Da vacina contra a malária à estimulação neuronal

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 Dia 2 da Imed Conference 6.0, marcado pela discussão de duas áreas de investigação fervilhantes das ciências da saúde: infecciologia e neuropsiquiatria. Se a primeira disciplina tem sido alvo de um renovado interesse, após uma época em que se deu como vitoriosa a “batalha” contra os microorganismos, a segunda continua a ser, em grande medida e apesar de todos os avanços, Terra Incógnita a desbravar pela comunidade científica. Pelo meio, houve tempo para a Clinical Mind Competition, na qual Lisa Sanders, a carismática clínica norte-americana, teve oportunidade de cativar a mente dos médicos do futuro. 
 

It’s time to rise and shine! – o segundo dia da iMed Conference começou cedo e a plateia, contagiada de entusiasmo,  pessoa por pessoa, esperava as sessões sobre as doenças infeciosas – a doença escolhida deste iMed 6.0 foi a malária. O primeiro orador a entrar em palco foi, nada mais nada menos, que o português responsável pelo desenvolvimento de uma vacina contra a malária – o Professor Miguel Prudêncio. O investigador, agraciado recentemente com uma avultada bolsa da Fundação Bill and Melinda Gates, veio à Reitoria da NOVA explicar que, através da inoculação e modificação genética do plasmodium berghei, parasita não patogénico para o homem, é possível que este expresse antigénios do plasmodium falciparum e, assim, destacar a proteína CS, de forma a distinguir, neutralizar e inibir o microorganismo responsável pelo paludismo. A investigação prossegue então no sentido da produção de um plasmodium geneticamente modificado que expresse antigénios não só do falciparum, mas também de outros plasmódios. O Prof. Miguel Prudêncio terminou a sessão entusiasmando a audiência dizendo que o seu objectivo é os human trials estarem a decorrer já no próximo ano e que, dentro de 10 a 15 anos, se vejam os primeiros resultados dos mesmos – a desejada cura, a vacina para o ser humano!

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No meio da escuridão, será a vacina contra a malária a solução? (fotografia: Pedro Monteiro Palma/Luís Rodrigues)

As Scientific Lectures desta manhã seguiram, então, directamente do Prudêncio Lab, em Lisboa, para o Leibniz Institute for Experimental Virology, em Hamburgo, com  Joachim Hauber, que pode estar muito perto de uma descoberta que mudará para sempre a vida de milhões de pessoas. A sua equipa, a aceitar o que o cientista alemão defendeu perante a plateia, está em vias de alcançar resultados significativos na luta contra a infecção por VIH.

Joachim Hauber, criador da inovadora enzima Tre recombinase, capaz de remover DNA inserido pelo VIH em células infectadas.

Joachim Hauber, criador da inovadora enzima Tre recombinase, capaz de remover DNA inserido pelo VIH em células infectadas.

Talvez seja ainda cedo para falar em cura, mas a terapêutica do Professor Hauber et al. tem mostrado evidência de eficácia no controlo da carga viral, com possível vantagem perante os medicamentos actualmente comercializados no que toca a efeitos adversos. O trabalho da equipa de Hamburgo já dura desde há cerca de 20 anos, quando começou a trabalhar com o gene da enzima recombinase, que permite a remoção do DNA viral das células infectadas impedindo, assim, que se chegue a uma elevada concentração de carga viral,. A investigação, ensaiada apenas em ratos, prosseguirá para doentes infectados pelo HIV. A ser bem sucedida, traduzirar-se-á  numa autêntica revolução no mundo da virologia.

Um coleccionador diferente

O Professor Osterhaus apela à curiosidade do público, incentivando-os a questionar os dogmas da Ciência. (fotografia: Pedro Monteiro Palma)

O Professor Osterhaus apela à curiosidade do público, incentivando-os a questionar os dogmas da Ciência. (fotografia: Pedro Monteiro Palma/Luís Rodrigues)

E com estes dois cativantes oradores das Infectious Diseases, entrámos no campo das Keynote Lectures, com o Professor Albert Osterhaus, que dispensa grandes apresentações devido ao seu trabalho como virologista, elogiado e admirado por todo o mundo – e, como era de esperar, a sua sessão não desiludiu os participantes deste iMed.

