O artista louco

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“Crazy Artist ponders a wooden figure model” de Scott Griessel ID:3108931

Desde tempos remotos o Homem tem manifestado a necessidade de expressar as suas ideias, sonhos, receios e expectativas sob a forma de Arte nas suas mais variadas formas. Uma  questão que se tem colocado desde há muito tempo é “Serão todos os génios criativos malucos?” ou “Será a loucura um pré-requisito para a grandiosidade?”

A resposta não é fácil e as opiniões têm sido muito divergentes. De entre as perspectivas existentes, os trabalhos de Kay Redfield Jamison, Nancy Andreasen e Arnold Ludwig estabelecem um elo entre a patologia psicológica e a criatividade. Estes têm sido muito criticados metodologicamente e o debate continua aceso (1)

Recentemente o Investigador do Instituto Karoliska, Simon Kyaga, volta a abordar este tema apresentando um estudo caso-controlo “nested” longitudinal com 40 anos de observação no qual estudou 1,2 milhões de Suecos para tentar responder à seguinte pergunta: “A ocorrência de profissões criativas (artes e ciências) em doentes mentais e nos seus relativos saudáveis é superior aos controlos emparelhados da população?”. Ou seja: se pegarmos num doente com patologia psiquiátrica será mais provável que ele ou um familiar saudável esteja envolvido numa profissão mais criativa do que se considerarmos um indivíduo saudável da população em geral? (2)

O grupo concluiu que, dentro das doenças estudadas, isto apenas se verificava na doença bipolar. Nos indivíduos com a profissão de “autor” os resultados foram mais surpreendentes, relacionando-os a mais patologias. Curiosamente, o estudo revelou que os familiares saudáveis de doentes psiquiátricos têm uma ligação muito mais significativa a profissões criativas do que a população geral. (2) Como explicado pelo autor principal na plataforma on-line TEDx, estes resultados podem sustentar a teorias que defendem a transmissão genética da patologia psiquiátrica.

Para mais informação sobre esta investigação…
http://tedxtalks.ted.com/video/TEDxKarolinskaInstitutet-Simon;search%3Atag%3A%22TEDxKarolinskaInstitutet%22

 

No mesmo instituto, o virtuoso pianista e neurocientista, Professor Fredik Ullén (3) realizou um estudo que pretendia observar os receptores dopaminérgicos D2; Estes receptores têm sido muito ligados ao pensamento divergente (3,4). A equipa do investigador sueco concluiu que, nos testes de pensamento divergente, as pessoas altamente criativas, com melhores resultados, tinham uma menor densidade de receptores D2 no tálamo (4). Isto assemelha-se ao observado em esquizofrénicos.

Esta descoberta poderá sugerir que ter menos receptores D2 no tálamo provavelmente estará associado a um menor grau de filtração e uma maior passagem de informação do tálamo (6).

Em vez de contrastes definidos de “branco e preto” os peritos suspeitam de um “contínuo ” com algumas pessoas com traços psicóticos mas com menos sintomas negativos. (5)

[accordion] [acc title=”Referências”]

1- http://www.huffingtonpost.com/scott-barry-kaufman/the-real-link-between-cre_b_4149064.html

2-Kyaga S, et al., Mental illness, suicide and creativity: 40-Year prospective total population study, Journal of

3-http://www.bbc.co.uk/music/artists/2f6cddfb-785d-46df-9af6-5810d6764265

4-Psychiatric Research (2012), http://dx.doi.org/10.1016/j.jpsychires.2012.09.010

5- http://www.bbc.co.uk/news/10154775, Creative minds ‘mimic schizophrenia’ By Michelle Roberts Health reporter, BBC News. 29 May 2010 Last updated at 01:32 GMT

6- de Manzano O, Cervenka S, Karabanov A, Farde L, Ullén F (2010) Thinking Outside a Less Intact Box: Thalamic Dopamine D2 Receptor Densities Are Negatively Related to Psychometric Creativity in Healthy Individuals. PLoS ONE 5(5): e10670. doi:10.1371/journal.pone.0010670

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Vincent  van Gogh

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Auto-retrato de Vincent van Gogh em 1899
Acredita-se que este auto-retrato tenha sido pintado “em espelho” porque van Gogh cortou parte do lóbulo da sua orelha esquerda.
[list type=”plus”] [li]Nascimento: 1853 Zundert, Países Baixos[/li] [/list] [list type=”plus”] [li]Falecimento: 1890 Auvers-sur-Oise, França (37 anos)[/li] [/list] [list type=”plus”] [li]Conhecido por: Desenho; pintura[/li] [/list]

Vincent van Gogh é considerado por muitos como um dos melhores pintores de sempre, com direito a ser homenageado no filme do Akira Kurosawa “Sonhos de Akira Kurosawa” (, Yume, 1990) e até mesmo num episódio da série de ficção britânica Doctor Who (Ep 210 – Vincent and the Doctor). Este pós-impressionista é tão conhecido pela sua arte como pelo facto de ter cortado parte do lóbulo da sua orelha esquerda.

