Uma Doença de Dois Pólos

Como quase todas as perturbações psiquiátricas, também a doença bipolar sofreu grandemente pelas interpelações erráticas dos media e pelas atribuições infundadas da doença à variação do humor humanos, sem qualquer característica patológica. Também à semelhança das restantes doenças psiquiátricas, pouco se sabe sobre a etiologia desta doença, apesar de ocupar o 6º lugar na tabela de causas de incapacidade. O que realmente se sabe sobre esta doença não deve ficar-se apenas pelos livros e artigos científicos – a ferramenta mais eficaz contra o estigma da doença mental é a informação.

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The point about manic depression or bipolar disorder, as it’s now more commonly called, is that it’s about mood swings. So, you have an elevated mood. When people think of manic depression, they only hear the word depression. They think one’s a depressive. The point is, one’s a manic-depressive.

Stephen Fry, actor e escritor inglês, presidente da Mind, diagnosticado com Doença Bipolar tipo I

O que é a Doença Bipolar?

Sishir Bommakanti - Bipolar Disorder

Sishir Bommakanti – Bipolar Disorder

A história da doença bipolar poderá ter tido um início mais precoce (e melhor definido) do que as restantes doenças psiquiátricas. Na verdade, Avicena, médico persa do século IX d.C., conhecido pelo seu Cânone da Medicina (1025), poderá ter separado a doença bipolar (que apelidava de psicose maníaco-depressiva) de outras causas de “loucura” (Junun), como a raiva ou, até, a esquizofrenia. No entanto, uma definição concreta da doença só surgiu no século XIX, com Jules Baillarger, psiquiatra francês (conhecido pelos estudantes de Medicina como o primeiro a identificar as diferentes camadas de córtex cerebral), que a apelidou de folie à double forme (insanidade de dupla forma), pelas oscilações frequentes entre episódios maníacos e depressivos. Curiosamente, esta definição teve tanto sucesso que apenas duas semanas depois, em 1854, Jean-Pierre Falret, outro psiquiatra, apresentava uma contraproposta com a sua folie circulaire (loucura circular). Falret é também conhecido por outras folies, nomeadamente a folie à deux, ou psicose partilhada, e por ser um visionário na área da terapêutica da doença psiquiátrica. De facto, Falret é conhecido por ter sido um dos primeiros a reconhecer os direitos dos doentes mentais e a necessidade crescente de uma melhoria significativa nos cuidados dos hospícios.

La personne souffrant de troubles de santé mentale est d’abord une personne, sujet de droit et de devoir, capable d’intelligence et de progrès, qui a toute sa place dans le monde.

Jean-Pierre Falret (1841)

Já no virar do século XX, Emil Kraeplin, psiquiatra alemão eminentemente conhecido pelo seu trabalho na categorização das doenças psiquiátricas, conseguiu estabelecer a história natural da doença em doentes bipolares não tratados. Apelidou o seu conjunto de sintomas como psicose maníaco-depressiva, definindo igualmente que esta doença intercalava entre surtos agudos e períodos sem quaisquer sintomas. Em 1952, a American Psychiatric Association modificou o termo “psicose” para “reacção”, uma vez que a corrente teórica em voga acreditava que a doença mental resultava num culminar de reacções biológicas perante um estímulo social ou psicológico. Finalmente, em 1957, Karl Leonhard associou os termos “bipolar” e “unipolar” a esta doença, sendo que o primeiro termo se aplicava aos doentes com episódios maníacos e depressivos e o segundo aos doentes depressivos. Actualmente, segundo a Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – 5 (DSM-5), a doença bipolar divide-se em perturbação bipolar tipo I e II, perturbação ciclotímica, perturbação bipolar induzida por substâncias, outras perturbações bipolares e ainda perturbações bipolares inespecíficas.  

Em traços gerais, a doença bipolar, sendo uma perturbação do humor, caracteriza-se por variações bruscas e exageradas entre a mania (ou humor elevado) e a depressão. Tal como definido por Kraeplin, a doença bipolar, além de oscilar entre os dois pólos de humor, oscila também entre períodos de doença e períodos sem surtos.

Quando o doente se encontra num período de mania (episódio maníaco), possui um humor elevado ou irritável, tornando-se bastante activa, embora a sua atenção possa não acompanhar essa actividade. O sua noção de comportamento torna-se confusa, levando o doente a adoptar atitudes incomuns e que demonstram clara falta de inibição, como gastos compulsivos e comportamentos sexuais de risco. Mais ainda, é característico durante estes episódios que o doente engendre planos grandiosos ou que se proponha a realizar feitos de grande risco ou que requeiram grande capacidade. É também comum haver diminuição da necessidade de dormir, dada a exagerada actividade. Se estes sintomas forem ligeiros, sem haver sintomatologia psicótica (com alucinações e delírios), dá-se o nome de hipomania. Os episódios depressivos recaiem na definição de depressão, sem outras características específicas. Note-se que a doença bipolar não é um ligar e desligar de sintomas –  na verdade, trata-se de um continuum entre os dois pólos da doença. Para complicar ainda mais a doença, muitos doentes apresentam uma sobreposição de sintomas que torna difícil definir em que zona do espectro se encontram.

