Já tenho um curso, mas quero ser médico!

Afinal o que pode fazer quem já possui uma licenciatura mas decide perseguir o seu sonho de entrar em Medicina e tornar-se médico? Que opções oferecem as diferentes escolas médicas do nosso país a esses jovens que optaram por um percurso alternativo entre o final do secundário e o ingresso no curso de Medicina? Com este artigo pretendemos fazer um resumo dos diferentes cenários que os licenciados candidatos a Medicina podem encontrar.

À semelhança do que se passa em quase toda a Europa, em Portugal o curso de Medicina está maioritária e tradicionalmente pensado para ser uma graduação de 6 anos cujo acesso varia desde critérios exclusivamente académicos (exames de acesso e notas de secundário) a uma ponderação entre critérios académicos e não-académicos (por exemplo, experiência de voluntariado, competências sociais, entrevista prévia, etc).

No resto do Mundo (da Índia à Austrália, passando pela África do Sul e Canadá), é predominantemente imitado o modelo anglosaxónico dos EUA, em que o curso de Medicina tem duração de 4 anos e é precedido de uma “pré-graduação” (chamada bachelor, normalmente também de 4 anos de duração) que não é necessariamente da área das ciências médicas. De facto, neste modelo é incentivada a frequência no bachelor de outras áreas do conhecimento cientifico (além da biologia ou da química) de modo a trazer para a esfera de influência médica futura a perspectiva e o conhecimento de outras áreas. Estes defendem que a diversidade e transversalidade do conhecimento gera mais progresso e inovação científica.

No resto do Mundo é predominantemente imitado o modelo anglosaxónico dos EUA, em que o curso de Medicina habitual tem duração de 4 anos

No entanto, em Portugal, os modelos vocacionados para jovens com outra formação que não a secundária apenas, são recentes e controversos. Desde 2011 que a lei obriga as escolas médicas a que pelo menos 15% das vagas totais de Medicina sejam para candidatos graduados, sendo os critérios de acesso da responsabilidade de cada uma das escolas. Em 2013 havia 9 escolas médicas nacionais, todas com soluções diferentes para estas vagas:

  • Com a excepção da escola médica do Minho, do Algarve e de Aveiro (entretanto suspensa), todas as demais analisam o curriculum do candidato admitido atribuindo-lhe as equivalências devidas à posteriori. Ou seja, um estudante de medicina aceite numa destas escolas, de acordo com a(s) sua(s) graduações e experiências anteriores é normalmente colocado nos primeiros anos do curso, prosseguindo depois o percurso pedagógico normal juntamente com os estudantes de medicina (habitualmente mais novos) oriundos do concurso ordinário.
  • Na escola médica do Minho, o licenciado e novo estudante de Medicina tem um percurso pensado e diferente do das equivalências no ponto anterior.  Ingressa num plano de 4 anos, em que não é possível ter equivalência a nenhuma unidade curricular, sendo que apenas o primeiro desses 4 anos é frequentado exclusivamente por estudantes ingressados pelo concurso de licenciados e é maioritariamente constituído por competências de ciências médicas básicas. Os 3 últimos são idênticos aos 3 anos de ensino clínico do tradicional curso de 6 anos.
  • Na escola médica do Algarve existe apenas o curso de 4 anos para alunos já graduados. O seu sistema foi adaptado do leccionado em Harvard e Yale, em que a progressão do estudante é feita em espiral e assente numa aprendizagem baseada em problemas. Não há equivalências (independentemente da área de formação prévia do estudante) nem complementaridade com o curso de Medicina tradicional: os 4 anos têm competências quer de ciências médicas básicas quer de clínica e o último ano não é profissionalizante e semelhante ao de todas as outras escolas médicas nacionais, isto é, na prática,  não há possibilidade de transferência de um aluno de medicina de ou para esta escola médica sem prejuízo.
  • A escola médica de Aveiro foi suspensa em 2013 e o seu sistema de ensino era também exclusivo para alunos graduados, tendo apenas disponível o plano de estudos de 4 anos, semelhante ao que vigora na escola médica do Minho: com a colaboração do ICBAS no primeiro ano estavam previstas as aquisições das ciências médicas básicas, sendo os 3 últimos idênticos aos das restantes escolas médicas. Esta complementaridade (diferente do sistema da escola médica do Algarve) facilitou a transferência dos 38 alunos que frequentavam o curso aquando do seu encerramento.