Já não se morre de doenças infecciosas como no passado. A minha profissão assemelha-se ao colecionador de selos, mas em vez de selos coleciono vírus.

Albert Osterhaus

Observando-se claramente o gosto que toma pela sua profissão, o Professor auto intitulou-se um coleccionador de vírus, afirmando que cada um é um estímulo diferente e que, considerando cada todos os anos se descobrem novas espécies, tal se traduz num desafio infindável. Salientou a importância da vacinação – que não deve ser descuidada, pois caso contrário, e num curto período de tempo, com a preciosa ajuda de animais, vectores inocentes nesta história, a doença pode disseminar-se, assumindo-se o risco do desenvolvimento de pandemias de difícil controlo (Ecos do Ébola pareceram assolar pelo auditório…). Por fim, o Professor Osterhaus destacou o vírus H7N9, para o qual devemos direcionar a nossa atenção nos próximos tempos e, ao expor a alarmante percentagem de 50% da população portuguesa que não está vacinada, gerou a agitação da plateia – o seu objectivo, para terminar com a interessante sessão com o apelo à vacinação.

Paciente do sexo feminino…

Após um breve coffee break, chegou o momento mais esperado pela manhã: a Boehringer Ingelheim Clinical Mind Competition, com a Dra. Lisa Sanders, clínica norte-americana, autora de livros, blogues e uma verdadeira entusiasta do raciocínio clínico em casos complicados. A sessão foi bastante interactiva e dinâmica e os concorrentes tiveram a possibilidade de se tornarem autênticos Gregory House por duas horas, com 22 questões e 45 segundos para responder a cada uma! Apelou aos concorrentes para não terem medo de errar, afirmado que «isso faz muita falta na aprendizagem».

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Lisa “Dr. House” Sanders delicia a plateia… (fotografia: Pedro Monteiro Palma/Luís Rodrigues)

Os concorrentes destacaram à FRONTAL a excelente performance da mestre-de-cerimónias, sempre carismática, comentando pertinentemente,  e recorrendo a exemplos extraídos da sua prática clínica, o desenvolvimento do invulgar caso – no final, uma hiperemese por canabinoidesl! Com tudo “óptimo”, como muitos relataram, falhou apenas a parte electrónica de alguns comandos, «sendo pena não haverem mais vagas», o que se confirmava pela agitação da plateia espectadora, que tentava discutir e responder as questões entre si como se de um concorrente se tratasse.

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…E cada um revela o House que há em si! (fotografia: Pedro Monteiro Palma/Luís Rodrigues)

Problemas hoje, memórias amanhã…

Após recuperar energias, seguiram-se as conferências de neuropsiquiatria com o Dr. Michael Kopelman a fazer honras. Especialista nos diversos distúrbios de memória, o simpático britânico cativou a audiência apresentando as diferentes patologias e exemplificando com casos clínicos, numa sessão muito dinâmica e, digamos, “real”. Fascinando a plateia com este mundo por explorar, terminou a sessão afirmando que «há mais esperança para o doente recuperar a memória do que o que vem escrito nos livros».

O Professor Kopelman abriu as palestras da parte da tarde (fotografia: Pedro Monteiro Palma/Luís Rodrigues)

O Professor Kopelman abriu as palestras da parte da tarde (fotografia: Pedro Monteiro Palma/Luís Rodrigues)

A segunda palestra de neuropsiquiatria foi encabeçada pelo Professor Grégoire Courtine e prendeu a atenção desde o primeiro momento: a expectativa de proporcionar a doentes com lesão da espinal medula a oportunidade de caminhar cativou a audiência, sobretudo pelos resultados impressionantes que as suas experiências com ratinhos tetraplégicos já alcançaram.

