ESPECIAL FRONTAL | 40 anos AEFCM

Dita a crença que foi no berço da civilização helénica que a arte de cuidar do bem-estar do próximo tomou a forma de uma disciplina científica e digamos… levemente objetiva e factual. Ora, não é necessário navegar muito além do património intelectual das civilizações banhadas pelo Egeu e pelo Jónico para apurar que os próprios nunca deixaram de associar o humanismo e a filantropia à ciência e à gnose.

Não querendo cantar Virgílio ou Homero nesta simples composição, e até porque cantar não é o nosso forte, diz a lenda que aquele que Ítaca governou, a Lisboa, perdão!… a Olísipo chegou e Olísipo fundou.

Já as 5 de Damião de Góis e as 7 de Nicolau de Oliveira, e refiro-me às colinas de Lisboa, dizem que aquela que leva o nome da santa chamada Ana, avó de Cristo, e onde hoje nos encontramos, tem uma conotação invulgar. Talvez como se diz coloquialmente: “avó é ser mãe duas vezes”, a Colina de Santana foi duplamente progenitora desta cidade, mãe da ciência e mãe do povo, ou simplesmente… avó da Medicina.

Saltando uns passos desta transposição histórica e mitológica para a atualidade, centremo-nos num dos vários e excecionais frutos da Colina de Santana e que está de parabéns:

-“Ao décimo quinto dia do mês de maio do ano de mil novecentos…”

-Calma, isto não é uma ata, podes usar números!

-Obrigado! Portanto…:

Fundada a 15 de maio de 1979, celebra-se em 2019 os 40 anos da Associação de Estudantes da NOVA Medical School | Faculdade de Ciências Médicas (AEFCM) da Universidade NOVA de Lisboa. 40 anos repletos de ideias criadas e trabalhadas pelas várias gerações de estudantes de Medicina que foram passando pelo Campo de Santana ao longo das quatro décadas.

Por ser um prazer e uma data com a qual ninguém que por aqui passou fica indiferente, decidimos assinalar o aniversário fazendo o que melhor sabemos – organizar umas centenas de palavras em frases coerentes para atingir um produto final digno de ser partilhado e lido por quem se interessar. Muitos foram os marcos assinalados, as metas ultrapassadas, os projetos desenvolvidos, os objetivos alcançados, os laços criados e as vidas mudadas pelas sucessivas Direções da AEFCM – muito para além do que seria possível relatar num artigo de tamanho “digerível”. Assim sendo, optámos por expôr alguns dos que foram momentos chave a assinalar ao longo destes ainda jovens anos, da preocupação com o constante aperfeiçoamento da educação médica a nível nacional, à vertente mais altruísta que corre no sangue dos estudantes de Medicina.

 

Uma fração importante do trabalho desenvolvido pela AEFCM passa pela representação estudantil a vários níveis, com a participação com qualidade em diversos encontros de relevo, nomeadamente:

  • ANEM (Associação Nacional de Estudantes de Medicina) – decorrem 4 Assembleias Gerais Ordinárias da ANEM anualmente, nas quais a AEFCM se faz representar através do envio de um mínimo de 10 delegados a cada uma;
  • EMSA (European Medical Students Association) – da representação estudantil a este nível a AEFCM pretende uma melhor integração internacional dos alunos, construindo pontes para o contacto com instituições de outros países;
  • Também no âmbito nacional, é intenção da AEFCM fazer-se representar em diversas Assembleias Gerais da Federação Académica de Lisboa (FAL), nos Encontros Nacionais de Direções Associativas (ENDA) e nas atividades da Associação Desportiva do Ensino Superior de Lisboa (ADESL).

Esta fração do trabalho da AEFCM reveste-se, de facto, de grande notoriedade, em grande parte por ser um momento privilegiado para a Associação de Estudantes interceder a favor das suas posições, procurando fazer vingar as propostas e posições da comunidade estudantil – o que, independentemente dos “altos e baixos”, das “vitórias e derrotas”, acaba por culminar na valorização do trabalho árdua e devotamente investido pelos e nos alunos. Mas a verdade é que isto não é tudo, e os momentos de representação estudantil prezam também por ser períodos ímpares de convívio de equipa, privilegiando pelo espírito de maior proximidade, promovendo a intervenção ativa de encontro à melhoria do dia a dia dos futuros médicos (e não só) do nosso país. Sabendo-se que não é possível agradar a todos os públicos e, por isso, não é fácil representar todas as pessoas, ainda assim é com agrado e dedicação que os sucessivos Presidentes, acompanhados e apoiados pelas sucessivas comitivas, se foram empenhando e continuam a empenhar para se manterem interventivos, não se acomodando ao status quo.

