Homenagem a Madalena Esperança Pina, a Historiadora da Colina da Saúde

Em homenagem a Madalena de Gouveia Esperança Pina Kreiseler de Albuquerque, Professora da Faculdade de Ciências Médicas, a FRONTAL cria este espaço dedicado à sua memória.

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Da Professora Madalena recordamos o seu espírito de dedicação ao ensino. Sempre quis fazer de nós mais que médicos, mais que estudantes. De facto, e mais que uma vez, nos lembramos, certamente, de a ouvir dizer: “O Médico que só sabe Medicina nem Medicina sabe.” A força histórica e cultural da Colina de Santana foi sempre a sua paixão. E, graças a ela, ganhou também força o amor de gerações de alunos pelo mesmo local.

A Professora nasceu a 5 de dezembro de 1975 e faleceu hoje, a 29 de junho de 2013, com apenas 37 anos.
Em sua memória criamos este mural dedicado à nossa Professora. Podes também partilhar a tua mensagem enviando-a para revistafrontal@ae.fcm.unl.pt

A todos aqueles que querem prestar à professora Madalena Esperança Pina uma última homenagem:
Velório: dia 29 de junho, às 19h30 na Capela dos Claustros – Basílica da Estrela.
Funeral: dia 30 de junho, às 10h45 na Capela dos Claustros – Basílica da Estrela.
Missa de 7º dia: dia 5 de julho, às 20h00 na Basílica da Estrela.

“VIVER A COLINA DA SAÚDE”

Texto publicado na Edição nº 39 da FRONTAL pela Professora Doutora Madalena Esperança Pina.

A Colina de Santana, uma das sete que caracterizam Lisboa, tem um património histórico, arquitectónico, artístico e social há muito ligado à Saúde e à Medicina em particular. O local vem despertando o interesse da investigação científica na área das Ciências da Saúde, por se tratar de um fenómeno único, com importância no contexto português e europeu. A Colina da Saúde faz parte do quotidiano dos alunos da Faculdade de Ciências Médicas, que a estudam, a conhecem e dela fazem parte, porque o património da colina é também humano.

Na base da colina começa o percurso. Lá em baixo, a Praça da Figueira guarda a memória urbanística e científica do Hospital Real de Todos os Santos, grande hospital de fama europeia com fachada virada ao Rossio.

Subindo a encosta, alcança-se o portal do Hospital de São José, homenagem feita à vitória sobre os franceses no contexto das Invasões. Abre-se caminho para um complexo hospitalar activo desde 1775, o “pai” dos emblemáticos Hospitais Civis, que ainda marcam presença na gíria médica. Estes, oficialmente criados em 1913 pelas reformas da República surgiam gradualmente do movimento de anexação de espaços conventuais ou da criação de novas construções hospitalares. São Lázaro, Desterro, Capuchos, Santa Marta e um pouco mais longe, a Estefânia, Arroios e Rêgo/Curry Cabral, constituiriam os Civis, escola clínica (e de vida) muito marcante para quem nela trabalhou. Perto, o Miguel Bombarda, que nunca pertenceu ao conjunto, prestava, no sítio de Rilhafoles, assistência à Psiquiatria.

Pertencem à memória do espaço o Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, que começou a sua actividade enquanto serviço do Hospital de São José em 1892, o Instituto de Medicina Legal, criado em 1899 como Morgue de Lisboa e o Instituto Ricardo Jorge, criado em 1889 como Instituto Central de Higiene por Ricardo Jorge, que teve no Campo de Santana a sua segunda casa.
O percurso chega ao topo, alcançando a Faculdade, construída para a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, que funcionou nos terrenos do São José e no Campo de Santana conheceu um projecto de arquitectura que se coadunava com o valor do seu ensino. Inaugurado em 1906 para o XV Congresso Internacional de Medicina, que contou com dois mil congressistas, nele nasceu, em 1977, a Faculdade de Ciências Médicas, como Unidade Orgânica da Universidade NOVA de Lisboa.

O edifício surpreende quem nele entra. É histórico, tem um património artístico único e liga-se harmoniosamente à colina. A Faculdade tem vida, nela se ensina e aprende Medicina, nela se praticam os rigores da investigação científica. Do seu património e da sua história fazem parte a sua vida enquanto espaço, o jardim envolvente, a vista sobre o Castelo de São Jorge, a proximidade do Torel e o diálogo com a estátua de Sousa Martins, homem notável de Ciência.
Pelas suas escadas subiram muitas figuras de referência, entre médicos e cientistas, professores e alunos. Até Vasco Leitão, exímio conhecedor da British Pharmacopeia e do esternocleidomastoideo, deixou na Faculdade a sua referência. Foi boémio e estudante num âmbito ficcional mas de um documento cinematográfico de valor inestimável para a história do Cinema Português. Simboliza bem, no seu esforço para chegar ao fim do curso, os alunos que vivem aquele espaço e que são, afinal, o seu património humano. Da Faculdade e da Colina de Santana.

