Mini Guia: Austrália

Apesar de se situar na outra ponta do mundo, a Austrália parece atrair muitos estudantes de Medicina em fim de curso. Não sabemos se a culpa é das ondas perfeitas para a prática de surf, da Seleção Nacional de Râguebi ou da presença dos Cangurus, mas também tal não procuraremos compreender. Estamos aqui para falar de Especialidade Médica – é isso que vamos fazer.

australia

AUSTRÁLIA – TERRA DE OPORTUNIDADES?

Em 1986, chegou às salas de cinema o filme Crocodilo Dundee. Este apresentava a Austrália ao mundo através de um caçador do interior do país que é convidado por uma repórter a viajar até Nova Iorque, naquilo que se tornará num choque de realidades incontestável. O protagonista, Crocodile Dundee, é uma figura emblemática, uma espécie de bom selvagem, que compensa a falta de conhecimento do mundo moderno com um pragmatismo primitivo aprendido durante anos de vida nas florestas australianas.

Em 2013, já quase ninguém se lembra deste êxito de bilheteiras. Para compensar, muitos futuros médicos, alguns dos quais provavelmente nova-iorquinos, escolhem como destino para continuar a sua formação o maior país da Oceânia. Efectivamente 1/5 do total de estudantes do país são estrangeiros.

Crocodile Dundee ou ou verdadeiro herói australiano

O ENSINO PÓS-GRADUADO

Antes de partir para explicações profundas sobre as possibilidades de tirar a especialidade na Austrália, é importante perceber como funciona o ensino pós-graduado neste país. Assim, este divide-se me três fases: o internato (internship), a residência (residency) e a especialidade.

O internato tem a duração de um ano, ocorrendo geralmente em hospitais públicos, num sistema de rotações entre vários serviços com o objectivo de fornecer bases gerais do treino médico; no final desta etapa, os médicos são autorizados a efectuar uma inscrição completa (full registration) na Ordem dos Médicos de um dos Estados ou Territórios.

A residência não tem uma duração definida nem é um passo efectuado por todos os médicos (embora o seja pela maioria). Habitualmente, ocupa entre 1 a 2 anos da formação, durante os quais os médicos são distribuídos por rotações entre hospitais centrais e provinciais. O objectivo da residência é responder às necessidades do sistema no que toca a mão-de-obra e apresentar aos médicos situações clínicas ricas e fundamentais para o seu desenvolvimento profissional.

A última etapa – a especialidade – é feita através dos Colégios de Especialidade (Specialist Medical Colleges) e pode durar entre 3 a 8 anos. Durante este tempo, o médico tem a oportunidade de desenvolver competências de áreas específicas da Medicina em hospitais públicos, com excepção na especialidade de Medicina Geral (General Practice) que é feita maioritariamente em clínicas privadas. A selecção dos candidatos pelos diversos Colégios tem por base o currículo e entrevista. No final da especialidade, os médicos são agraciados com um medicare provider number, o qual lhes permite independência para exercer medicina em qualquer local da Austrália, tanto no sistema público como privado.

Hospital de Sidney

COMO CONCORRER PARA O INTERNATO?

Actualmente, para fazer a especialidade na Austrália é necessário, em primeiro lugar, garantir o reconhecimento do diploma do Mestrado Integrado em Medicina (MIM). A autoridade responsável pela acreditação do mesmo é a Australian Medical Council (AMC), que exige aos candidatos, de forma a dar início ao processo, dois documentos: uma cópia autenticada da tradução para inglês do diploma do MIM e um certificado de competência de língua (O IELTS – com classificação superior a 7 nas quatro componentes – é muito usado; outros exames são igualmente reconhecidos pela AMC (ver fim do artigo)). Neste ponto, existem três procedimentos administrativos principais, ou pathways, passíveis de serem levados a cabo: o Competent Authority Pathway, para médicos de diversos países anglo-saxónicos, o Specialist Pathway, para médicos especialistas, e o Standard Pathway; foquemo-nos neste último.

