Medicina… on the big screen

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Aulas, testes, trabalhos, exames, estudos, sonhos, escolhas, expectativas, colegas, amigos, familiares por vezes também. A medicina está presente em cada um dos segundos da nossa vida. Mas também fora do ambiente e rotina do dia-a-dia que escolhemos estamos completamente envolvidos por ela.

Este tema, anteriormente abordado em “Medicina… is all around, trouxe-nos histórias fictícias e verídicas de médicos e pacientes, verdadeiros heróis e as suas aventuras e mudanças a todos os níveis ao longo dos tempos. É um facto que raramente o filme faz jus ao respectivo livro. Mas a verdade é que por vezes as imagens são mais fiéis à realidade do que as palavras. Desta forma, está introduzido o tema que a FRONTAL vos traz hoje: filmes. Algumas histórias reais, outras inventadas, mas que revelam a essência do que é ser médico, do que é ser paciente, do que é encarar a morte, do que é sobreviver, do que é sofrer, chorar, amar, lutar e resistir. A essência do que é a vida, porque a medicina e a própria vida andam de braço dado. Filmes que nos mostram o que já aprendemos: que a Medicina… is all around.

Muitos são os filmes que abordam a mente. Infinitamente complexa e desafiante tanto para quem estuda e eventualmente encontra, como para quem, movido pela curiosidade, procura e nunca se desilude. Um poço escuro sem fundo. Uma escadaria infinita. Cada degrau é um passo, um distanciar do início e ainda assim, estamos tão longe do fim como quando começámos. Podia ser frustrante e forçar a desistência, mas tornou-se um motor para a imaginação e um deleite para quem vê o resultado. [hr]

1) Podemos começar por “Memento”, um filme de Christopher Nolan (2000), que relata a história de um jovem que sofre de amnésia anterógrada, ou seja, que é incapaz de formar memórias recentes. A última coisa que se lembra é da morte da sua mulher e tenta desesperadamente encontrar o assassino. Um filme organizado de forma singular, com duas sequências diferentes de cenas que criam confusão no espectador e descrito como “a mais realista e fiel representação de amnésia anterógrada”. A memória é a construção de nós mesmos, dos outros, do mundo. Uma peça indispensável. Insubstituível. Uma história interessante deste ponto de vista. As dificuldades do dia-a-dia, os desafios constantes e as questões que nunca acabam.

“Memory can change the shape of a room; it can change the color of a car. And memories can be distorted. They’re just an interpretation, they’re not a record, and they’re irrelevant if you have the facts.”  [hr]

2) Rapidamente continuamos com “Rain Man” (Encontro de irmãos), de Barry Levinson (1988), no qual Charlie Babbit (Tom Cruise) decide procurar o herdeiro da fortuna que o seu pai deixou ao falecer. A sua pesquisa termina no hospital psiquiátrico, com Raymond Babbit (Dustin Hoffman, vencedor do óscar de melhor actor principal), o irmão mais velho, autista com síndrome de Savant (“síndrome do idiota-prodígio”) e que até então desconhecia. Numa tentativa de se aproximar para reclamar a herança, Charlie encontra muito mais. Uma aventura, uma história de união inesperada entre irmãos e um exemplo de vida a seguir. Um filme comovente que nos mostra como o amor e a compreensão podem moldar uma pessoa. Como até o mais frio e calculista ser humano pode ser capaz de sair da sua própria órbita e receber muito mais do que alguma vez esperava.

“But it’s not about the money anymore. You know, I just don’t understand. Why didn’t he tell me I had a brother? Why didn’t anyone ever tell me that I had a brother?”   [hr]

Muitos outros filmes ao longo dos anos retrataram a mente e pacientes com os mais diversos atrasos e/ou deficiências a este nível. No entanto, este tema é apenas a ponta solta de uma grande teia de temáticas abordadas pelos realizadores. Outra ponta solta muito explorada é o das doenças terminais. Os momentos em que se percebe o sentido da vida, as verdadeiras paixões, a importância do perdão e o valor da saudade. Os momentos de maior lucidez, dizem alguns. Os momentos de maior paz para quem parte e de maior angústia para quem vê partir e nada pode fazer, dizem outros.

 3) Um filme bastante conhecido pelo público é o “The bucket list” (Nunca é tarde de mais), de Rob Reiner (2007). Este emocionante filme traz-nos a história de dois homens, Edward Cole e Carter Chambers (Jack Nicholson e Morgan Freeman) que se conhecem no hospital, ambos em estado terminal. Com a esperança de vida a decrescer a cada dia e poucas possibilidades de cura, decidem fazer uma lista com as coisas que gostavam de fazer antes de morrer. Uma perspectiva diferente e optimista de quem não tem nada a perder a não ser novas experiências, aventuras e amizades. Um renascer das cinzas e uma lição para aprendermos bem: nós estamos encarregues do nosso destino. As nossas escolhas levam-nos onde estamos. As nossas reacções decidem com quem estamos. As nossas questões fazem-nos descobrir novos caminhos. Mas por trás de voltas e contravoltas estamos sempre nós, se decidirmos pegar nas rédeas. Porque há sempre alguém desejoso de o fazer por nós.