A Colina da Saúde consolidou-se da experiência e da memória da Ciência e desta continua a viver. Criar o hábito difícil de subir a Calçada do Moinho de Vento, saber contorná-lo usufruindo do Elevador do Lavra, lembrar o valor de um espaço que se fez da Saúde e que pertence à cidade, sentir a Faculdade como um manancial de memória médica que se conjuga com a Ciência mais actual e agarrar a capa com orgulho de Santana, que se fez do saber e da tradição.

Tudo isso é viver a Colina da Saúde e dela fazer parte.

Uma homenagem da equipa da FRONTAL em nome dos estudantes da Faculdade de Ciências Médicas.

Passagem

Despedir-se é entoar a morte
com o canto mais alto da vida
Ninguém sabe que parte
Só um momento conheço
no conhecimento fortuito dos seres
Porque chegar é já tudo
Fruo a contemplação de olvidares
o pó da minha passagem
Este amar as cidades aos sermos viagem
A eternidade é não seres eu
É habitares nas coisas a tua miragem

Fitamos os lugares para recordar
como nos esquecem
Todas as varandas dos homens
dão só para eles

Ouso a vertigem da tua altura
para que o crepúsculo aconteça.
Acontecerá sempre, depois de mim.
Ao cair da noite dobrarei em sinos mudos
a tua partida e candeias reinventarão
a luz de existires.
Adeus
Dormes na cidade impossível
onde ninguém deveria morrer.

Por Joana Aguiar

Porque há professores que ficam na História. Que nos cativam e nos fazem sair da cama cedo para ouvir os mitos e lendas da Medicina. Que nos fascinam com o seu discurso e com o brilho no olhar. Porque há professores a quem não temos vergonha de ligar a pedir ajuda, e que sabem sempre ouvir-nos. Que nos motivam quando o trabalho na AE é demais e achamos que não vale a pena. “Olhe lá à sua volta e veja bem se não vale a pena”. Professores que nos cumprimentam na faculdade e na fila do supermercado. Que nos elogiam porque estamos mais magras ou nos chamam a atenção para “o horror dessas calças”. Professores que na cama do Hospital corrigem exames e acrescentam notas em Excel. Que querem aldrabar a Junta Médica para continuarem a dar aulas. Professores que não podiam morrer aos 37 anos.
Não compreendo e nunca compreenderei estas surpresas amargas da vida.

Por Ana Carlota Dias

Existem Professores que nos marcam pela sua rara inteligência, dedicação ao ensino e amor à Arte. Se houve alguém que fez desenvolver em mim o amor pela nobre Ars Medica nos meus primeiros passos na Faculdade de Ciências Médicas, essa singular pessoa foi a Prof. Madalena Esperança Pina, que hoje prematuramente nos deixou. Sempre assumiu como sua a grande Missão de fazer de nós, Estudantes, mais do que isso, mais do que futuros médicos no seu sentido mais estrito. Todos os que nestes anos tiveram o privilégio de aprender História da Medicina com esta pessoa verdadeiramente apaixonada pelo mistério da Colina de Santana nunca se esquecerão da sua permanente evocação de Abel Salazar pois, em boa verdade, “quem só sabe de Medicina, nem de Medicina sabe”. O amor de gerações de alunos pelo nosso querido Campo de Santana foi o maior legado que a Prof. Madalena nos poderia ter deixado.

Por João Borba Martins

Recordo-me bem das primeiras palavras que a Prof. Madalena nos dirigiu na primeira aula de História da Medicina:
– Não pensem que por estarem em Medicina e terem tido grandes notas que são as últimas coca-colas do deserto.”
Ficámos em choque. Não entendíamos porque nos “deitava abaixo”. Que raio quereria ela dizer com aquilo?
Na última aula do semestre, esclareceu-nos:
– Sempre vos disse que não eram as últimas coca-colas do deserto. Mantenho o que disse porque no deserto ninguém pede coca-cola. Vocês podem ser sim o último copo de água que alguém pode pedir quando está a morrer de sede no deserto. Mas lembrem-se que nem sempre vai ser suficiente.
Restou na sala um silêncio de quem acaba de aprender uma lição de humildade.
Nunca falei com ela pessoalmente, mas ensinou-me isto. E “isto” é uma lição preciosa.

Por Ana Teresa Tavares