O Standard Pathway é o procedimento administrativo que permite a médicos não-especialistas de todo o mundo ingressarem no sistema australiano, garantindo-lhes a oportunidade de fazer o internato, residência e especialidade. Para obtenção de certificado da AMC esta exige a realização de dois exames – o AMC Computer Adaptive Test Multiple Choice Question (CAT-MCQ) e o AMC Clinical Examination. O AMC CAT-MCQ é um teste com 150 perguntas de escolha múltipla com a duração de três horas e meia realizado em diversos centros a nível mundial (nomeadamente Madrid) que aborda os seguintes temas: Medicina, Cirurgia, Obstetrícia e Ginecologia, Pediatria, Psiquiatria e Saúde Pública. O AMC Clinical Examination é um exame que pode ser realizado após aprovação do primeiro, feito na Austrália quatro vezes ao ano, tendo como objectivo verificar as capacidades clinicas, bem como capacidades de comunicação com pacientes. O exame clínico não é, porém, obrigatório, na medida que, caso um médico tenha já contrato de trabalho com um prestador de serviços de saúde australiano, este poderá por si certificar as capacidades do mesmo.

Melhor que isto não fica

À parte dos três pathways principais já descritos, a AMC possibilita o acesso à prática de Medicina na Austrália através de dois outros pathways específicos: o Area of Need Specialist e o Specialist-in-training. O primeiro é um concurso particular para especialistas médicos cuja necessidade para os Sistema de Saúde australiano é premente. O segundo é direccionado para médicos a fazerem a especialidade que desejem levar a cabo uma experiência de curta duração (não mais de dois anos) de formação pós-graduada na Austrália. Conclui-se assim que, mesmo para aqueles que já começaram a tirar a especialidade, as portas da Austrália não se encerram por completo!

Qualquer que seja o pathway seguido, em caso de aprovação, a AMC emite um certificado que permite ao médico levar a cabo a inscrição no Medical Board of Australia e, assim, entrar nos sistema australiano e passar a estar em pé-de-igualdade em relação aos colegas locais.

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E NO FIM…

Para muitos, a Austrália é uma terra de oportunidades. Clima, nível de vida e salários mais elevados (os internos recebem entre $55,000 a $73,000/ano) são algumas das razões apontadas para fundamentar o desejo de mudança para a terra dos cangurus. Adicionalmente, é conhecida a carência de profissionais médicos na ilha, pelo que o Governo Federal tem optado por recrutar médicos internacionais, especialistas e pré-graduados – há, pois, um casamento de conveniências entre as duas partes. Todavia, em anos recentes, tem vindo a surgir uma vaga de contestação face ao modelo de selecção para o internato. A associação nacional de estudantes de Medicina australiana defende que já existem estudantes estrangeiros – que tenham cursado em universidades australianas – a serem excluídos do concurso do internato, naquilo que será uma situação paradoxal de um sistema com falta de profissionais a impedir médicos de acederem ao mesmo.

A Austrália está de portas abertas para o mundo. Se és um dos que desejam ardentemente surfar nas ondas australianas ao fim de semana e não consegues deixar de pensar nisso, não vale a pena desesperar. O caminho pode ser espinhoso mas, no fim, certamente que compensa. No entretanto, se para ti ver filmes do Crocodilo Dundee é uma experiência dolorosa, podes sempre ir ouvindo a banda australiana Tame Impala e sonhar com o dia em que os vais ver ao vivo na Ópera de Sidney. Talvez esteja mais próximo do que imaginas.

INFORMAÇÕES ÚTEIS

Testes de competência linguística aceites pela AMC:

  • Occupational English Test (OET). Nota mínima exigida: A ou B.
  • International English Language Testing System (IELTS): Nota mínima exigida: 7 nos quatro componentes.
  • Professional Linguistic Assessment Board (PLAB) do Reino Unido. Nota mínima: nenhuma; apenas exigida uma nota de recomendação.
  • New Zealand Registration Examination (NZREX) da Nova Zelândia. Nota mínima: apenas exigida uma nota de recomendação.

Guia de acesso da AMC

Sites úteis:

 

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