O Quarteto Fantástico na Medicina Regenerativa

Enquanto Portugal se depara com um decréscimo do número de transplantes realizados nos últimos anos, a ciência mundial tenta responder aos problemas modernos da transplantação com soluções cada vez mais inovadoras. De que forma é que se podem resolver problemas como escassez de dadores, os longos tempos de espera ou a incompatibilidade genética?

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Em Portugal, de 2012 para este ano, o número de órgãos colhidos nos primeiros 5 meses do ano caiu de 335 para 314. Neste mesmo período fizeram-se 271 transplantes, menos 23 do que o ano passado, sendo o valor mais baixo nos últimos 4 anos. A qualidade também desceu cerca de 6%, principalmente porque idade média dos dadores subiu. Os incentivos são escassos, a legislação dificulta, a espera é longa e o tempo mata. De que forma é que a ciência pretende responder a estes problemas?

  1 | Células Estaminais

Traqueia artificial constituída por uma estrutura sintética e células estaminais.
Traqueia artificial constituída por uma estrutura sintética e células estaminais.

Graças ao progresso contínuo da medicina generativa, tem vindo a tornar-se possível crescer órgãos a partir das próprias células estaminais do doente. Assim, é possível contornar problemas como a incompatibilidade genética e a rejeição do órgão. Foi em 2008 que ocorreu o primeiro transplante nestas condições e a operação foi feita a cargo do Dr. Paolo Macchiarini, director do Advanced Center for Translational Regenerative Medicine at the Karolinska Institute em Estocolmo. O transplante envolveu a traqueia de um dador, à qual foram removidas as células deste (deixando apenas o tecido conjuntivo) e adicionado um revestimento de células estaminais da doente. Desde então a técnica tem vindo a ser melhorada, sendo que actualmente envolve a utilização de uma matriz sintética como base para a replicação das células estaminais. Após uma semana a matriz está revestida com as células estaminais e o orgão é transplantado para doente. As bases celulares e moleculares após a implementação do novo órgão ainda não estão esclarecidas, mas pensa-se que as células estaminais direccionam as células do corpo para a matriz, e são estas que se expandem e revestem o órgão com tecido por dentro e por fora.

  2 | Acabar com a rejeição

A incompatibilidade entre o dador e o doente é uma das grandes limitações universais da transplantação. Nos últimos anos têm sido pensadas novas maneiras de contornar o sistema imune do doente sem recorrer à imunossupressão e um novo método tem vindo a revelar-se bastante promissor. Este consiste na eliminação pré-cirúrgica das células T do doente através de fármacos, de forma a evitar que estas promovam uma resposta imune contra o órgão do dador. A seguir, para além de ser substituído o órgão doente, é também transplantada medula óssea. No entanto esta nova medula óssea contém células tanto do dador, como do hospedeiro, o que permite ao sistema imune reconhecer o novo órgão como sendo do próprio organismo. Actualmente este ainda é um método experimental realizado num pequeno número de doentes, no entanto, poderá vir a tornar-se uma importante inovação.

  3 | Manter orgãos viáveis fora do organismo

Toronto XVIVO Lung Perfusion System
Toronto XVIVO Lung Perfusion System

O tempo durante o qual um órgão permanece viável fora do corpo tem um papel importante na transplantação. Por esta razão a ciência tem procurado uma maneira de manter os tecidos vivos fora do organismo e a tecnologia tem evoluído nesse sentido. Em 2008, em Toronto, foi criada pela primeira vez uma máquina que permite manter um pulmão viável ex vivo. Estima-se que apenas cerca de 15% dos pulmões doados são utilizados, uma vez que é um órgão bastante susceptível a lesão. Contudo, através desta tecnologia é possível aumentar essa percentagem para 40%. Esta máquina permite a sobrevivência do pulmão fora do corpo até 16 horas, contudo o objectivo é aumentar o tempo até 3 dias ou mais e criar máquinas semelhantes para órgãos diferentes.

  4 | Impressão 3D

Orelha impressa em 3D
Orelha impressa em 3D

Nos últimos anos tem-se vindo a ver um aumento crescente da popularidade e utilidade da impressão 3D. Máquinas, instrumentos musicais, peças de arte e até armas de fogo são alguns exemplos do alcance desta recente tecnologia. Mas será possível imprimir um órgão? Parece ficção, mas a ciência tem investigado, e tudo indica que sim. A técnica utilizaria imagens de tomografia computorizada do próprio doente para criar um modelo virtual personalizado do órgão, que poderia ser usado posteriormente como molde para imprimir uma estrutura tridimensional. Esta estrutura é composta por um biomaterial que une as células. Em Fevereiro deste ano, investigadores da Cornell University conseguiram imprimir uma orelha em 3D. Em 3 meses a orelha cresceu cartilagem de forma a substituir a base de colagénio usada para a moldar. A cartilagem é o tecido ideal para se utilizar esta tecnologia uma vez que não é vascularizado, contudo pensa-se que no futuro será possível imprimir rins, bexigas e outros órgãos.

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