“You measure yourself by the people who measure themselves by you.” [hr]

4) Outro filme também recente, intitulado “My sister’s keeper” (Para a minha irmã), realizado por Nick Cassavetes e baseado no livro de Jodi Picault (2009) descreve a história de duas irmãs, Anna e Kate Fitzgerald. Anna foi concebida por fertilização in vitro com o único propósito de ser uma combinação genética favorável para a sua irmã Kate, que sofre de uma leucemia aguda. Desde o seu nascimento que Anna é sujeita a transplantes de medula, de sangue e pequenas intervenções cirúrgicas, tudo em prol de manter a sua irmã viva. Uma criança, como tantas outras no mundo, mas tão diferente. Privada de brincar, correr, praticar um desporto por não poder correr riscos. Uma história incrível de amor e de partilha que nos faz perceber o quão egoístas somos, por vezes, no nosso dia-a-dia. Que nos faz perceber que pequenos gestos mudam uma vida. Que podemos dar e receber em dobro. Que há esperança no mais escuro recanto.

 “Most babies are accidents. Not me. I was engineered. Born to save my sister’s life.” [hr]

5) Uma história de força que nos transcende está representada no filme “Le scaphandre et le papillon” (O escafandro e a borboleta), de Julian Schnabel (2007). Uma história verídica (baseada na respectiva auto-biografia) do editor da revista Elle, Jean-Dominique Bauby que sofre um acidente vascular cerebral que, associado a uma síndrome rara (síndrome do encarceramento) lhe paralisa praticamente toda a totalidade do corpo, com excepção do olho esquerdo. A partir desse momento, abate-se sobre ele um sentimento de inutilidade e frustração que é contornado com determinação e coragem e com um método muito peculiar para comunicar com o mundo e para se expressar, uma vez que a sua capacidade intelectual não tinha sido afectada. Curioso, fascinante e inspirador, este filme transborda emoção e faz-nos pensar que, e é sempre difícil fugir dos clichés, nunca devemos deixar fugir as oportunidades que temos. Se forem pequenas, cabe-nos a nós apanhá-las e torna-las grandes. Se forem más, cabe-nos a nós apanhá-las e torna-las melhores. Se forem nulas, porque a sorte tal como o sol, quando aparece nem sempre é para todos, cabe-nos a nós procurá-las e torna-las oportunidades.

“I’ve decided to stop pitying myself. Other than my eye, two things aren’t paralyzed. My imagination, and my memory.” [hr]

Outros filmes fazem dos médicos heróis, os seres humanos mais belos, mais inteligentes, mais perfeitos da Terra. Mas acima de tudo fazem dos médicos os seres humanos mais bondosos, mais despretensiosos, mais carinhosos, mais divertidos da Terra. E talvez essa representação não devesse fugir muito da realidade. Alguns desses filmes mostram a verdadeira essência do que é, ou do que deveria ser, ser médico.

6) “Patch Adams” (O amor é contagioso), de Tom Shadyac (1998) é um dos melhores exemplos. Uma história verídica baseada na auto-biografia de Patch Adams que começa com um internamento voluntário numa clínica psiquiátrica após tentativa de suicídio. Ali, Patch percebe que o que o faz sentir-se bem consigo e totalmente realizado é ajudar os outros utilizando o seu (bom) humor. Assim, já adulto, decide ingressar na Faculdade de Medicina. Rapidamente desconfiam das suas notas altas e da sua forma de se relacionar com os pacientes e Patch é confrontado com uma guerra que tenta desesperadamente por fim aos seus métodos. Necessita de se agarrar com todas as forças àquilo em que acredita para se manter na luta e continuar a ser quem tinha sido até ali: um homem brincalhão e que acredita que tudo melhora com uma boa dose de riso. Uma história imperdível de convicção e alegria e a prova de que, afinal “o amor é (mesmo) contagioso”.

“You treat a disease, you win, you loose. You treat a person, I guarantee you, you’ll win, no matter what the outcome.” [hr]

7) “Something The Lord Made” (O que Deus criou), de Joseph Sargent (2004) traz-nos uma outra história de persistência e sucesso. O filme é baseado na história verídica de Vivien Thomas, um afro-americano que se vê desempregado com a chegada da Grande Depressão. Além do emprego, Vivien perde também as economias que tinha guardado para entrar na Faculdade de Medicina. Consegue então trabalhar no laboratório do Dr. Alfred que rapidamente se apercebe do talento em bruto que tem à sua frente e começam a trabalhar em conjunto e a alcançar grandes sucessos. Vivien tem de enfrentar o desprezo dos colegas que não aceitam a sua presença, quer por ser negro, quer por nunca ter estudado medicina. Uma incrível lição de que todos temos (ou devíamos ter) oportunidades iguais independentemente da raça ou estrato social. Uma incrível lição em como não há (ou não devia haver) seres humanos superiores e inferiores. Uma incrível história de dois pesquisadores tão diferentes e que revolucionaram a medicina, que contribuíram para a conhecermos hoje como é e que permitiram salvar milhares de vidas até ao presente.

