Keynote Lecture | Entrevista com Sir Ian Wilmut

O Professor Ian Wilmut é um biólogo do desenvolvimento, atualmente professor emérito no Centro de Medicina Regenerativa escocês, situado na Universidade de Edimburgo. O seu trabalho é reconhecido mundialmente por ter sido o primeiro biólogo a usar um núcleo dador de uma célula adulta diferenciada para gerar um clone de um mamífero – a ovelha Dolly.

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Quando a Dolly nasceu, qual foi a sua maior expectativa acerca do impacto deste evento na comunidade científica?

Originalmente, iniciámos o nosso projeto com o objetivo de fazer alterações genéticas precisas/específicas em gado/animais domésticos, principalmente por razões biotecnológicas, para que, por exemplo, os seus órgãos pudessem ser utilizados em transplante em humanos ou para alterar os animais por forma a eles terem doenças do Homem. Ambos estes objetivos aconteceram desde que a Dolly nasceu. De longe, o maior impacto da Dolly foi fazer com que os biólogos pensassem de forma diferente.

Isso coincidiu com as suas expectativas?

Foi para além das minhas expectativas. Pessoalmente, penso que não tinha noção do que iria tornar-se possível, pelo menos não o suficiente para prever o impacto que teria. O que a experiência da Dolly nos mostrou, foi que cada célula tem toda a informação genética, o que foi a questão à qual queríamos inicialmente responder. Mas o que também nos mostrou foi que existem fatores desconhecidos no ovo que eram capazes de alterar o funcionamento da informação genética. Por volta dos 2/3 da gravidez, o funcionamento da informação genética mudou para como era no inicio do desenvolvimento, o que permitiu controlar o desenvolvimento normal da Dolly. Eu não tinha antecipado isto. E isso é extremamente importante: criou, para nós, uma nova fonte de células estaminais.

Qual é a sua opinião acerca da clonagem de embriões humanos em comparação com clonagem de órgãos apenas?

Ainda não encontrei uma razão para clonar uma pessoa que eu pense que seja necessária ou aceitável. Aquilo que me preocupa é que as pessoas fossem tratar os clones de forma diferente. Na vida quotidiana, se um jogador famoso de futebol tiver um filho, as pessoas inevitavelmente vão pensar que o filho também terá talento para jogar. Eu próprio sou muitas vezes questionado se os meus filhos são cientistas pela mesma razão. O mesmo aconteceria com um clone. Eles iriam perder a identidade pessoal e a independência. Não acho que seja justo fazer isso a uma criança.

O que espera que a sua investigação em reprogramação celular traga à medicina?

Existem duas formas através das quais esta capacidade de manipular células já está a começar a ser usada. Existem algumas doenças que refletem ou a morte ou a disfunção franca de células do corpo. Ainda estamos a aprender sobre quais são as alterações, e como tratar estas doenças, mas não temos ainda muito sucesso. Se tivermos alguém que tenha alguma destas doenças, como por exemplo uma doença do neurónio motor, doença de Parkinson ou diabetes, ou muitas outras doenças deste tipo, podemos pegar em sangue ou pele dessa pessoa, utilizar uma tecnologia que foi desenvolvida depois da Dolly, e reprogramar estes tecidos para os fazer voltar novamente ao início do seu desenvolvimento, tornando-se equivalentes às células estaminais embrionárias.

Podemos assim tratar essas células de forma a obtermos células do tecido que está anormal na doença. Se essa pessoa tiver uma doença hereditária, a doença vai-se desenvolver naquelas mesmas células, e pela primeira vez será possível estudar a causa, o mecanismo da doença, ao comparar células doentes com células normais e saudáveis, e isto traria oportunidades completamente novas para procurar fármacos que possam tratar ou até prevenir essas doenças. Isto seria só por si uma vantagem enorme, e provavelmente virá primeiro. A outra potencial utilização é de substituir as células que são anormais: Cell Therapy. É nisto que as pessoas normalmente pensam em primeiro lugar, mas na verdade isto representa um desafio técnico tão grande que irá demorar muito tempo para chegarmos a esse ponto. Portanto, penso que procurar células doentes visando procurar novos fármacos para essas doenças degenerativas será o mais importante, e no final podemos aprender como substituir as células lesadas.


Interviewer: Rita Amador e Paulo Lucas

Transcription: Joana Romão e Luisa Sequeira

Revision: Rita Amador

Fotografia:Claudio Noy Fotografia

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