Lisboa – Sete colinas, sete roteiros VI

São Roque (III), Chagas e Santa Catarina – Viagem pela Lisboa de Queirós e Camões

(Continuação)

“Estavam no Loreto ; e Carlos parara, olhando, reentrando na intimidade daquele velho coração da
capital. Nada mudara. A mesma sentinela sonolenta rondava em torno à estátua triste de Camões. Os mesmos reposteiros vermelhos, com brasões eclesiásticos, pendiam nas portas das duas igrejas. O Hotel
Aliança conservava o mesmo ar mudo e deserto. Um lindo Sol dourava o lajedo ; batedores de chapéu à faia fustigavam as pilecas ; três varinas, de canastra à cabeça, meneavam os quadris, fortes e ágeis na plena luz.
A uma esquina, vadios em farrapos fumavam ; e na esquina defronte, na Havanesa, fumavam também outros vadios, de sobrecasaca, politicando.”

Excerto d”Os Maias” de Eça de Queirós, Caítulo XVIII

Esta é a imagem desagradável e monótona de Lisboa que Carlos Maia observa quando volta  da sua longa viagem de 10 anos. Em pleno século XXI parto de um  “Loreto”, entenda-se Praça Luís de Camões, muito mais agradável na continuação da minha viagem.

Desço pela Rua do Alecrim, “rumo ao Tejo”. Quando passo pelo Largo Barão da Quintela encontro a estátua de bronze de Eça de Queirós acompanhado pela sua musa.

No lado sul deste largo, voltando à Rua do Alecrim encontro as “Cerâmicas Sant’Anna”, uma loja uma grande variedade de peças expostas à imagem de estátuas num museu.

Foto a
Eça de Queirós e a sua musa “iluminadas” num dia de Verão em pleno mês de Maio

Esta rua está superpovoada por lojas de antiguidades e alfarrabistas com artigos muito variados que vão de livros centenários, a catálogos de alfarrabista antigos até rótulos antigos de bebidas alcoólicas.

Foto b
Alfarrabista João Trindade, nº32-34. Foto de um exemplar do extinto jornal O Século

Viro à direita e entro na Rua do Ataíde com o seu sobe e desce que marca o meu ingresso na Colina das Chagas.

Colina das Chagas

Esta pequena colina, de limites muito mal definidos, fazia parte da Colina de Santa Catarina até ser separada desta por um aluimento de terra em 1597.

A Rua da Ataíde recebe o seu nome da nobre D. Caterina de Ataíde. Da qual Camões se apaixonou perto da Igreja das Chagas, e à qual lhe dedicou um poema. Curiosamente, Camões tratava-a por Natércia (Catarina com as letras trocadas).

Na metade do Céu subido ardia
O claro, almo Pastor, quando deixavam
O verde pasto as cabras, e buscavam
A frescura suave da água fria.

Com a folha das árvores, sombria,
Do raio ardente as aves se amparavam;
O módulo cantar, de que cessavam,
Só nas roucas cigarras se sentia.

Quando Liso Pastor, num campo verde,
Natércia, crua Ninfa, só buscava
Com mil suspiros tristes que derrama.

Porque te vás de quem por ti se perde,
Para quem pouco te ama?
(suspirava)
E o eco lhe responde: Pouco te ama.

Antes de virar à direita encontro um baixo arco amarelo com uma pequena porta que dá acesso ao Pátio do Pimenta e ao seu pequeno miradouro.

Foto c
Arco de acesso para o Pátio do Pimenta e o seu pequeno miradouro, visto desde a Rua da Ataíde

Subo à direita ainda na Rua da Ataíde, e após seguir o restante trajecto “em L” chego à Rua das Chagas, na qual se encontra a Igreja das Chagas. Esta igreja foi construída em 1542 pela Cofraria das Chagas, constituída por navegantes que tinham estado na Índia. O edifício foi totalmente destruído pelo terramoto de 1755 e posteriormente reconstruída.

Através de um verde cerco de ferro observo a Travessa da Portuguesa, que acaba na rua de Santa Catarina, perto do “Adamastor”.

Foto d
Travessa da Portuguesa vista desde o largo da Igreja das Chagas

Continuo pela rua das Chegas, muito povoada por veículos estacionados e travessas em cada cruzamento. No número 20, uma placa assinala o local de nascimento da pintora Maria Helena Vieira da Silva. Com obras da sua autoria em locais tão transitados como a estação de metro da Cidade Universitária e do Rato.

Saio no Largo do Calhariz. À minha frente encontro um grande prédio rosa com o seu grande arco que dá acesso ao Bairro Alto pela Rua da Rosa.

Foto f
Acesso à Rua da Rosa, a partir do Largo do Calhariz

Viro à minha esquerda e continuo pelas linhas do eléctrico do Largo do Calhariz sentido poente.

À minha esquerda encontro o Elevador da Bica, que acaba na Lapa, e a Biblioteca Camões. À minha direita o Bairro Alto e a Colina de São Roque.

Foto g
Elevador da Bica. Une a Lapa à Calçada do Combro

Viro no primeiro cruzamento à esquerda, sigo pela estreita Rua Marechal Saldanha, rumo ao largo do Adamastor. Encontro à minha direita o Museu da Farmácia. Chego finalmente à Rua Santa Catarina com o seu amplo miradouro conhecido popularmente como “O Adamasor” como referência à estátua da besta mítica que aparece à tripulação de Vasco da Gama n’Os Lusíadas.

Como estava em obras e com acesso limitado não consegui apreciar toda a beleza da paisagem que este oferece.

Foto h
Adamastor em obras, ainda é possível apreciar parte da vista sobre o Tejo e o Cais do Sodré

Subo pela Travessa de Santa Catarina e desço umas pequenas escadas até chegar à Calçada do Combro, continuação do Largo do Calhariz.

À minha direita encontro a Igreja de Santa Catarina, antiga Igreja dos Paulistas do século XVI. No convento anexo está instalada a Biblioteca do Exército

Foto i
Fachada da Igreja de Santa Catarina na Calçada do Combro

Antes de chegar à bifurcação do Largo Doutor António de Sousa Macedo, viro à direita na Travessa convento de Jesus, à minha direita a Escola Básica e Passos Manuel no fim da rua o Largo de Jesus onde está a Igreja Paroquial das Mercês. Parado nas escadas desta olhando para a Travessa Arrochela é visível, à distância, o Palácio de São Bento.

Foto j
Largo de Jesus, um calmo recanto de Lisboa

Volto à Calçada do Combro, onde apanho o 28E até o Martim Moniz

E assim, só nos falta mais uma colina. A Colina da Saúde, a Colina de Sant’Anna.

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