Pai Natal, um caso clínico

Depois de uns quantos artigos publicados sobre a influência do Pai Natal na saúde das populações e, sobretudo, após algumas figuras públicas como Michelle Obama terem defendido que o São Nicolau promove mas é uma santa diabetes, parece pertinente olhar de perto com uma lupa clínica para o caso do único homem autorizado a entrar em nossas casas enquanto dormimos profundamente. Observações e comentários à parte, a questão inevitavelmente surge: será o velhinho de bochechas inchadas e com energia de moço tão saudável quanto nós em pequenos pensávamos? Que doenças habitarão o mais natalício de todos os seres?

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Rosácea

santa_claus_3Aquela eritema obstinado na porção central da face não permite incertezas ou hesitações. Já se tentou fazer entender ao santo Pai do Natal que exposição solar, variações de temperatura, vento, bebidas quentes e stress laboral são para ser evitados… mas enfim, será difícil não admitir a porfirização de toda a nossa estratégia paliativa face a este doente tão pouco colaborante, e com o seu quê de desafiador. Se se compreende que, com uma alvorada polar em Março e um pôr-do-sol em Setembro, seja confuso seguir prescrições terapêuticas que digam “faça isto de manhã, faça aquilo à noite”; se se entende que, por vezes, se torne incomportável andar seis meses continuamente untado com protector solar 50+, já se torna mais complicado perceber por que raio este nosso Nicolau teima em percorrer 149 milhões km² numa noite, a velocidades que nem numa auto-estrada alemã seriam legais. Claro que, no decurso desta tarefa pouco miorrelaxante, torna-se impossível evitar o frio do Pólo Norte seguido das temperaturas estivais do hemisfério Sul. Torna-se impossível também não beber sofregamente, durante os breves segundos de pausa, o copo de leite quente deixado ao lado da iluminada árvore de Natal.

Azia Natalícia?

Desconhecendo-se a idade exacta deste excelentíssimo senhor, e tendo em conta a sua isoladíssima residência, na qual, certamente, não terá qualquer assistência médica, poderemos supor que muitas das medidas terapêuticas tomadas pelo Sr. Claus estarão mais que desactualizadas. De onde terá vindo a sua estranha preferência por esta substância láctea? Talvez pelo stress e consumo lipídico acumulados durante uma época específica do ano, Nicolau possa ter desenvolvido azia e desconforto gástrico pós-prandial. Consultando um médico dos anos 40, e na ausência de antiácidos de maior força, Nicolau ficou condenado a passar o resto dos seus dias a beber leite na vã tentativa de acalmar o calor no estômago, que não, não era pela felicidade de entregar prendas.

Talvez nos últimos anos, ao invés de leite, o Pai Natal tenha desenvolvido um gosto singular pela bebida gaseificada mais famosa do mundo, a Coca-Cola. (direitos de imagem pertencentes à The Coca-Cola Company)

DPOC

A DPOC teria como causa não apenas o vício do cachimbo, mas uma certa claustrofilia, ilustrada por uma perturbante e irrepreensível vontade de entrar na casa alheia descendo chaminés pretas de fuligem, quando existem alternativas como… a porta. Caramba, para que servem aquelas dezenas de duendes (ou serão elfos?), se não forem capazes de fabricar cópias de chaves durante os onze meses em que mal trabalham? Para isso mais valia ir à Loompaland raptar uns quantos Oompa Loompas igualmente portáteis, que esses, pelo menos, são especialistas em fazer chocolates, coisa que o Pai Natal iria com certeza adorar, não padecesse ele de uma…

Obesidade (quase) mórbida

6a00d834520ed269e200e54f6faa658833-800wiEmbora se desconheça o tipo de dieta que o senhor lá levará no Pólo Norte durante o resto do ano, sabemos bem (e muitos são os pratos vazios que o confirmam), que o consumo de bolachas no dia 24 de Dezembro à noitinha, para além de vampirizar o pobre pâncreas de toda a insulina que alguma vez tenha produzido, daria para encher (pelo menos) duas baleias azuis. Ainda assim, rejubilemos pelo facto de as mães terem deixado de oferecer brandy ou eggnog e de os terem substituído pelos difundidos brancos e cândidos copinhos de leitinho quente, poupando ao senhor de vermelho (ou será de verde?) uma pesada noite de binge drinking e assim uma crise de Holiday Heart syndrome. De facto, ninguém se quer ver envolvido num processo judicial por ter feito com que um Pai Natal alcoolizado e arrítmico embatesse na chaminé de um vizinho. Já basta aquela rena de nariz sempre vermelho e muito suspeito a dirigir um trenó perigosamente sobrecarregado.