Em seguida apresentamos um resumo de alguns detalhes constantes nos regulamentos dos concursos especiais para licenciados que as diferentes escolas médicas lançaram no último ano. Todas estas informações são apenas indicativas e não dispensam a consulta exaustiva de toda as informações nos sítios oficiais.

 

Escola de Ciências da Saúde – Universidade do Minho

Vagas: 18ubi

Pré-requisitos:

  • Graduação com classificação média final não inferior a 14 valores (em 20)

Selecção:

  • 65% prova de conhecimentos
  • 10% apreciação curricular
  • 25% prova de competências transversais

 

Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Vagas: 37fmup

Pré-requisitos:

  • Graduação
  • Formação na científica nas área da Biologia, Química e Matemática (na graduação superior ou na graduação secundária)
  • Classificação mínima de 14 valores (em 20) nas provas nacionais específicas do secundário

Selecção:

  • 1ª fase: classificações dos pré-requisitos, idade, nível da graduação prévia
  • 2ª fase: entrevista pessoal
  • Classificação final dada média aritmética de ambas as fases

 

Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar – Universidade do Porto

Vagas: 23icbas

Pré-requisitos:

  • Graduação
  • Formação na científica nas área da Biologia, Química e Matemática (na graduação superior ou na graduação secundária)

Selecção:

  • 1ª fase: 30% classificação média final graduação prévia, 70% média das 3 provas especificas de acesso do secundário
  • 2ª fase: resultado da 1ª fase + experiência profissional

 

Faculdade de Ciências da Saúde – Universidade da Beira Interior

Vagas: 21ubi

Pré-requisitos:

  • Graduação «em área adequada»

Selecção:

  • 5% idade
  • 25% classificação média final graduação prévia
  • 5% nível do grau prévio
  • 5% experiência profissional
  • 20% formação específica nas áreas de biologia, química, física e matemática (secundário ou superior)
  • 40% provas de aptidões (conhecimentos, inglês, cognição)

 

Secção Autónoma de Ciências de Saúde – Universidade de Aveiro

Vagas: 40 (suspenso desde 2013)sacs ua

Pré-requisitos:

  • Graduação

Selecção:

  • 1ª fase: provas cognitivas
  • 2ª fase: prova de conhecimentos
  • 3ª fase: conjunto de entrevistas

 

Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra

Vagas: 38fmuc

Pré-requisitos:

  • Graduação numa de 11 licenciaturas específicas (ver lista)

Selecção:

  • 1ª fase: média de ensino secundário; média final de graduação prévia; idade
  • 2ª fase: entrevista

 

Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa

Vagas: 45 (das quais 5 exclusivas para licenciatura em Ciências da Saúde prévia)fmul

Pré-requisitos:

  • Graduação

Selecção:

  • 1ª fase: média final de graduação prévia; idade
  • 2ª fase: entrevista

 

Faculdade de Ciências Médicas – Universidade Nova de Lisboa

Vagas: 35FCM-UNL

Pré-requisitos:

  • Graduação
  • Formação na científica nas área da Biologia, Química e Matemática (na graduação superior ou na graduação secundária)

Selecção:

  • 1ª fase: conclusão do último grau nos últimos 4 anos; média final de graduação prévia não inferior a 14 valores; critérios curriculares e profissionais
  • 2ª fase: entrevista

 

Departamento de Ciências Biomédicas e Medicina – Universidade do Algarve

Vagas: 48ualg

Pré-requisitos:

  • Graduação nas áreas de ciências da natureza, da saúde ou exactas
  • Média final de graduação prévia não inferior a 14 valores
  • Aproveitamento na disciplina de Química no 12º ano
  • Experiência profissional ou de voluntariado

Selecção:

  • 1ª fase: prova de aptidões cognitivas; prova de língua inglesa
  • 2ª fase: conjunto de entrevistas

 

Proximamente continuaremos a explorar a via alternativa de ensino pré-graduado para licenciados, o número de vagas e a qualidade pedagógica dos currículos. Devemos pedir o fim do regime especial de acesso para licenciados? Ou fomentar o ingresso de novas competências no ensino médico? Devem os dois percursos ser segregados dentro das escolas médicas ou estudantes com background diferente são um valor acrescentado na aprendizagem dos alunos “tradicionais”?

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