A ciência faz-se de pormenores, parece dizer Gregoire Courtirne. (fotografia: Pedro Monteiro Palma/Luís Rodrigues)

A ciência faz-se de pormenores, parece dizer Gregoire Courtirne (fotografia: Pedro Monteiro Palma/Luís Rodrigues)

O professor Courtine mostrou que a locomoção baseada apenas na função medular é uma realidade que nos acena do horizonte pois já é possível fazer com que cobaias com lesão incompleta da medula espinhal caminhem voluntariamente com recurso a injecções de serotonina na porção medular distal à zona de lesão, a uma neuroprótese ou estimulação neuroeléctrica. Aos estudantes de medicina, o professor Courtine deixa a mensagem de que um grande projecto de investigação é, antes de mais, e sobretudo, um trabalho de equipa no qual os médicos são apenas um dos pilares, entre tantos outros profissionais imprescindíveis para que o objectivo que partilham se cumpra.

“There is no neuron that is safe!”

A Keynote Lecture da tarde chegou e apresentou Andres Lozano, o professor e director clínico de neurocirurgia da Universidade de Toronto, conhecido pelo seu trabalho em Deep Brain Stimulation (DBS) como tratamento de doenças como Huntington, Parkinson ou Alzheimer. A DBS consiste na colocação de eléctrodos em certos circuitos cerebrais, que não só altera a função dos neurónios, estimulando ou suprimindo, como altera a sua estrutura, estimulando a formação de novos neurónios; no caso do Parkinson, Lozano referiu entusiasticamente que já se conseguiu suprimir totalmente os sintomas e sinais motores. No caso da depressão, é possível suprimir uma área cerebral que está hiperactivada e automaticamente reestabelecer a função dos lobos frontais, contribuindo para a estabilidade emocional do doente. Com uma apresentação muito interessante, a DBS encontra-se actualmente em fase II em doentes em estádios iniciais de Alzheimer, pretendendo avaliar se há realmente uma melhoria dos sintomas cognitivo.

O Professor Andres Lozano (fotografia: PEdro Monteiro Palma/Luís Rodrigues)

O Professor Andres Lozano (fotografia: Pedro Monteiro Palma/Luís Rodrigues)

Nobel(íssimo)

Por último, mas não menos importante (de todo), a iMed Conference 6.0 recebeu orgulhosamente mais um laureado com um prémio Nobel: Andrew Schally. Schally ganhou desde início a simpatia da audiência, começando a sessão com um excelente pontapé de saída falado em português! Os temas abordados foram essencialmente história da da TRH, os análogos LHRH (GnRH) – usados no tratamento do cancro da próstata –  Somatostatina e os agonistas e antagonistas da GHRH. Ao longo da apresentação, para além da abordagem química, foram realçadas as aplicações terapêuticas do estudo destas hormonas e, ao exibir vários projectos de investigação (muitos deles recentes!), confirmou a sua fama – aliás, assumida – de “addicted researcher”. Schally impressionou e interessou a plateia também por não se ter limitado à área da oncologia, mostrando-se interessado noutro tipo de doenças.

Os Nobelissímos acabaram por este ano e os oradores do segundo dia brilharam, com palestras que cativaram todos os presentes. Nesta jornada, apresentaram-se novamente grandes inovações científicas – da vacina  para a malária do Professor Prudêncio à estimulação neuronal profunda do Professor Lozano – algumas das quais já presentes no terreno, outras com potencialidades verdadeiramente revolucionárias.

Andrew Schally, o último laureado com o Prémio Nobel, destacou-se pela imensa simpatia e cordialidade (fotografia: Pedro Monteiro Palma/Luís Rodrigues)

Andrew Schally, o último laureado com o Prémio Nobel, destacou-se pela imensa simpatia e cordialidade (fotografia: Pedro Monteiro Palma/Luís Rodrigues)