Morfina ou o Inverno Russo

A viciante história de um médico e da sua morfina na aldeia quasi-Siberiana de Murievo.

A FRONTAL vem dar-te a conhecer uma produção que parece saída de um surreal universo paralelo, mas que rapidamente se reconhece estar imbuída de um realismo atroz – o que resulta necessariamente em absurdo. A Young Doctor’s Notebook é uma série televisiva com o cunho da BBC que já vai na 2.ª temporada e que conta com um elenco de luxo, onde se destacam Daniel Raddcliff (de Harry Potter) e John Hamm (de Mad Men). A história versa sobre as atribulações de um estudante de Medicina, feito médico há escassos dias, que é destacado para gerir um hospital numa recôndita aldeia russa no longínquo ano de 1917. Ele é “o” médico, pois não há outro; apenas uma enfermeira, uma parteira e um assistente. O que fazer quando na primeira noite o chamam de emergência devido a um parto com o feto em situação transversa? Será que há tempo para ir reler o manual de cirurgia obstétrica?

Esquizofrenia ou liberdade artística?

A Young Doctors Notebook & Other StoriesDaniel Raddcliff é John Hamm 17 anos mais novo; o que não os impede de contracenarem num assincronismo que estica as malhas da integridade da história ao limite e cuja unidade só é possível graças a um guião absolutamente excepcional. Raddcliff interpreta a personagem do jovem médico acabado de sair da Universidade Imperial de Medicina de Moscovo em 1917. Hamm é o mesmo médico 17 anos mais velho, que em 1935 está a ser investigado pelo NKVD (antecessor do mítico KGB) numa Rússia que já não é Imperial, mas sim Comunista. Esta personagem captada em duas fases da sua vida atribulada é uma construção com traços auto-biográficos da lavra do médico e escritor russo Mikhail Bulgakov (uma das referências mundiais da literatura do século XX). Este jovem e brilhante médico, que se formou com 15 notas máximas – facto que nunca se esquiva a relembrar -, é desterrado por razões desconhecidas do espectador para a inacreditavelmente remota aldeia de Muryevo.

Da falta que uma barba faz!

Em rápidos episódios que não excedem os 30 minutos, acompanhamos este jovem promissor na sua descoberta de que a medicina na prática quotidiana está bastante longe da calma e assertividade indubitável dos tratados. O que fazer quando temos dúvidas e não podemos consultar os livros? A quem recorrer quando somos o médico responsável? Como convencer uma população de camponeses iletrados de que o tratamento que propomos é o correcto? Afinal de contas Daniel Raddcliff interpreta um jovem de 24 anos e imberbe, facto da maior importância na Rússia rural e do qual é relembrado constantemente pelos solenes auto-retratos do seu predecessor: Leopold Leopoldovich – um respeitadíssimo clínico e senhor de uma imponente barba branca. A 1.ª série acompanha ao longo de 4 episódios as inseguranças do médico acabado de formar. Algo com o qual conseguimos empatizar muito facilmente. A angústia de termos nas mãos a vida dos doentes, de sabermos que passámos anos a prepararmos-nos para tal e apesar disso ainda nos sentirmos completamente inseguros. Aquele bloqueio mental que todos tememos: temos o doente à frente e agora? Onde estão todos aqueles algoritmos de decisão do Harrisson e do Oxford que sabíamos na ponta da língua?

YDNotebook 1O isolamento da localização deste jovem médico vai condicionar a sua prática clínica, a sua estabilidade emocional e a sua vida amorosa. A loja mais próxima fica a um dia de trenó ou de carruagem e apenas está aberta no Verão. No Inverno não há jornais, não há cigarros e é difícil abastecer a farmácia. A iluminação pública mais próxima fica a 32 milhas. Para o jovem habituado à vida vibrante de Moscovo e às noites de ópera no Teatro Bolshoi, o hospital de Muryevo é de um tédio assustador; exceptuando os momentos em que alguém se está a esvair em sangue, claro! O tédio não é mitigado pela verve humorística do seu assistente, que insiste em contar a mesma história hilariante vezes sem conta, ou sequer pelos livros de pornografia turca legados pelo seu venerável predecessor. Quanto à vida amorosa, o jovem envolve-se com a parteira, a única mulher jovem numa distância de várias verstas. John Hamm, na sua versão de alter-ego futuro e paternalista, aprova: ela não é afinal tão feia quanto ele se lembrava.

