente à poesia. Paralelamente à ambição e ao trabalho como poeta, cuida do irmão mais novo, Thomas, que, como a mãe, também tinha tuberculose. É possível que já nesta altura o próprio apresentasse sinais avançados da doença. Uma provável laringite tuberculosa força Keats a regressar definitivamente a casa, onde encontra o irmão muito debilitado pela doença, acabando este por morrer em Dezembro de 1818, com 19 anos de idade. A agregação de membros de uma mesma família unidos pela doença levou à ideia de que se tratava de uma doença familiar. O caso das irmãs Brönte é um outro exemplo notável.

Em 1820 há um agravamento do seu estado de saúde, quando um violento acesso de tosse o leva a ficar de cama. Brown, amigo e biógrafo de Keats, relata o seguinte: “Before his head was on the pillow, he slightly coughed, and I heard him say, ‘that is blood from my mouth.’ I went towards him; he was examining a single drop of blood upon the sheet. ‘Bring me the candle, Brown; and let me see this blood.’ After regarding it steadfastly, he looked up in my face, with a calmness of countenance that I can never forget, and said – ‘I know the colour of that blood; – It is arterial blood; I cannot be deceived in that colour – that drop of blood is my death warrant. I must die.’”.

A dramática declaração de Keats confirma-se mais tarde. A conduta dos médicos de Keats coloca em relevo a ignorância profunda em relação à doença. Foi submetido a uma sangria e, após excluída a possibilidade de doença respiratória, o médico proibiu Keats de escrever, considerando que seria uma experiência demasiadamente excitável, e portanto perigosa, tendo em consideração a disposição particular de Keats para a consunção. Foi igualmente proibido de se encontrar com Fanny Brawne, o amor da sua vida, considerando que a ligação entre os dois era prejudicial, capaz de consumir a energia vital do poeta.

O talento era assim causa e consequência de tuberculose, predispondo esta a maior criatividade artística. Shelley tinha, possivelmente, isso em mente quando escreve a Keats, em jeito de consolação, o seguinte: “this consumption is a disease particularly fond of people who write such good verses as you have done…“.

A crença de que a doença desenvolvia no indivíduo qualidades extraordinárias reflectiu-se no próprio discurso médico. Em oposição às imagens de degradação utilizadas no século XVII, no início do século XVIII, coexistiu à horrível doença a associação particular à criatividade artística. A ideia, em vez de negada, é desenvolvida ao longo do século XIX.

Numa carta a um amigo, Keats reflecte a opinião médica romântica de que a tuberculose era o resultado da repressão de emoções, lamentando não ter consumado o amor com Fanny, “should have had her when I was in health, and I should have remained well. I can bear to die. I cannot bear to leave her”.

Este conceito de amor doente antecede longamente o movimento romântico, mas o que é realmente notável, não pela novidade, mas sim pela intensificação, é a inversão deste conceito, para a representação da tuberculose como uma variante da doença do amor.

Esboço de Keats no seu leito de morte desenhado por Joseph Severn. A inscrição manuscrita diz o seguinte: “28 Janry 3 o’oclock mng. Drawn to keep me awake – a deadly sweat was on him all this night”.

Não teve apenas que deixar Fanny, mas também Inglaterra. Por recomendação médica, foi para Itália em 1820, na esperança de que o clima ameno fosse benéfico, já que os seus médicos estavam convictos de que Keats não sobreviveria a outro rigoroso Inverno inglês. Em Roma, ao cuidado do médico James Clark que exclui o diagnóstico de tuberculose, considerando que a doença estava aparentemente relacionada com o estômago ou, eventualmente, com o coração, institui uma dieta alimentar muito restritiva, o que piora, muito naturalmente, o seu estado de saúde. Keats acaba por morrer, em 1821. A causa de morte, apurada através de autópsia, foi tuberculose, “They thought it the worst possible Consumption. The lungs were entirely destroyed. The cells were quite gone”.

O papel dos médicos na doença de Keats é flagrante, pela ignorância e para entender que, durante este período da História, a opinião médica e a opinião literária eram parcialmente reflexo uma da outra. A tuberculose não era apenas a doença física da sensibilidade na literatura, mas também na medicina, reflectindo a ideia de que indivíduos com tuberculose eram de alguma forma abençoados com qualidades singulares. O tratamento da tuberculose era apenas uma parcela do sofrimento a acrescentar a esta visão deturpada da doença, por exemplo, a crença de que certos comportamentos do doente eram um obstáculo na cura, como ocorreu no desfecho trágico de John Keats.

Apesar de amplamente partilhada, esta ideia é, no entanto, refutada por alguns. Em resposta à romantização contemporânea da doença, o médico Thomas Beddoes escreve, em 1799: “Writers of romance (whether from ignorance or because it suits the tone of their narrative) exhibit the slow decline of the consumptive, as a state on which the fancy may agreeably repose and in which not much more misery is felt, than is expressed by a blossom, nipped by untimely frosts…I have heard many persons thus prepossessed, after closely attending a sick friend, declare their surprise not less than their horror, at the unexpected scenes of varied and protracted misery”.

Fac-símile do original de “Ode to a Nightingale”.

A experiência pessoal de Keats teve, inevitavelmente, reflexo na sua obra. As referências comuns, como a morte e o morrer jovem são abundantes. On a Grecian Urn” “On Melancholy” e “Ode to a Nightingale” são exemplos disso. Escrito em 1819, “Ode to a Nightingale”, em tradução literal para português, “Ode a um Rouxinol”, contém algumas das alusões mais claras às pulsões de morte.

Darkling I listen; and, for many a time

I have been half in love with easeful Death,

Call’d him soft names in many a mused rhyme,

To take into the air my quiet breath;

Now more than ever seems it rich to die,

To cease upon the midnight with no pain,

While thou art pouring forth thy soul abroad

In such an ecstasy!

Still wouldst thou sing, and I have ears in vain—

To thy high requiem become a sod.Excerto de "Ode to a Nightingale

A doença que mais pessoas matou no século XIX na Europa, comparativamente a qualquer outra, (ou mesmo, quaisquer outras), é apresentada como a forma ideal de morrer. Talvez Byron, em resposta ao amigo que lhe perguntava a razão de querer morrer de consunção, tivesse isso mente, respondendo “Because the ladies would all say, ‘Look at that poor Byron, how interesting he looks in dying”. A morte pela doença era substituída por um eufemismo de doce desvanecimento, uma morte gentil. Esta ideia é lentamente abandonada na transição do século XIX para o século XX, a representação estética sofre um declínio progressivo, mas sustentado. Os avanços da Ciência, nomeadamente, a identificação do microrganismo responsável pela doença, pelo microbiologista alemão Robert Koch em 1882, e, mais tarde, pelo desenvolvimento dos antibióticos antibacilares, em particular da estreptomicina em 1944 e isoniazida em 1952, foram acontecimentos fundamentais para o desaparecimento do mito de doença do amor. Este mito desapareceu, para ser substituído, por uma realidade do nosso século, a doença que longe de ter sido debelada, renasce com forças renovadas.

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