Este inquieto pintor neerlandês passou por várias profissões antes de encontrar a sua vocação. Foi art dealer em diversas cidades europeias e até evangelizador da Igreja Reformista dos Países Baixos vivendo em condições de pobreza numa pequena vila belga. Este autodidacta formou-se formalmente na Académie Royale des Beaux-Arts em Bruxelas, Bélgica, entrando com 27 anos.

Apesar do seu brilhantismo, originalidade e espírito autocrítico teve uma carreira muito conturbada vendendo apenas um único quadro dos mais de 900 que pintou. Segundo os historiadores, um “cocktail” insucessos profissionais, azar no amor e uma patologia psiquiátrica terão motivado o seu suicídio aos 37 anos, quando deu um tiro num campo de trigo em Auvers, em França.Faleceu 2 dias após o incidente. Isto ocorreu apenas 2 meses após ter abandonado o asilo de Saint-Remy-de-Provence onde pintou a sua peça mais famosa: “A Noite Estrelada”.

Centenas de médicos, nomeadamente psiquiatras, têm tentado definir os distúrbios que afligiam Van Gogh. Entre muitas, estas se contam:

I – Epilepsia do Lobo Temporal

Van Gogh terá sofrido ataques epilépticos associados por médicos contemporâneos à epilepsia do lobo temporal. É sabido que van Gogh nasceu com uma lesão cerebral que terá tido agravamento com o abuso de absinto. Pensa-se que o Dr. Gachet, um dos médicos do artista, tratava os ataques epilépticos do seu doente com digitálicos. Um dos efeitos adversos desta planta é ver a cor amarela ou pontos amarelos. Pode ser este um dos motivos que justifica a paixão do artista por esta cor.

II – Doença Bipolar

Van Gogh saltava entre fases de entusiasmo e dedicação à religião e à arte associado a um grande ritmo de produção, seguidas de episódios de depressão e exaustão total, que culminaram no seu suicídio.

III – Intoxicação por Thujone

Van Goh bebia absinto de forma a combater os seus ataques de depressão, ansiedade e crises epilépticas. A toxicidade desta bebida alcoólica, muito popular na altura, deve-se à toxina Thujone. Desafortunadamente, esta apenas agravou a depressão maníaca do artista e as suas crises epilépticas. Altas doses deste composto podem dar afinidade visual para o amarelo.

Iv – Intoxicação por chumbo

Van Gogh usava tintas com base no chumbo. Pensa-se que se terá intoxicado por roer as aparas de tinta. O Dr. Peyron referiu que o pintor bebia querosene ou tinta durante os seus ataques. Um dos sintomas da intoxicação por chumbo é o edema das retinas o que pode causar círculos de luz à volta dos objectos, como se pode observar no quadro “A noite estrelada”. Serão afinal os quadros deste artista a representação visual dos seus sinais clínicos?

V – Hipergrafia

Suspeita-se que a colecção massiva de 800 cartas escritas por Van Gogh durante a sua vida é justificada pela hipergrafia. Nesta condição o indivíduo escreve continuamente  e está muito associada à mania e à epilepsia.

Para mais informação sobre este génio da arte:

Starry night - Van Gogh
“A Noite Estrelada” – van Gogh – 1899
[accordion] [acc title=”Referências”]

http://www.vangoghgallery.com/misc/mental.html

http://www.vangoghgallery.com/misc/overview.html

http://www.vangoghgallery.com/misc/timeline.html

http://www.vangoghgallery.com/misc/fun_facts.html

http://www.vangoghgallery.com/misc/van-goghs-ear.html

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Louis Wain

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Louis Wain a pintar na companhia do seu gato em 1890.
[list type=”plus”] [li]Nascimento: 1860, Clerckenwell, Londres, Inglaterra[/li] [list type=”plus”] [li]Falecimento: 1939, Hertfordshire, Inglaterra[/li] [/list] [list type=”plus”] [li]Conhecido por: Ilustrações de gatos.[/li] [/list]

Louis Wain foi um artista Inglês conhecido pelos seus desenhos que representavam consistentemente gatos antropomorfisados de olhos grandes.