 

Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM)

A ANEM consiste numa federação portuguesa composta por oito Associações/Núcleos de Estudantes de Medicina portugueses, constituindo-se como legítima representante dos cerca de 12.000 estudantes de Medicina em Portugal. A sua atuação visa, como tal, viabilizar um sistema de formação médica a nível nacional que seja integrado e de excelência, providenciando todo o potencial para que dele surjam médicos interventivos, garantindo a sustentabilidade da qualidade da Saúde em Portugal. A ANEM foi fundada em 1983, contando com o contributo da AEFCM para e desde o seu nascimento.

A atuação da AEFCM na ANEM passa pela representação dos estudantes da NOVA Medical School | Faculdade de Ciências Médicas em tudo o que diga respeito à Ciência, Saúde Pública, Saúde Reprodutiva e Direitos Humanos; como pilar central, ergue-se a intervenção ao nível da Educação Médica. É a este nível, então, que a AEFCM procura exercer uma das suas missões mais “pesadas” e (também por isso) gratificantes: garantir uma formação de qualidade e excelência, quer a nível pré-graduado, em termos de adequação das capacidades formativas, otimização dos recursos pedagógicos, modernização das metodologias de ensino e avaliação e valorização da formação extracurricular, quer a nível pós-graduado, batalhando com afinco com vista à possibilidade de acesso ao Internato Médico e aquisição de autonomia profissional por todos os recém-graduados em Medicina.

 

Federação Académica de Lisboa (FAL)

A FAL nasceu, a 20 de novembro de 2014, da vontade de um grupo de dirigentes associativos, entre os quais a AEFCM, de constituir uma alternativa política em Lisboa, sendo composta por várias Associações de Estudantes do Ensino Superior Universitário e Politécnico – representa assim, indiretamente, mais de 60.000 estudantes de diversas instituições da Área Metropolitana de Lisboa. Com sede em Lisboa, assume-se, desde o seu nascimento, como uma estrutura política, cultural e desportiva que conta com a concertação entre as várias Associações de Estudantes sem prejudicar as respetivas autonomias; e, através do contacto privilegiado com as referidas Associações, trabalha em prol da melhoria constante do Ensino Superior nas suas várias vertentes, bem como da construção de uma sociedade mais interessada e informada que permita aos jovens decidir o seu futuro com sucesso e determinação.

A atuação da AEFCM na FAL pretende contribuir para a dinamização da vida académica, e para a promoção de atividades culturais e desportivas. Concomitantemente, preza pela salvaguarda dos interesses dos estudantes em matéria de política educativa, nomeadamente nas áreas de estrutura e organização curricular, financiamento do ensino superior ou ação social escolar. Aqui, é de destacar o papel ativo desempenhado pela AEFCM no contexto dos Centros Académicos Clínicos e para a criação do passe sub23 – que são exemplos práticos do quão gratificante pode ser o exercício interventivo no âmbito da representação estudantil.

 

Hoje em dia, o nome “Hospital da Bonecada” já é um local-comum, não somente junto da comunidade estudantil da área da saúde nacional, como também junto da população portuguesa no geral, que, decorrente de várias edições de sucesso, já conhece este “hospital de brincar”. Criado pela Direção da AEFCM no mandato de 2001, este projeto consiste numa adaptação do “Teddy Bear®“, projeto equivalente desenvolvido pela EMSA. Este foi pensado com um grande objetivo em mente: erradicar a “síndrome da bata branca”, isto é, o conjunto de ideias e reações negativas na criança perante um profissional de saúde e num ambiente hospitalar. Para tal, o Hospital da Bonecada (HB) estabelece-se como um hospital modelo onde as crianças assumem o papel dos “pais” que levam os seus “filhos” – os bonecos – ao hospital, onde são recebidos por estudantes de dezenas de áreas da sáude, nomeadamente Medicina, Ciências da Nutrição, Medicina Dentária e Fisioteriapia, os quais ocupam o papel das suas futuras profissões. Através da participação nesta brincadeira, as crianças acabam por transpor os seus receios relacionados com os cuidados de saúde para os bonecos, associando esta experiência e a informação que lhes é transmitida a subsequentes visitas ao hospital. Por isto, este momento constitui uma oportunidade única para atuar ao nível da mitigação de crenças de saúde pobremente direcionadas e da síndrome da bata branca, bem como a nível preventivo através da formação e informação das crianças e seus familiares. Adicionalmente, este exercício de “faz de conta” surge como uma valiosa oportunidade para a formação dos estudantes de ensino superior da área da Saúde, não só a nível técnico-científico, mas sobretudo a nível humano de desenvolvimento pessoal e interpessoal, pelo contacto singular e precoce com a população em idade pediátrica. E, tendo sido um projeto pioneiro a nível nacional na altura da sua génese, teve, ao longo dos anos, o contributo adicional de, pelo sucesso alcançado, favorecer o desenvolvimento de projetos análogos noutras faculdades, culminando num aumento exponencial dos seus ganhos em todos os níveis.

