PNA: o Presente e o Futuro | IV Jornadas Médicas da NOVA

O Prof. Doutor Palma dos Reis, membro da comissão nacional responsável pela criação da nova Prova Nacional de Acesso (PNA) à formação especializada, esteve hoje, dia 13 de Maio, na 4ª edição das Jornadas Médicas da NOVA, onde esclareceu algumas dúvidas sobre a nova PNA na sua palestra “Prova Nacional de Acesso à Formação Especializada: Presente e Futuro”.

O PRESENTE

Começando pelo presente, o Professor aproveitou para ilustrar alguns dos pontos fortes e fracos da atual prova, o chamado “Harrison”. No que toca aos pontos fortes, o Professor destacou o facto de ser conhecida pelos alunos há longa data, ter reclamações fáceis de gerir e ser gratuita (tanto para o ministério como para os candidatos). No entanto, apontou também como principais defeitos o facto de não valorizar a capacidade clínica do aluno – antes  a sua capacidade de memorização de um livro de texto pesado – e ainda de os tratados apresentarem com o mesmo ênfase temas tão prevalentes como a HTA e tão remotos e raros como a Doença de Kawasaki, o que leva à aquisição de muitos conhecimentos pouco úteis sem que constem desta prova alguns aspetos fundamentais (o aluno acaba por ter de decorar a terapêutica dos linfomas sem, no entanto, ter de estudar a terapêutica da diabetes).

A capacidade clínica no teste atual não serve para nada.

A atual prova apresenta ainda um defeito fortemente deletério à formação de bons médicos, que é afastar os candidatos da prática clínica:

Para ter os melhores resultados neste teste é vantajoso escolher o estágio num serviço em que se faça pouco ou mesmo nada. O que vale a pena para ter sucesso não é ver doentes, é fechar-se em casa a ler o Harrison.

O FUTURO

No dia 4 de maio foi publicado em Diário da República o Despacho Nº 4412/2018, no qual consta a bibliografia e a matriz da nova PNA, tornando-se desta forma quase certo que a nova prova terá lugar em 2019, sendo o atual quinto ano o primeiro a realizar esta prova.

AVALIAÇÃO VS ACESSO

Um ponto positivo frisado é o facto de neste Despacho a prova ter como nome “Prova Nacional de Acesso” e não “Prova Nacional de Avaliação e Seriação”, como tem vindo a ser referida ao longo dos últimos anos. Desta forma, será de esperar que não seja delimitada, pelo menos um futuro próximo, uma cotação mínima que “chumbe” os candidatos.

O PAGAMENTO

No que toca ao pagamento de 90€ no momento de candidatura, o Dr. Palma dos Reis aponta uma dúvida de legitimidade do pedido deste pagamento. Conceptualmente, aponta o pedido como um pagamento associado à candidatura a um concurso no qual não existem sequer garantias de o candidato ser colocado. Afirma ainda que estiveram em discussão valores muito mais elevados e que, por esta razão, acredita que a tendência seja que o custo aumente na revisão que será feita daqui a dois anos.

A possível justificação que foi oferecida da parte do Estado foi que este pedido de pagamento se prende com os custos de deslocamento, para do júri encarregue de elaborar a prova à cidade de Filadélfia (EUA), para fins de formação com o NBME (National Board of Medical Examiners).

O PAPEL DO NATIONAL BOARD OF MEDICAL EXAMINERS

Ao contrário daquilo que foi proposto pela comissão nacional da qual é membro, o Professor refere que, pelo que foi explicitado até à data, parece que o NBME terá um papel apenas de consultoria na nova PNA. Não só por razões económicas, como também devido à sua base de dados de perguntas testadas (que não se compatibiliza com o modelo português da consulta e pedido de revisão de prova por parte dos alunos), o papel do NBME não será aquele inicialmente proposto pela comissão, que apoiou que o processo deveria ser acompanhado por esta entidade (ou equivalente) nos primeiros anos da sua aplicação, tendo-se mesmo chegado a falar num exame elaborado na totalidade pela entidade norte-americana.