Esta personagem teve uma infância muito complicada: nasceu com lábio leporino e, devido à medicina rudimentar da época, o médico ordenou aos pais que o Wain não fosse à escola até aos 10 anos. Durante a sua infância Wain foi um aluno ocioso que perdia o tempo a passear por Londres. Acabou por estudar no West London School of Art tornando-se professor, cargo que durou pouco tempo, abandonando-o para ser artista freelance. No início dos seus 20 anos, Wain passa por uma nova fase de problemas, pois teve de tomar conta da sua família, devido ao falecimento do pai, enquanto a sua mulher morria com uma neoplasia maligna. Desta forma, começou a pintar gatos para entreter a sua mulher de frágil saúde. Após a sua morte, os seus quadros ganharam alcance internacional por um curto período de tempo. Infelizmente, a fama não durou muito (2).

Com poucos recursos, aos 57 anos, foi-lhe feito o diagnóstico de esquizofrenia, sendo transferido para uma instituição mental em 1924. (2)

Em 1924 foi internado na Springfield Mental Hospital em Tooting. Um ano depois, quando o caso se tornou público, várias figuras públicas, como o primeiro-ministro do Reino Unido e o escritor H.G. Wells, incentivaram uma campanha pública para que fosse transferido para o Bethlem Royal Hospital em Southwark, e, em 1930, para o Napsbury Hospital no norte de Londres. Este ameno hospital, no qual Wain passou os seus últimos 15 anos de vida, tinha um jardim com gatos que o inspiravam nas suas pinturas. (1)

Alguns autores como Richard Metzger na sua obra Dangerous Minds explicam, “Os seus gatos, outrora brincalhões, adquirem um aspecto aterrorizador assemelhando-se a deidades Hindus quase caleidoscópicas”.

Alguns especialistas revêem a “loucura” de Wain nos trabalhos de William Seeley e Bruce Miller. Estes autores seguiram a evolução da cientista e artista canadiana Anne Adams com demência fronto-temporal que pintou “literalmente” a obra Boléro de Ravel. Muitos afirmam que Wain terá tido a mesma patologia. (2,3)

Bolero Ravel
Boléro de Maurice Ravel interpretado visualmente pela cientista e artista Ann Adams em 1994. A talentosa artista criou esta obra na altura em que foi diagnosticada com demência fronto-temporal.

Alguns ainda teorizam que a esquizofrenia de Wain terá sido precipitada pela toxoplasmose (uma patologia parasítica transmitida por gatos) (1)

Apesar de vários livros de psicologia usarem a sua arte de forma a retratar estados de declínio psicológico, Wain não datou os quadros. Alguns autores, como Rodney Dale, autor de Louis Wain: The Man Who Drew Cats, afirmam que Wain experimentava com padrões e gatos ao longo da sua carreira e mesmo nos seus últimos anos produziu quadros “convencionais”.(2)

O Dr. Michael Fitzgerald critica a hipótese de esquizofrenia, defendendo que ele terá tido AS (Síndrome de Asperger). Contrariamente ao que seria de esperar num esquizofrénico, a sua técnica como artista não diminuiu -os temas é que tornaram mais abstractos. A agnosia visual é um elemento essencial de alguns tipos de AS, esta pode manifestar-se apenas como uma manifestação extrema ao detalhe. (1)

O mistério sobre a esquizofrenia e a demência fronto-temporal mantém-se em aberto dado que, sem as imagens cerebrais e sem a evidência clínica necessária, é difícil fazer o diagnóstico de Wain.(2)

Gatos Wain
Conjunto de 6 ilustrações de Wain organizadas desde a mais “realista” até a mais “psicadélica”. É de realçar que o pintor não datou toda a sua obra pelo que qualquer relação cronológica é duvidosa.
[accordion] [acc title=”Referências”]

1 – http://en.wikipedia.org/wiki/Louis_Wain

2 -http://therumpus.net/2009/08/diagnosing-the-mad-cat-artist/

3 – Seeley, W et al: Unravelling Bole¤ro: progressive aphasia, transmodal

creativity and the right posterior neocortex Brain (2008), 131, 39-49

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Salvador Dalí

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“Dalí Atomicus” – 1948. Obra de Salvador Dalí e do fotógrafo Philippe Halsman
[list type=”plus”] [li]Nasceu: 1904 Bandera de España Figueras, Catalunha, Espanha[/li] [/list] [list type=”plus”] [li]Faleceu: 1989 Bandera de España Figueras, Catalunha, Espanha (84 anos)[/li] [/list] [list type=”plus”] [li]Conhecido por: Movimento surrealista; Pintura, desenho, fotografia, escultura, desenho, escrita.[/li] [/list]

“A única diferença entre mim e um louco é que eu não estou louco” (Dalí)

Este é um artista que não precisa de grandes introduções. É conhecido pelos diversos quadros, fotografias, esculturas, e até é conhecido em Hollywood pela cena do sonho no filme “A Casa Encantada” (Spellbound, 1945) de Alfred Hitchcok.