“They say you haven’t lived unless you have a lot to regret. I regret… I have some regrets. But I think we should remember not what we lost, but what we’ve done.” [hr] 

8) “The Doctor” (Diagnóstico do destino), um filme de Randa Haines (1991) mostra-nos o outro lado de um médico, mais concretamente quando ele se torna paciente. Esta é a história de um renomeado e frio cirurgião, Jack MacKee (William Hurt). Excelente na sua profissão, tinha como máxima “get in, fix it, get out”, não estabelecendo qualquer contacto com os seus pacientes, até ao dia em que lhe é diagnosticado um cancro na laringe e a sua vida muda. A médica encarregue do seu caso é igual a ele enquanto médico: fria, exclusivamente clínica, arrogante. As revelações seguem-se umas atrás das outras, a visão da vida, da doença, do paciente, das relações interpessoais muda drasticamente e também a atitude. MacKee torna-se um médico e uma pessoa melhor, que respeita os pacientes como iguais e não impõe a sua vontade como superior que pensava que era. Um médico que ouve, apoia, aconselha e trata, não só a doença mas também a pessoa. A história é previsível, mas a forte mensagem faz com que valha a pena ver o filme. Mostra, sem dúvida, a importância de nos colocarmos no lugar dos outros e a veracidade da expressão “não faças aos outros o que não gostas que te façam a ti.”

“If I ever hear you describe a patient as “terminal” again, that’s how you’ll describe your career!” [hr]

Mas por vezes há filmes que mostram o outro lado da medicina. Um lado não tão bom, um lado obscuro e que apesar de nem sempre ser visível ou falado, existe. Com diferentes gravidades, claro, podemos referir o tráfico de órgãos, negligência, interesses, sentimento de superioridade…

9) Em “Awake” (Acordado) de Joby Harold (2007), encontramos uma história de traição e falta de ética médica, tudo para conseguir uma herança aveludada. Clay (Hayden Christensen), um jovem empresário rico, necessita de um transplante de coração para sobreviver. Durante a cirurgia, Clay desenvolve um raro distúrbio que o torna resistente à anestesia. Apesar de paralisado, Clay mantem-se acordado e consciente. Desta forma, consegue ouvir os planos de Sam (Jessica Alba), a sua recém-mulher e de Harper, médico e amigo da sua confiança, que pretendem matá-lo para ficar com a herança. Uma história não verídica, mas que nos mostra que, por vezes, nem todos os médicos são as pessoas que deveriam ser. Mas são pessoas. Têm tentações, vícios, defeitos. Não, os médicos não são deuses perfeitos. Mas sim, os médicos têm um dever para com a sociedade e devem ser um exemplo. Acima de tudo, não devem pôr os seus próprios interesses acima dos interesses das outras pessoas. É o que tantas vezes é difícil de pôr em prática, mas o que distingue os verdadeiros médicos dos outros.

“There are no excuses for what we did, there’s no defense, no one to blame but us, we got what we deserved. (…) but despite all the secrets, despite all the lies, and a terrible loss, one thing really matters now, he… is… awake.” [hr]

Mas nem tudo em medicina é preto ou branco, aceitável ou condenável, bom ou mau. Nem tudo em medicina se reduz ao senso comum, ao que a maioria acha correcto ou sensato. Há temas que, por mais que se discutam, têm sempre os dois lados da moeda a pesar o suficiente para não existir uma resposta final. Um desses temas é, sem dúvida, a eutanásia. “Prática pela qual se abrevia a vida de um enfermo incurável de maneira controlada e assistida por um especialista.”

10) Este tema é discutido em “Mar Adentro”, um filme de Alejandro Amenábar (2004) que nos traz uma história verídica. Ramon Sampedro (Javier Barden) é o protagonista, um homem que lutou anos e anos a favor da eutanásia para ganhar o direito à sua própria morte. A luta começou após ficar tetraplégico, consequência de um acidente de mergulho. Vencedor do Óscar de melhor filme estrangeiro em 2005, dispensa qualquer tipo de comentários ou julgamentos. A eutanásia é (e será, quem sabe, para sempre) uma luta na corda bamba. Perda da dignidade ou fim do sofrimento? Falta de ética ou um exemplo de humanidade? Um fim sem dor ou a exclusão de novas oportunidades? Um alívio ou uma ferida aberta? Um pouco de cada, talvez. É o que torna tão difícil aceitar e ao mesmo tempo torna a rejeição não tão óbvia.

“Accepting a wheelchair would be like accepting the scraps of the freedom I lost.” [hr]

Muitos mais filmes existem e muitas mais temáticas poderiam ser abordadas, mas estes 10 filmes, apesar de não serem todos “masterpieces” do cinema, abrangem o mundo da medicina numa grande variedade de vertentes, permitindo aos espectadores rir, chorar, sonhar e acima de tudo reflectir. Será que estamos no caminho certo? Será que vamos ser bons médicos? Quem sabe? Ninguém sabe. Hoje somos inspirados a ser melhores. Um dia podemos ser nós a inspirar.

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