Na perturbação bipolar tipo I existe pelo menos um episódio maníaco; já na perturbação bipolar tipo II, apesar de não ter tido um episódio maníaco, o doente teve pelo menos um episódio hipomaníaco e pelo menos um período de depressão grave. Pensa-se que este tipo seja o mais predominante. Já na ciclotímia o doente apresenta hipomania e depressão ligeira, mas nunca teve episódios maníacos ou depressão major.

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Michael Alvarez – Bipolar

Existe alguma evidência recente que aponta para alterações do ciclo circadiano, com grandes variações da eficácia do sono, na sua duração e das características. Num estudo realizado este ano, verificou-se que durante os períodos maníacos persistia a redução da necessidade de sono e a insónia e que eram sucedidos por meses depressivos, com hipersomnia. Contudo, permanece a dúvida se a alteração do padrão de sono advém das restantes alterações neuronais ou se está na base da doença.

À semelhança das restantes doenças psiquiátricas, a doença possui um forte pendor genético, com tendência familiar. Não existem diferenças significativas na afectação entre sexos e, ao contrário da esquizofrenia, pensa que pessoas com doença bipolar tenham uma maior probabilidade para prosseguir estudos, sem qualquer diminuição do aspecto cognitivo. No entanto, em períodos não controlados da doença, existe um grande risco de suicídio, pela gravidade dos episódios depressivos. A doença é controlada principalmente com recurso a estabilizadores do humor, cujo exemplo mais proeminente é o carbonato de lítio.

Um Amor Polar

“Amor Polar” (Infinitely Polar Bear) estreou em Junho nos Estados Unidos da América e chega este mês aos cinemas portugueses. Realizado por Maya Forbes, conta a história de Cam Stuart (interpretado por Mark Ruffalo), um pai amoroso com um diagnóstico difícil de compatibilizar com responsabilidades familiares – doença bipolar, ou, como é ainda chamada no filme, Perturbação Maníaco-Depressiva. Cam Stuart vê-se sozinho a cuidar de duas filhas menores, num lar a atravessar fortes dificuldades financeiras, enquanto a sua esposa, a quem tenta infatigavelmente agradar, se muda para Nova Iorque para tirar um curso de Economia, na perspectiva de conseguir um melhor emprego e, assim, garantir uma maior estabilidade familiar. O que é curioso neste filme é que não é retratado apenas o dia-a-dia de um doente bipolar – este doente em particular teve de arcar com as novas responsabilidades domésticas (a “rotina” que tanto lhe faltava), enquanto lidava com a sua própria doença e com a sua recusa em tomar novos fármacos. É retratada a responsabilização do doente enquanto modulador da sua doença e como agente capaz de a controlar, com uma adesão terapêutica eficaz e motivação.

You need to take responsability for your condition.

PASSATEMPO AMOR POLAR

GPASSATEMPOS_1ostavas de ir ver a antestreia de Amor Polar? A FRONTAL tem dois convites duplos para oferecer. Preenche o formulário até ao dia 7 de Dezembro e habilita-te a ver este magnífico filme nos cinemas UCI El Corte Inglés.

Ao longo do filme são destacados alguns factos curiosos, que vale a pena recordar ao espectador mais desatento. Em primeiro lugar, os episódios maníacos são amplamente destacados, a começar pelo que desencadeia o internamento compulsivo de Cam, após uma correria em roupa interior pelos bosques, culminando numa remoção violenta da bateria do carro onde mulher e filha tencionavam seguir para se protegerem dos seus acessos. Um outro episódio, de características eufóricas, é quando este pai dedicado faz, numa única noite, um fato de flamenco para a filha mais nova, acreditando ser capaz de qualquer tarefa, quando, na verdade, tinha cessado a toma de lítio. Um último episódio que vale a pena destacar é a cena violenta onde Cam, ao tentar conseguir encontrar um emprego para a sua esposa, acaba por ferir o empregador. À parte destes episódios maníacos, é também visível a desorganização dos hábitos de Cam, a sua negligência pessoal, o vício pela nicotina e, mais importantemente ainda, o seu internamento numa clínica, mostrando-o apático e ausente, com excesso de peso, claramente sob o efeito de antipsicóticos.

Name one father in America who is up right now sewing a flamenco skirt for the daughter.

Este filme possui um cunho fortemente autobiográfico, uma vez que era, na verdade, o pai da realizadora, Maya Forbes, quem ultrapassou uma situação semelhante, quando a mãe, Peggy Woodford Forbes, saiu de Boston para Nova Iorque, na esperança de acabar o curso de Economia e encontrar um emprego mais estável, na área da banca. Acabaria por se tornar na primeira mulher afro-americana a começar uma firma de gestão de investimento nos Estados Unidos.

Bibliografia