Mini-Guia – Canadá

Depois de um longo interregno, os mini-guias regressam. Desta vez, a sorte recai sobre o Canadá. Do Great White North chegam notícias não muito animadoras para os estudantes de medicina do mundo inteiro desejosos de aí realizarem o Internato – a competição é grande para um pequeno número de vagas e o caminho difícil. Ainda assim, será esta razão para se desistir do intuito de fazer o internato no Canadá? É esta a pergunta de um milhão de euros a que vamos tentar dar resposta.

Em muitos aspectos, o processo de candidatura para o Internato Médico para o Canadá é semelhante ao existente nos Estados Unidos da América. Existem exames nacionais de realização obrigatória, um sistema de matching online e uma escolha de candidatos com base em entrevistas. Porém, diversamente ao que acontece no seu vizinho do sul, no Canadá os estudantes estrangeiros  auferem de um estatuto especial que os coloca, de uma forma geral, numa posição de desvantagem clara em relação aos congéneres canadianos. Recebem o nome de International Medical Graduates (IMG) e concorrem na maioria dos Distritos em vagas separadas e altamente concorridas – sim, porque para além do processo geral obrigatório, cada uma das 8 Províncias Canadianas com programas para médicos estrangeriso apresenta algumas pequenas nuances no que toca a requerimentos exigidos.

Uma particularidade do Internato Médico no Canadá é a existência de uma clausula apelidada Return of Service

Uma particularidade do Internato Médico no Canadá é a existência, na maioria das províncias (Alberta é a excepção) de uma clausula apelidada Return of Service. Segundo esta, no final da especialidade o médico é obrigado a  devolver ao hospital um determinado número de anos em jeito de compensação pela formação recebida. Na maioria dos Distritos este número de anos equivale ao número de anos de formação específica, nunca podendo ultrapassar o total de 5, facto que deverá ser tido em conta pelos candidatos no momento da escolha do destino.

[pullquote]É necessário ter-se 7 e 24 em todos os grupos do IELTS ou do TOEFL, respectivamente.[/pullquote]

Escusado será dizer que quem quiser ir para o Canadá, terá que falar inglês; e muito bem. Tal como discutido em outros Mini-guias, os Exames reconhecidos internacionalmente para a língua inglesa são o TOEFL (Americano) ou o IELTS (britânico), sendo exigida uma classificação mínima, na maioria das províncias, em cada um dos grupos dos testes de 24 e 7. respectivamente.

CarMs ou o início da Guerra das Siglas

No Canadá,  a distribuição dos candidatos ao Internato é da responsabilidade do Canadian Resident Matching Service (CaRMs), num sistema semelhante ao existente nos EUA. Esta organização sem fins lucrativos  procura, através de um programa de matching online, realizar uma correspondência entre os desejos dos candidatos e as necessidades das Instituições de Saúde responsáveis pelos programas de treino pós-graduado.

Regressemos, porém, ao início: o primeiro passo que um estudante de medicina português tem de realizar é o registo no site Physiciansapply.ca. Aqui é possível proceder à autentificação dos Documentos necessários para proceder à candidatura ao CaRMS. Seguidamente, é obrigatório ultrapassar com sucesso dois exames: o MCCEE (realizável em Portugal, constituído por 180 perguntas de escolha-múltipla e com o custo de aproximadamente 1.229€) e o  MCCQE1 (exame com 196 perguntas, exclusivamente feito no Canada e com um custo de aproximadamente 700€).

Feita a inscrição no CaRMs e elaborada uma lista de prioridades dos vários hospitais e serviços, o matching é automático, restando ao candidato esperar pelos resultados. A sua publicação não significa o fim do percurso, mas apenas mais uma etapa ultrapassada, pois é necessário ainda responder a um entrevista nos Serviços atribuídos; um CV forte com boas referências é fundamental para passar da prateleira dos excluídos para a dos escolhidos.

Só a partir deste ponto as portas para o Internato do Canada se abrem – mas só um pouco, o necessário apenas para vislumbrar o futuro através de uma fresta, porque para se ser contratado por um Hospital, é necessário tratar da situação legal de habitação no país,  o que passa pela requisição de um cartão de Residência Permanente.

