Será este o melhor iMed de sempre?

Senhoras e senhores, a iMed Conference 6.0 já começou e a FRONTAL levantou o braço no momento da chamada, com uma cobertura exaustiva de todo o evento.  A Comissão Organizadora – composta por alunos da nobilíssima FCM-NOVA – puxou dos galões e apresenta-se em campo com a ambição de ultrapassar a já elevada parada estabelecida no ano anterior. Será este o melhor iMed de sempre?

PRIMEIRO DIA
 
 

Dia de Sol em Lisboa e centenas de estudantes de medicina acorreram à Reitoria da NOVA para mais uma iMed Conference. O evento, iniciado durante a manhã com os workshops realizados na NOVA Medical School no Campo Mártires da Pátria, teve a tradicional Opening Lecture marcada para às treze horas. O Professor Pita Barros, Vice-Reitor da NOVA, deu inicio aos trabalhos e focou os pontos positivos de ensinar e aprender nesta Universidade. De seguida, o director da NOVA Medical School, Professor Jaime Branco, destacou a qualidade da conferência iMed 6.0 e o sentimento de coragem da AEFCML de apoiar um projecto desta dimensão.

Ana Sofia Lopes recordou uma frase tantas vezes dita pela falecida Professora Madalena Esperança Pina: “um médico que só sabe de Medicina, nem de Medicina sabe”

O Dr. Miguel Seabra, Presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia destacou a evolução do envolvimento dos alunos nos projectos da Universidade, enquanto que o Dr. Francisco George, Director-Geral da Saúde, voltou-se para questões de saúde pública em termos de demografia e doenças que afectam a população (com a obrigatório alerta em relação à epidemia do vírus do Ébola!)

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Pedro Pita Barros, o economista especialista da Saúde, colaborador da FRONTAL na edição 44, abriu as cerimónias da iMed Conference 6.0. (fotografia Pedro Palma/Luís Rodrigues)

Miguel Seabra, entre os representantes institucionais, foi o que teve o discurso mais vincado, descrevendo a evolução da sua opinião em relação à proactividade dos alunos da FCM-NOVA.

Miguel Seabra, entre os representantes institucionais, foi o que teve o discurso mais vincado, descrevendo a evolução da sua opinião em relação à proactividade dos alunos da FCM-NOVA (fotografia: Inês Amaral)

Em representação da AEFCML, Ana Sofia Lopes recordou uma frase tantas vezes dita pela falecida Professora Madalena Esperança Pina: “um médico que só sabe de Medicina, nem de Medicina sabe”, enquanto que Catarina Palma dos Reis, Presidente da Co-iMed, citou Steve Jobs – “Stay Hungry, Stay Foolish” – como motto do iMed.

Líderes em Medicina precisam-se!

Mas a estrela desta Opening Lecture foi um já veterano desta conferência, o Dr. Charles Brunicardi. Através do exemplo invulgar de Martin Luther King Jr., falou aos estudantes sobre liderança e capacidade de trabalho em equipa, destacando a necessidade de se saber comunicar, liderar, de se ter uma visão e inteligência emocional. A liderança é um skill que os estudantes de medicina devem entender, pois o seu futuro requererá muitas vezes trabalhar com outros. O cirurgião desafiou ainda os participantes da iMed Conference a parar e pensar que doença poderão no futuro vir a curar e como o farão. De notar ainda a oferta que fez à biblioteca da FCM-NOVA: a edição mais recente de Schwartz’s Principles of Surgery, obra da qual é editor.

Charles Brunicardi, eleito o melhor orador da edição anterior, apresentou na Opening Lectur uma palestra já conhecida por alguns dos presentes.

Charles Brunicardi, eleito o melhor orador da edição anterior, apresentou na Opening Lecture uma palestra já conhecida por alguns dos presentes (fotografia: Inês Amaral)

Células imunes – o novo soldado na guerra contra o cancro?