Quando a neve é vermelha

O tom da narrativa é trágico-cómico, numa conjugação magistral que, equilibrando os dois registos, não procura harmonizá-los – esvaído-os de qualquer sentido -, mas antes os contrapõe de forma inteligente, realçando o contraste. O resultado é um humor negro, que por vezes raia o sadismo, e um rol de situações apresentadas de forma pouco convencional e nada politicamente correcta e que desconcertam o espectador. Ademais, esta linha narrativa desenrola-se numa tela marcada pelos tons do sombrio Inverno russo: branca a neve, escuro tudo o mais, pois o Sol não é visita frequente. Apenas o vermelho quebra a monotonia: o vermelho do sangue e o das bandeiras Bolcheviques, que são afinal um e o mesmo. A  envolvência é um brutal mundo rural, onde o arrojo civilizacional está confinado aos catrapácios médicos da biblioteca de Leopold Leopoldovich e o desenvolvimento tecnológico se esgota numa serra de amputação embotada.

O desconcerto maior, principalmente para nós futuros médicos, é o assistirmos ao cómico resvalar de um jovem desastrado e revoltado com o seu isolamento para uma tragédia tão comum nos nossos dias: a toxicodependência. A morfina da farmácia do hospital providencia o escape fácil da realidade brutal e atroz e da angústia que esta gera no jovem médico. Isto até o desfalque nos stocks de morfina gerar uma angústia ainda maior sob a forma de uma inspecção. Outrossim, há que reconhecer que esta não é uma série tranquilizadora, apesar de ser também um bom entretenimento. Vê-la é um desassossego viciante.

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Bulgakov e Morfina

Para quem gosta não só de apreciar os resultados das adaptações, mas também de mergulhar na mestria literária que lhes deu corpo, o título da obra original é, em inglês: A Country Doctor’s Notebook. Esta obra não foi escrita por Bulgakov como uma unidade; resulta na realidade de um compilar de pequenas histórias publicadas em jornais russos entre 1924 e 1927. Apenas a sua natureza curta, dispersa e não-sequencial justifica o facto de estas histórias, que têm como plano de fundo a Revolução de 1917, não terem sido censuradas tão poucos anos volvidos. A primeira compilação em língua inglesa foi realizada por Michael Glenny em 1975. A série televisiva inspira-se primordialmente nesta compilação, não se restringindo, contudo, a ela. A dependência de morfina do jovem médico é inspirada numa outra história de cunho autobiográfico de Bulgakov publicada em 1926: Morfina. Mikhail Bulgakov é mais conhecido pela autoria de “O Mestre e a Margarida“, uma das obras primas da literatura do século XX que inspirou, entre outras, músicas de bandas contemporâneas como Pearl Jam e Franz Ferdinand.

Em suma, A Young Doctor’s Notebook é uma criação televisiva sui generis que vale bem a pena para qualquer público, mas é particularmente interessante para os estudantes de Medicina e para os jovens médicos. O contexto tecnológico e científico pode ser radicalmente diferente de 1917, mas até que ponto são os nossos dilemas psicológicos assim tão diferentes dos deste jovem médico com cara de feiticeiro? A segunda temporada está está em exibição. Vale a pena descobrir.

Trailer da primeira temporada de A Young Doctor’s Notebook:

“Five days!? Stupid witch! Now it’s my problem!“, cena da 1.ª temporada:

http://www.youtube.com/watch?v=IMV3X8EjEaM

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