“Anthropos” dois, cancro um


São pessoas que hoje, mais do que nunca, não se resignam e sobrevivem. Que com o trote tumultuoso de novos meios complementares de diagnóstico e terapêutica, e com a sua determinação, ultrapassam mais e melhor essa angustiante disfunção orgânica – são os sobreviventes de cancro.

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São já cerca de 250 mil os sobreviventes de cancro em Portugal (segundo dados de 2012), estimativa com tendência para crescer. Nos EUA este número sobe para 14,5 milhões, com previsão de 19 milhões para 2024, de acordo com uma recente publicação – Cancer Treatment and Survivorship Facts & Figures 2014-2015 – da American Cancer Society (ACS).

Anualmente surgem cerca de 43 mil novos casos de cancro em Portugal. Mas cada vez são mais aqueles que por entre o seu mortífero crivo passam. Dentro de 5 anos, é expectável que “entre 55% a 60%” destes novos casos estejam vivos, segundo afirma Jorge Espírito Santo, presidente do colégio da especialidade de oncologia da Ordem dos Médicos, que também é, o próprio, um sobrevivente de longa data de um cancro.

Que cancros têm um crivo mais permissivo?

Adaptado de: American Cancer Society, Surveillance and Health Services Research, 2014.
Adaptado de: American Cancer Society, Surveillance and Health Services Research, 2014.

O relatório Cancer Treatment and Survivorship Facts & Figures 2014-2015 refere que os três cancros mais comuns, nos EUA, entre sobreviventes do sexo masculino são o da próstata (43%), o colo-rectal (9%) e o melanoma (8%). A estes segue-se o cancro da bexiga (7%). Entre mulheres, as sobreviventes de cancro da mama são de longe a maior fatia (41%), seguidas das de cancro colo-rectal e uterino (8% cada). Projeta-se, no entanto, que em 2024 as sobreviventes do último sejam suplantadas pelas do cancro colo-rectal. Já no que concerne ao cancro do pulmão, principal causa de morte por doença oncológica e segundo cancro mais diagnosticado em homens e mulheres, a história é um pouco diferente – é apenas o oitavo mais representado entre sobreviventes.

Os três cancros mais comuns, nos EUA, entre sobreviventes do sexo masculino são o da próstata (43%), o colo-rectal (9%) e o melanoma (8%). Entre mulheres, as sobreviventes de cancro da mama são de longe a maior fatia (41%), seguidas das de cancro colo-rectal e uterino (8% cada).

Ainda há caminho a desbravar…

O número crescente de sobreviventes de cancro torna cada vez mais importante a compreensão das suas necessidades médicas e psicossociais, únicas. Palavras de Carol DeSantis, epidemiologista da ACS e a autora capital do referido relatório, que acrescenta que, nos EUA, os sobreviventes de cancro se debatem com numerosas e imponentes barreiras criadas por um sistema de saúde fraturado, com fraca integração e continuidade dos cuidados de saúde necessários.

Em Portugal, essas barreiras parecem não ser muito diferentes. Tendo vivido, na pele, um processo de doença oncológica, Jorge Espírito Santo tem alertado, com conhecimento de causa, para algumas das dificuldades com que os sobreviventes de cancro lidam diariamente, nomeadamente no acesso aos serviços de saúde. O médico refere que, após o doente ter alta da instituição onde fez tratamento, geralmente ao fim de 5 anos, “(…) não existem mecanismos adequados para que as pessoas continuem a ser seguidas pelos médicos de família com ligação à equipa que as tratou”.

Há cerca de dois anos levantou-se a discussão, à escala nacional, sobre o tema dos sobreviventes de cancro. Altura em que se discutiram, alegadamente, situações de doentes oncológicos que são dados como curados e deixam de gozar das condições especiais de que beneficiavam, nomeadamente em relação às taxas moderadoras.
Vitor Veloso, presidente do Núcleo Regional do Norte da Liga Portuguesa contra o Cancro, em declarações ao PÚBLICO, refere mesmo: “Ao fim de cinco anos, dizem: está curado. Tiram-lhe os 60% de incapacidade [nas juntas médicas]. A partir daí, surgem vários problemas. Se quiser fazer um seguro, a maior parte das companhias não faz ou então faz por um valor altíssimo, excluindo as patologias inerentes ao cancro; os empréstimos, que deveriam ser bonificados, são pelo contrário onerados; no próprio emprego são olhados de lado. É perverso.” Após a remissão da doença, chega um período de dualidades: por um lado, o ex-doente pretende reintegrar-se na sociedade como um cidadão normal; mas por outro, para se garantir que não há recorrências da patologia, este tem que manter o acompanhamento médico, que implica realizar exames específicos e consultas de seguimento. “Só que entretanto deixa de estar isento do pagamento de taxas moderadoras. Será que isto faz sentido?”, questiona. E foi também nesta altura que o atual Ministro da Saúde, Paulo Macedo, respondeu prontamente que a isenção se mantém nestes casos (em que já se passaram cinco anos desde o diagnóstico e o paciente já foi dado como curado), para além das situações, já previstas juridicamente, de insuficiência económica.

Está a tornar-se cada vez mais visível a dimensão desta subpopulação. E com ela a necessidade de lhe reservar uma gaveta de acolhimento nas políticas de saúde e adaptar as medidas e prioridades atuais da saúde pública portuguesa e internacional. A Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI), criada pelo Decreto-Lei nº 101/2006, que tem um papel a desempenhar neste contexto, deve ser melhorada e limada para prestar cada vez melhores cuidados de saúde e apoio social aos sobreviventes de cancro.

Apesar da esperança e da confiança num futuro mais próspero para os doentes oncológicos, consubstanciadas em fatos concretos, a vitória que se quer contra o cancro é outra: prevenir mais e diagnosticar mais cedo. Mas mais do que diagnosticar cedo, prevenir mais. Porque melhor do que sobreviver a esta doença com boa qualidade de vida, é nunca a ter tido.

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[acc title=”Vídeo e entrevista sobre o tema”]

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 Edição de imagem: Joana Dionísio

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