Lisboa: Sete colinas, sete roteiros IV

Foto roteiro IV - Bairro Alto

(continuação)

Colina de São Roque: Rato, Príncipe Real e Bairro Alto

“Bairro Alto aos seus amores tão dedicado
Quis um dia dar nas vistas
E saíu com os trovadores mais o fado
Pr’a fazer suas conquistas

Tangem as liras singelas,
Lisboa abriu as janelas, Acordou em sobressalto
Gritaram bairros à toa
Silêncio velha Lisboa, Vai cantar o Bairro Alto”

assim diz o fado de Carlos do Carmo

Inicio o meu percurso na estação do rato no Largo do Rato, local que reúne os bairros de São Bento, Santa Isabel e Amoreiras.

De acordo com a página Web da CML, “Revelar LX”: “Em 1621 Manuel Gomes de Elvas, influente cristão-novo de Lisboa, ali fundou um convento para Senhoras da Ordem da Santíssima Trindade, o primeiro desta Ordem em Lisboa. Depois da sua morte continuou a ser apadrinhado pelos seus descendentes, um deles, Luís Gomes de Sá e Meneses, tinha por alcunha “o Rato”, alcunha que se apegou ao convento e estendeu-se ao largo fronteiro”

Passo pelo Chafariz do Rato com o seu estilo barroco. Este chafariz de dois níveis é um dos ramais do Aqueduto de Águas Livres.

Sigo pela Rua da Escola Politécnica, que deriva da denominação dada entre 1837 e 1911 à actual Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Actualmente esta está localizada no Campus universitário da UL no Campo Grande.

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Chafariz do Rato com a Rua da Escola Politécnica à direita

Esta rua, outrora ocupada por diversos palacetes, apresenta uma diversidade de edifícios pitorescos bem conservados nos quais se encontram, para além das várias pastelarias, padarias e boutiques uma diversidade de instalações como; uma galeria de arte moderna; Galeria São Mamede, a Procuradoria Geral da República, o Jardim Botânico de Lisboa e Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa (MNHNC).

Encontro à minha esquerda Largo de São Mamede, cuja igreja está tapada pelo verde arvoredo do largo. Nas diversas ruas à direita consigo observar à distância a Basílica da Estrela.

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Largo de São Mamede com o seu “pano verde” de árvores

Decido pagar os €2 para entrar no Jardim Botânico da Escola Politécnica, uma floresta urbana comparável,por motivos diferentes, com os Jardins da Fundação Calouste Gulbenkian e com o Parque Natural de Monsanto. Este jardim com uma diversidade surpreendente e com um ambiente muito agradável serve de escape à “selva de betão” do mundo urbano. Neste existe um “Borboletário”, uma estufa com borboletas da fauna ibérica.

Aqui encontro uma visita de estudo de alguma escola primária. Os alunos, inicialmente num grande círculo em volta dos professores, dispersam-se em grupos com mapas na mão; trata-se de um jogo de Orientação.

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Jardim Botânico da Escola Politécnica, um autêntico bosque dentro da “selva de betão”

Volto à Rua da Escola Politécnica e continuo o meu percurso até encontrar a inconfundível Praça do Príncipe Real. Este agradável recanto da cidade foi, em 1740, a lixeira do Bairro Alto. Aqui encontro o “Cedro do Buçaco”, que obsequeia com a sua sombra a todos aqueles que se sentam perto deste e diversos quiosques com cafetarias. Do outro lado da rua encontro o Palacete Ribeiro da Cunha, edifício neo-árabe do século XIX, actualmente em obras como parte do “Príncipe Real Project”.

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Acesso ao Príncipe Real desde a Rua Cecílio de Sousa

Sigo pela Rua D. Pedro V. Nesta rua, famosa pelas suas boutiques com produtos importados, encontro diversos veículos em fila à imagem das várias árvores dispostas ao largo do passeio.

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A pitoresca e requintada Rua D. Pedro V

Vejo o famoso arco do Evaristo, escondido por detrás de uma carrinha mal estacionada. Do lado oposto da rua, um pouco mais à frente, encontra o Pavilhão Chinês, um dos bares mais alternativos da cidade com as suas cinco salas que representam um autêntico museu de peças aleatórias como aviões em miniatura, posters e capacetes das duas guerras mundiais.

No fim da rua observo Miradouro de São Pedro de Alcântara com os seus dois níveis. No nível superior encontro espaço cheio de vitalidade com uma cafetaria, um mapa de Azulejo e uma grande estátua em homenagem a José Eduardo Coelho, fundador do Diário de Notícias. Curiosamente, esta também homenageia o anónimo vendedor de jornais.

No nível inferior encontro outro jardim com diversos bustos da mitologia greco-romana, alguns deles, lamentavelmente vandalizados.