Imuno-oncologia, um dos ramos mais quentes da investigação internacional, foi o tema eleito para abrir o debate científico desta iMed Conference. Michael King, professor da Universidade de Cornell, que quase seguiu uma carreira na engenharia de fluídos, tomou conta do palanque para convencer a audiência da abordagem inovadora da sua equipa no tratamento de metástases tumorais. O seu método tem como aliado os leucócitos, que, cobertos com proteínas TRAIL, literalmente perseguem as células tumorais existentes na corrente sanguínea, eliminando-as antes de causarem dano à distância. 

Imuno-oncologia, um dos ramos mais quentes da investigação internacional, foi o tema eleito para abrir o debate científico desta iMed Conference.

A segunda parte da conferência de Imuno-oncologia foi apresentada pela Dra. Kalijin Bol, que começou por responder ao desafio do Dr. Brunicardi, afirmando que a doença que tenta curar é o melanoma maligno. Dedica-se essencialmente à criação de uma vacina constituída por células dendríticas maduras estimuladas por antigénios autólogos de forma a reconhecerem células de melanoma em estadio IV e as apresentarem a células T citotóxicas para posterior eliminação. Com isto, a Dra. Bol conseguiu um aumento significativo da sobrevida aos 5 anos. A jovem investigadora terminou a sua palestra com um incentivo aos actuais estudantes de medicina: não se limitarem à carreira médica típica mas sim aliarem a prática clínica ao exercício aliciante da investigação – há vários caminhos que nos podem conduzir ao destino final, difíceis e sinuosos, mas o que podemos aprender neles poderá ser tão enriquecedor como o objectivo final. Na sua entrevista exclusiva à FRONTAL, deixou ainda uma previsão em relação ao futuro do tratamento oncológico, no qual poderemos quiçá não só agir terapeuticamente como também preventivamente através da imunização por vacinas.

Para cada doente, um fármaco.

Chegou-se então à altura da primeira Keynote Lecture. O Professor Alexander Levitzki falou da sua experiência como investigador em imuno-oncologia. Para o Professor, há cada vez mais uma maior necessidade de uma Medicina personalizada para combater a multiplicidade dos cancros e a instabilidade genómica que muitas vezes os acompanha. De seguida, Levitzki centrou-se na sua mais recente experiência: o uso de receptores EGFR e ER2 como targets no tratamento e doenças cancerígenas, como o glioblastoma. Um tratamento altamente selectivo, com menos efeitos secundários e capaz de destruir tumores heterogéneos.

Prostaglandinas e cicloxigenases – a história de um Prémio Nobel.

O laureado com o Prémio Nobel de Medicina ou Fisiologia de 1982, Bengt Samuelsson, focou-se sobre a sua pesquisa das prostaglandinas. Junto com o seu mentor, Dr. Sune Bergström, isolou um precursor das PGs – a enzima cicloxigenase – e estudou a sua actividade. Os seus achados foram muito importantes para o desenvolvimento de fármacos como a aspirina (agadeçam ao senhor por terem algo que alivie as vossas enxaquecas). O ex-Presidente da Nobel Foundation ainda se focou na importância clínica dos eicosanóides.

A iMed Conference arrancou em grande, com uma abordagem multidisciplinar e oradores de renome. Não foi uma viagem de montanha-russa, repleta de emoções fortes de fazer a plateia ficar presa à cadeira – mas também não é isso que se espera de um evento como este. Ciência é algo dificil, trabalhoso, que normalmente necessita de longos anos de investigação para se chegar aos resultados pretendidos. Os testemunhos dados, embora de interesse variável para uma audiência de jovens futuros médicos, mostraram a quem nesta tarde se deslocou à Reitoria da NOVA um insight único de investigações que marcaram e marcarão o mundo da Medicina. Da esperança criada pelos estudos imuno-oncológicos até às certezas terapêuticas criadas pela ciência das prostaglandinas. Será este o melhor iMed de sempre? Os próximos dias o dirão.

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(fotografia: Inês Amaral)