Síndrome de Cushing

Aquela moon face não engana o olho perspicaz do clínico atento. Mas não é só a fisionomia facial que intriga: que outra forma haverá de explicar aquele sonoro e profundo “ho ho ho”, tique repetido entre imprevisíveis e incontroláveis eructações coca-colescas e vezes e vezes plagiado pelo viscoso Jabba the Hutt, pelo comercial e meio-vegetal Jolly Green Giant e por Robin “Puck” Goodfellow, aparecido num Sonho de uma Noite de Verão ?

Cardiomegália congénita

Todos sabemos que o Pai Natal tem de ter nascido com aquele seu grande coração.

Síndrome do Canal de Alcock

À semelhança de muitos estudantes de Medicina que passam as suas férias com o derrière cimentado à cadeira do quarto e em frente à secretária, muito tempo leva também este Senta Claus sentado, de tal forma que, por muitas almofadas que se coloque para aconchegar melhor os glúteos, o púdico nervo pudendo se vê quase espremido e manifesta o seu desagrado lançando descargas parestésicas às zonas sensíveis de seu controlo.

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Zoonoses

As adoráveis nove renas não passam de discotecas microbiológicas de entrada livre e não discriminatória: bactérias, vírus e parasitas; Echinococcus, Toxoplasma, Mycobacterium e Yersinia; Leptospira, Brucella, vírus da raiva e nemátodes… muita microgente a entrar e a sair da festa proliferativa que, reunidas as condições todas, poderá saltar para outro hospedeiro um pouco mais humano. Quem sabe se a própria rosácea não terá uma base zoonótica, transmitida por uma das suas encantadoras renas?

Doença de Christmas (Hemofilia B)

O Pai Natal é um jovial velhinho desde o século XVII, portanto não nos preocupemos com a possibilidade de ele ser hemofílico.

Presbiopia

De facto, o Pai Natal poderia ter sido um óptimo estudante de Medicina, de tanto “marrar” listas intermináveis de prendas num curto espaço de tempo. Esta perda de elasticidade do cristalino é acelerada tanto mais, quanto maiores são as listagens. Talvez tenha sido por isso que Nicolau tenha decidido categorizar as criancinhas em “boas” e “más”, atribuindo-lhes prendas de acordo com a sua prestação comportamental anual.

Grandiosidade

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E ei-lo com o seu “black book”, no qual teima em registar quem se portou bem e mal durante um ano inteiro. (direitos de imagem pertencentes à Coca-Cola Company)

Tirando o facto de o Pai Natal ser, realmente, “grande”, toda a ideia de estar verdadeiramente a par do que as crianças fazem durante o ano assemelha-se a duas coisas: ou a teorias da conspiração dos anos 50 (será este o segredo por detrás do incidente de Roswell?) ou a uma perturbação psiquiátrica. Façamos então de advogado do Diabo e esqueçamos todos os ensinamentos dos Ficheiros Secretos – é possível, para um único ser vivo, saber com exactidão quais as boas e más acções de um miúdo ao longo do ano? Ou temos câmaras de vigilância implantadas em cada milímetro quadrado, ou o Pai Natal sofre, na verdade, de ideias delirantes de grandiosidade, e por isso acredita piamente que conhece e julga qualquer fedelho.

Talvez seja por isso que as duas autoras deste artigo nunca receberam nada do que queriam pelo Natal. A culpa não é nossa – é da perturbação psiquiátrica do Pai Natal.

Feliz Natal!

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