Há 18 anos que o HB tem evoluído com a adição de cada vez mais momentos de atividade a cada ano – em 2019, tiveram lugar, para além do main event do XVIII Hospital da Bonecada® no Centro Colombo, dezenas de mini-edições em Lisboa e à periferia.

Em 2006/2007, o HB foi inclusive galardoado com o Prémio Hospital do Futuro pela Sociedade Portuguesa de Pediatria.

 

Formado em 2009, o Innovating Medicine Conference (iMed Conference®) tem lugar no início de cada ano letivo, afirmando-se como um encontro de referência para estudantes nacionais e internacionais de áreas primariamente científicas, primando pelo encorajamento do pensamento crítico-científico. Pretende não só valorizar os projetos realizados pelos estudantes da NOVA Medical School | Faculdade de Ciências Médicas (NMS|FCM) no enquadramento e reconhecimento de competências não académicas, como inspirar a nova geração de jovens médicos a seguir percursos não convencionais na área da Medicina, aliciando para a investigação em áreas incipientes em Portugal e explorando áreas não pertencentes ao currículo médico. Para isto, conta em cada ano com um leque de atividades que vão desde palestras e workshops, a programas de descontração e convívio (como sejam a prova de vinhos e a iMed Gala), passando por diferentes competições desafiantes e com prémios aliciantes.

Trata-se, efetivamente, de uma experiência única e enriquecedora, quer para os constituintes da Comissão Organizadora (que guardam consigo todas as aventuras envolvidas no planeamento e execução do congresso), quer para os participantes no evento. Ao proporcionar, para lá de palestras e workshops, a oportunidade de estabelecer um contacto único com oradores de renome (incluindo vários Prémios Nobel ao longo dos anos), num ambiente “protegido” e pensado também com esse efeito em mente, tem um potencial brutal para inspirar e, atrevo-me até a dizer, marcar os jovens médicos e aspirantes durante o resto das suas carreiras – como, aliás, tem vindo a fazer desde 2009.

 

A Revista FRONTAL (ou, melhor dizendo, “o Frontal”) é o projeto mais antigo da AEFCM, contando já com 33 anos de atividade. Inicialmente em formato jornal, cujos primeiros exemplares (infelizmente perdidos com o passar dos anos e das sucessivas Direções da Associação de Estudantes) terão sido concretizados na sua totalidade pela mão dos estudantes da altura (i.e. literalmente escritos e ilustrados à mão), ao longo dos anos tem vindo a evoluir e a albergar cada vez mais atividades anuais. Para além das edições impressas, que se metamorfosearam do jornal original para a revista atual, este projeto conta hoje em dia com edições especiais (como os volumes concebidos especificamente para as conferências iMed ou os Mini-Guias da Especialidade no Estrangeiro), com mesas redondas em torno de temas fraturantes e pertinentes no âmbito das Ciências da Vida, com coberturas jornalísticas de variados eventos de interesse para os estudantes de Medicina, e com um website onde são com maior frequência partilhados conteúdos de diversas temáticas que possam suscitar a atenção. Afinal, sempre nos disseram que “quem só sabe de Medicina, nem de Medicina sabe”, e a FRONTAL assume-se como o órgão informativo por excelência dos estudantes de Medicina a nível nacional, aspirando mantê-los, não apenas a par das mais recentes novidades de Educação Médica ou dos mais curiosos estudos científicos, mas também interessados em matérias mais vocacionadas para as Letras e nem sempre (ou não tanto) para a Saúde.

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p style=”text-align: justify;”>E foi também com isso em mente que aceitámos o desafio de parabenizar a AEFCM desta forma, para nos relembrar de olharmos, além da atualidade da melhor evidência científica do momento e do que o futuro mais próximo nos reserva, para a perspetiva histórica que nos precedeu e para as temáticas paralelas e complementares à Medicina que tantos ensinamentos transpõem para o nosso dia a dia.

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