A MATRIZ E AS PERGUNTAS

No que toca à matriz, houve alguns pontos nos quais o Despacho se desviou do recomendado pela comissão. Especificamente, o despacho afirma que as perguntas serão baseadas “preferencialmente” em vinhetas clínicas, sendo que a palavra preferencialmente acrescenta alguma incerteza, bem como o facto de as proporções de cada especialidade serem consideradas “indicativas e não vinculativas”, considerando o Professor que não será produtivo definir proporções se estas não forem respeitadas (faz ainda a ressalva que esta incerteza poderia dever-se ao facto de 15% de 150 perguntas equivaler a 22,5 perguntas, o que poderá fazer variar o número entre 22 e 23).

Quanto à dúvida que muitos alunos tiveram após a publicação do Despacho, houve nesta palestra algum esclarecimento quanto ao significado que teriam os níveis de importância de cada um dos temas: o  que foi proposto pela comissão foi que os conteúdos A entrassem sempre em exame (os cruciais a serem estudados); os temas B entrariam ainda, mas menos que os A; e os temas C entrariam no exame apenas ocasionalmente.

Fazendo as contas, isso significa que Medicina Interna (com um peso de 50% no exame), terá um total de 75 perguntas, das quais 51 serão A’s, o que significa que sobram 24 perguntas para B’s e C’s.

O Dr. Palma dos Reis enfatiza ainda que o modelo das perguntas dependerá fortemente de quem for escolhido para a elaboração da prova, uma vez que se forem colocadas as mesmas entidades a realizar as perguntas da nova prova haverá sempre uma probabilidade significativa de as perguntas não serem tão diferentes das realizadas  atualmente e no passado.

A BIBLIOGRAFIA

As principais críticas à bibliografia proposta para o exame prendem-se com o facto de se tratarem de 8 livros, o que acrescenta um encargo financeiro significativo aos candidatos. No futuro, é esperado que estes livros sejam adotados pelas faculdades no ensino ao longo dos vários exames de curso, o que é importante para os alunos que venham a começar o seu percurso no curso de Medicina.

Por outro lado, neste exame a bibliografia torna-se menos relevante para a preparação. Ao contrário do Harrison, a resposta a determinada pergunta não vai ser encontrada diretamente numa determinada página do livro. O que será realmente importante neste modelo, caso bem aplicado, é o raciocínio médico e não a capacidade de memorização da bibliografia.

Têm é de saber pensar como médicos e não propriamente ter decorado páginas do livro.

Outro constrangimento que tem sido referido quanto à nova metodologia/bibliografia é o método de refutação e revisão de perguntas, dado que as respostas não se encontrarão necessariamente nos livros de referência. A solução, de acordo com o Professor, passará idealmente por contactar alguns especialistas de cada área , definindo-se como correto o que este grupo deliberasse.

O FUTURO DO ENSINO

As principais mais-valias do novo modelo de prova, para o Dr. Palma dos Reis, são o facto de se tornar numa prova mais abrangente, mais focada no conhecimento geral e não em conhecimentos altamente específicos e particulares, refletindo  o ensino médico e não dependendo apenas da capacidade de memorização. No entanto, existe a possibilidade de que, sendo uma prova que dependerá mais do ensino médico do que propriamente das capacidades e tempo investido pelos candidatos, existam alunos prejudicados por estarem inseridos numa escola médica menos focada no ensino dos seus alunos. Na opinião do Professor, sendo a avaliação um forte motivador de adaptação dos métodos de ensino, a alteração do modelo de prova deverá levar a que cada escola médica reavalie o seu plano curricular e os seus moldes de ensino por forma a melhorar os resultados.

O novo teste comporta a oportunidade de melhoria do ensino médico em Portugal

A médio-longo prazo, a sua opinião é que a nova prova será benéfica na medida em que levará ao desenvolvimento de melhores médicos, dada a restruturação e adaptação necessária dos métodos de ensino e o afinamento progressivo do modelo da prova.

 

 

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