Cesarianas: um mal desnecessário?

 

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Um estudo recentemente divulgado pela Universidade de Aveiro aponta os interesses económicos e a falta de profissionais de saúde como as principais causas para o elevado número de cesarianas em Portugal. Este assunto, que surge ciclicamente nos media e alvo de grande polémica, já é por muitos considerado um problema de saúde pública. A FRONTAL vem te por a par deste tema!

Enquadramento na Europa e no Mundo

Portugal é dos países europeus com maior taxa de cesarianas (36,04% em 2010), sendo apenas ultrapassado por Itália (38,4% em 2009) e provavelmente pela Grécia (não disponibiliza dados há vários anos).  Embora a taxa de cesarianas tenha aumentado significativamente nos últimos 20 anos, nos restantes países europeus, esta não ultrapassa os 30% e em vários países é inferior a 20%.

A nível mundial, os países que registam maior taxa de cesarianas são a China (46,2% em 2007/08), o Brasil (40,0% em 2006), a Turquia (42,7% em 2009) e o México (42,0% em 2009).

frontal1Fonte: OECD Health Data 2011

 Portugal é dos países europeus com maior taxa de cesarianas (36,04% em 2010)

A Organização Mundial de Saúde defende, desde 1985, que uma taxa nacional de cesariana superior a 15%,  não representa qualquer benefício para a saúde. O que significa que houve em Portugal, em 2010, cerca de 10 a 15 mil cesarianas dispensáveis.

Em Portugal

Os hospitais públicos têm apresentado uma ligeira tendência crescente da taxa de cesariana, que passou de 32,4% em 2007 para 33,2% em 2009. Contudo, é nos hospitais privados, onde se tem assisitido a um maior aumento do número de partos, que a taxa global de cesarianas é mais significativa, atingindo os 65,9% em 2005.

Em Portugal Continental, a região do Norte é a que revela a maior taxa de cesarianas do país (cerca de 40% em 2010), seguida de Lisboa, que apresenta um valor muito próximo. Cerca de 10 pontos percentuais abaixo está a região do Centro e do Algarve e, por último, o Alentejo, onde este valor não passa ultrapassa os 25%. 

frontal2Fonte: INE (2012)

  é nos hospitais privados que a taxa global de cesarianas é mais significativa, 65,9% em 2005

A verdade sobre as cesarianas

Embora os riscos inerentes a todos os tipos de parto tenham vindo a diminuir nas últimas décadas, o parto vaginal continua a ser a melhor opção ao ter uma menor incidência de complicações comparativamente ao parto por cesari­ana.

 Em relação à cesariana, os principais riscos são:

  • Tromboembolismo e hemorragia pós-parto, mas também riscos major como as infeções puerperais e as complicações da ferida operatória;
  • Anestesia loco-regional, que tem maior incidência de complicações na cesariana, como hipotensão marcada (menor tolerância a perdas hemorrágicas importantes), maior risco de bloqueio total com necessidade de entubação e maior probabi­lidade de bloqueio incompleto com necessidade de recurso a anestesia geral;
  • Maior incidência de dificuldade respiratória no período neonatal, quando eletiva, ou seja, agendada e por isso não precedida de trabalho de parto;
  • Maior risco de infeções gastrointestinais devido à insuficiente colonização do trato gastrointestinal do recém-nascido. A amamentação é frequentemente retardada e/ou substituída pela administração de fórmulas lácteas, que estão associadas à intolerância às proteínas do leite de vaca.

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Além disso, por se tratar de uma cirurgia e por requerer um internamento mais prolongado, a cesariana tem um custo mais elevado do que um parto vaginal.

Por estas razões, deve-se sempre dar preferência ao parto por via vaginal, salvo quando determinadas condições médicas o tornam mais arriscado do que o parto por cesariana, como a situação ou apresentação fetal anómala e tentativa frustrada de indução do trabalho de parto.

Fatores que poderão explicar estes dados

  • Falta de profissionais de saúde: Nos hospitais públicos, a falta de profissionais de saúde faz com que os turnos sejam prolongados. Assim, as equipas médicas não têm a tranquilidade necessária para tomar a decisão mais apropriada, sobretudo na sequência de trabalhos de parto prolongados. Esta atitude também se repercute ao nível do tempo despendido nos esclarecimentos prestados ao doente
  • Organização do hospital: Em algumas instituições públicas, de forma a reduzir os custos associados, o Bloco de Partos não tem uma sala operatória no seu interior ou na sua contiguidade. Esta situação, para além de constituir um risco acrescido durante o parto, leva diretamente a um aumento da taxa de cesarianas, já que a decisão médica passa também por ter em conta o tempo adicional necessário do transporte da grávida para outro local e a disponibilidade da sala operatória;
  • Salário médico: Se o salário de um médico obstetra no sector privado for composto por uma componente fixa e outra variável, o médico poderá incentivar a doente a recorrer a uma cirurgia, que também requer mais consultas, beneficiando-se a si próprio e ao hospital;
  • Aumento da idade materna: Gravidezes tardias estão associadas a um maior número de situações patológicas, que, consequentemente, podem resultar em um parto por cesariana com maior frequência;
  • Conveniência: As cesarianas são partos que podem ser agendados de acordo com a disponibilidade tanto dos médicos como dos pais;
  • Conforto das parturientes: Algumas grávidas, por não estarem bem informadas, relacionam a cesariana com um menor risco de complicações fetais e maternas a logo-prazo. Desta forma, preferem passar por uma recuperação pós-parto mais dolorosa e assim evitarem o esforço e dor associados ao parto vaginal.

Medidas e soluções

Em Março de 2013, o Ministério da Saúde criou a Comissão Nacional para a Redução da Taxa de Cesarianas, a qual tem como objetivo não só propor medidas concretas para a redução da taxa de cesarianas em Portugal, como também apoiar a sua concretização, monitorizá-las e colaborar com a Administração Central do Sistema de Saúde na revisão do financiamento dos hospitais no que respeita a esta área (Em Diário da República – Despacho n.º 3482/2013).

Contudo, as recomendações da OMS têm sido questionadas por alguns médicos, como o Dr. Luís Mendes da Graça, presidente do Colégio da Especialidade de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos, que considera que «as condições sociais e jurídicas alteraram-se muito nos últimos 20 anos, o que justifica uma taxa entre os 20 e os 25%» (Diário de Notícias – 2005).

Em suma, o número de cesarianas em Portugal tem aumentado consideravelmente, sendo já considerado um dos países europeus com maior taxa de cesarianas (36,04% em 2010), valor muito além do limite recomendado pela OMS. Estes dados devem-se não só aos interesses económicos e à falta de profissionais de saúde, como também a mudanças sociais e tecnológicas. Apesar dos estudos médicos indicarem que, salvo condições excecionais, o parto vaginal é preferível à cesariana, este assunto tem sido bastante polémico por interferir com as escolhas da doente e com a Economia do país, sendo imperativo a existência de um debate transversal a todas as entidades envolvidas.

 

Para mais informações:

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