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Estátua a José Eduardo Coelho no Miradouro de São Pedro. É de realçar a presença de«o distribuidor de jornais na base.
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Miradouro de São Pedro de Alcântara. Esta imagem é uma boa síntese dos nossos roteiros anteriores; no fundo e da esquerda para a direita: Miradouro da Nossa Senhora do Monte (Colina de Santo André), Miradouro da Graça (Colina de Santo André), Convento São Vicente de Fora (Colina de São Vicente) e Castelo de São Jorge (Colina do Castelo)

Ao lado deste miradouro encontro o Elevador da Glória, rodeado de turistas que aguardem a sua partida. Se decidisse unir-me ao grupo de visitantes para descer até os Restauradores observaria os diversos murais reservados a graffitis.

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Elevador da Glória: Une os Restauradores ao Bairro Alto

Do lado oposto ao miradouro, já na Rua São Pedro de Alcântara, encontra-se o Palácio Ludovice (nº39-49) de 1747. Este símbolo da arquitectura pré-pombalina sobrevivente ao terramoto pertenceu ao arquitecto responsável pela já referida Igreja do Menino Jesus; em Alfama entre a Colina do Castelo e a Colina de Santo André.

No Bairro Alto

Após este percurso à volta do Bairro Alto decido visitar este célebre bairro lisboeta.

O multifacetado Bairro Alto é conhecido por um lado pelo entretenimento nocturno; com os seus diversos bares, clubes de fado e discotecas e pelas diversas actividades artísticas e por outro pela sua criminalidade nocturna e por ser, na perspectiva dos residentes, um dos locais mais barulhentos de Lisboa.

Este data provavelmente de finais do século XV ou início do século XVI, altura em que era conhecido como “Vila Nova de Andrade”. Este teve vários altos e baixos históricos; no fim do século XVIII era um dos principais centros de prostituição da cidade, a partir do século XIX esta imagem foi mudando e até tornar-se no “epicentro” da impressa lisboeta e dos saraus literários. Desde finais do século XX têm vindo a ser aplicados vários planos de reabilitação turística e habitacional do Bairro.

O pequeno espaço do Bairro Alto apresenta uma densidade tal de ruas e histórias que poderia ocupar perfeitamente mais do que um roteiro. Como qualquer descrição deste fica totalmente incompleto devido à miríade de opções para todos os gostos, apenas foco alguns dos pontos altos da minha visita:

Na Calçada do Tijolo encontro o Hospital de São Louis, onde faleceram dois dos maiores representantes da nossa Geração Modernista: Fernando Pessoa (1935) e Almada Negreiros (1970). À entrada deste encontro uma placa com a inscrição: “I know not what tomorrow will bring” de Fernando Pessoa.

Este hospital, cujos interiores recordam um pequeno hotel parisiense, foi fundado em 1860 pela Sociedade Francesa de Beneficência e mantém-se em funcionamento até a data como hospital privado.

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Vista lateral do Hospital “Saint Louis”

Entre a Rua dos Caetanos e a Rua João Pereira da Rosa encontro a Escola de Música do Conservatório Nacional. Sei que estou no sítio certo porque oiço um ensaio de piano, vejo que o ballet é treinado numa das salas do segundo andar e reparo num grupo de jovens com flautas na mão a sair pela porta principal. Esta escola de música foi fundada por iniciativa do escritor Almeida Garrett, o mesmo que propôs a construção do Teatro D. Maria II.

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Escola de Música do Conservatório Nacional vista desde a Rua Nova do Loureiro

Mas o gosto pela música não se limita ao conservatório, na Rua Eduardo Coelho oiço um acordeão desde uma janela de um segundo andar e na Rua Fiéis de Deus uma guitarra eléctrica.

A Rua do Século, que recebe o seu nome pelo Jornal “O Século” (entre 41-59; 61-63) que funcionou perto quase cem anos (1880-1979), guarda séculos de história.

No número 107 encontro o Convento dos Cardiais, fundado século XVII e que funciona ainda como instituição de caridade. No número 89 ergue-se o Palácio Marquês de Pombal, onde nasceu o marquês homónimo. Este edifício de exteriores austeros contrasta com a pomposa estátua na Rotunda do Marquês.

Do outro lado da rua encontro o Chafariz do Século, cuja água alimentava directamente o Palácio do Marquês.

Tribunal Constitucional, nº111. Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território – Palácio dos Viscondes de Lançada

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Antiga sede do jornal “O Século” na rua homónima.

Na Rua Academia das Ciências, após passar sob dois pequenos arcos encontro uma rua de aspecto muito agradável na qual está localizado o Museu de Geologia. Na mercearia do lado sob o toldo, um grupo de reformados joga às cartas. Todo este ambiente transporta um certo “Carpe Diem” que me faz recordar os jogadores de xadrez dos poemas de Ricardo Reis.

Na Rua Eduardo Coelho encontro um prédio degradado com uma placa oculta detrás de um poste na qual é possível ler “Propriedade dos Hospitais Civis” de Lisboa

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Placa oculta atrás do posto. Edifício outrora pertencente aos “Hospitais Civis de Lisboa”

Acabo a minha visita ao Bairro Alto e entro na Rua Trindade Coelho onde continuo a minha viagem à descoberta de Lisboa.

Aos mais aventureiros recomendo que explorem a versão nocturna do Bairro.

 (Continua)

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