Era mundialmente reconhecido pela sua excentricidade e por usar práticas narcisistas e megalómanas para atrair a atenção dos media. Esta conduta irritava por vezes os que apreciavam a sua arte e justificava a postura dos seus críticos (1)

Muito tem sido discutido sobre a sanidade mental de Salvador Dalí. Recentemente, uma investigadora da Universidade de Oxford, Drª Caroline Murphy, publicou no jornal Personality and Individual Differences, um artigo no qual explora a “vida psicológica” do artista espanhol. Esta tenta responder à pergunta: era Salvador Dalí realmente “louco” ou apenas pretendia ser?

Alguns dos pontos apresentados pela autora são as alucinações na infância, referidas pelo pintor, as múltiplas fobias bizarras deste, a atitude paranóica perante tudo, o seu exibicionismo e travestismo, a incapacidade de cuidar dele próprio, a frieza da sua personalidade e o seu narcisismo e megalomania.

Em conjunto, Murphy sugere que os diversos traços de personalidade de Dalí preenchem o critério de Psicose Atípica da DSM-III. Adicionalmente, Dalí pode preencher os critérios para um grande número de alterações da personalidade tais como Paranóide, Esquizóide, Histriónico e Narcissístico.

No entanto, a pergunta colocada pela autora é muito difícil de responder, tendo em conta que Dalí tinha um controlo muito apertado sobre a sua “pessoa pública” chegando a fabricar uma autobiografia para manipular a opinião pública: “A vida secreta” (La vida secreta, 1942).

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“A Persistência da Memória” Salvador Dalí – 1931
[accordion] [acc title=”Referências”]

1-http://es.wikipedia.org/wiki/Teatro-Museo_Dal%C3%AD

2- Murphy, C. (2009). The link between artistic creativity and psychopathology: Salvador Dalí. Personality and Individual Differences, 46, 765-774.

3- http://creativityandanomalousexperience.blogspot.pt/2009/04/salvador-dali-crazy.html

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Robert Schumann

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Robert Schumann em 1839 – Litografia de Josef Kriehuber
[list type=”plus”] [li]Nascimento: 1810 Zwickau, Saxónia, Alemanha[/li] [/list] [list type=”plus”] [li]Falecimento: 1856 Endenich (Bonn), Renânia do Norte- Westfalia, Alemanha[/li] [/list] [list type=”plus”] [li]Conhecido: Compositor e pianista[/li] [/list]

Este compositor e crítico musical influente é considerado um dos mais famosos do Romantismo. Schumann abandonou o estudo do Direito para seguir uma carreira como pianista virtuoso. Apesar do seu sucesso, este sonho acabou rapidamente com uma lesão na mão.(1) Schumann tinha uma doença psicológica que se manifestou primeiro em 1833 como um episódio severo de “depressão melancólica”, e que recorreu diversas vezes depois, com fases de “exaltação” e ideias  delirantes de estar a ser envenenado ou ameaçado com objectos metálicos. Após uma tentativa de suicídio em 1854, Schumman ingressou num asilo por petição do próprio, em Endenich, perto de Bonn. Faleceu com 1856 sem recuperar da sua “melancolia psicótica”. (2)

Alguns autores como Katharina Domschke (2) defendem que a história familiar das patologias psiquiátricas dos Schumann pode dar ênfase a teoria do espectro esquizofrenia-bipolar em vez de haver uma divisão clara destas duas doenças e realça a transmissão genética destas.

Schumann interpretado por Vladimir Horowitz

 

[accordion] [acc title=”Referências”]

1 http://en.wikipedia.org/wiki/Robert_Schumann

2 The British Journal of Psychiatry (2010) 196, 325. doi: 10.1192/bjp.196.4.325

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Como já foi discutido a fronteira entre loucura e criatividade e entre a genialidade e a auto-destruição é muito ténue e marcada por muitos graus de cinza. Muitas das questões colocadas continuam e continuarão em aberto. Como disse o filósofo estóico Séneca há cerca de 2000 anos, “não há génio sem um pouco de loucura”. Nesse caso, o que melhor se pode fazer é conhecer a obra destes artistas e tirar conclusões estéticas.

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Santiago Rodrigues Manica ingressou em 2009 na FCM- NOVA onde estuda o 5º ano de Medicina. É luso-descendente natural da Venezuela e fez grande parte da sua formação no Funchal, Madeira. Este habitante do Mundo, apesar de ter escolhido a carreira médica desde muito cedo tem um interesse amador por múltiplas áreas do conhecimento como; filosofia, história universal, línguas e ciências. Os seus grandes hobbies são a leitura e a música sem esquecer os habituais passeios à margem do Tejo.

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