A diversidade no todo

Como já referido, nos vários Distritos do Canadá existem pequenas diferenças no processo de candidatura, bem como no número de vagas para médicos estrangeiros. Da mesma forma, existem Distritos onde é o acesso é quase impossível, enquanto que noutros existem facilidades evidentes, ou seja, são IMG Friendly. No segundo grupo, destaca-se Ontário com 217 vagas, no ano de 2010. No polo oposto, Alberta, apenas com duas. Assim, qualquer que seja o destino de escolha do candidato, este terá sempre que se informar das particularidades do processo de cada um dos Distritos de forma a não ter más surpresas a meio do caminho (por exemplo, a requisição de um resultado no TOEFL de 95…).

O percurso até à especialidade em Ontário (fonte: healthforceontario.ca)

Igualmente, existem especialidades com maior ou menor dificuldade de acesso. Num dos extremos do fio temos Medicina Familiar e no outro sub-especialidades cirúrgicas ou Cardiologia. Também aqui Cirurgia Plástica parece ser um sonho para poucos – qualquer semelhança com o nosso país é pura coincidência.

Por último, será ainda importante referir alguns conselhos práticos para o sucesso no matching e colocação numa vaga de especialidade. Este é um processo de selecção misto, com exames (os já referidos MCEE e MCCQE) e eleição através de entrevistas e CV, pelo que será importante: em primeiro lugar, ter boas notas nas duas provas de avaliação; e, em segundo lugar, reforçar o currículo o máximo possível: trabalhos de investigação, estágios observacionais no Canadá e, principalmente, cartas de recomendação podem muito bem abrir uma brecha numa muralha de aparentemente intransponível. Adicionalmente, várias fontes indicam a aprovação nos exames dos EUA USMLE step 2 CK e step 2 CS, bem como no canadiano NAC OSCE como mais valias curriculares evidentes.

Em que ficamos?

Considerando tudo o que foi dito, é praticamente indiscutível a dificuldade de acesso ao Canadá para a realização de Internato Médico. As vagas são poucas, os exames diversos e o ambiente face a estudantes estrangeiros que queiram prosseguir os estudos pós-graduados não é o mais favorável; em 2011 apenas 17 % dos IMG candidatos conseguiram lugar no Sistema de Saúde Canadiano. Porém, é igualmente verdadeiro o facto de existir mais facilidade para algumas especialidades como Medicina Familiar (que no Canadá tem uma duração de apenas dois anos), particularmente em cidades periféricas, o que pode ser um atractivo para alguns. Igualmente, tem se vindo a observar um aumento constante de vagas para IMG ao longo dos últimos anos. Uma vantagem clara do Canadá como destino profissional é a qualidade e acessibilidade de toda a informação referente ao internato médico através do site do CaMRs. Adicionalmente, parte do processos pode ser realizado à distância, o que facilita em muito a vida dos candidatos.

Com mais ou menos dificuldade, fazer o internato no Canadá está longe de ser uma impossibilidade. Claro que o candidato ter-se-á de preparar para enfrentar diversos exames e competir com médicos de todo o planeta por um pequeno número de vagas. Este não será com certeza também um desafio barato – entre quotas de inscrição, exames e viagens, a conta final não estará ao alcance de qualquer um e um empréstimo bancário poderá ser a única solução para resolver este problema.  Mas, claro, entrar no país que deu a música dos Arcade Fire ao mundo nunca poderia ser tarefa fácil.

Mais Info:

[list type=”plus”] [li]CARMS[/li] [li]Internato em Ontário – Health Force Ontario [/li]

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O Luís Afonso nasceu em Coimbra, mas sempre sonhou ser de Mortágua. É estudante do 6º ano de Medicina, mas gostava era de ter um bar de praia em Copacabana e um canudo de Línguas Orientais na algibeira. Se o virem num concerto de Coldplay com ar aluado, provavelmente enganou-se no caminho ao sair de casa para comprar bolachas com chocolate, situação que, aliás, lhe acontece frequentemente. Quase ganhou o torneio de Trivial Pursuit da Queima das Fitas, só que errou a pergunta «Quantos dias sobrevivem os Glóbulos Vermelhos?». A partir daí a sua vida foi sempre a descer.

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