Abelha: a melhor amiga do Homem

Segundo investigadores da Universidade de Lund, na Suécia, a solução para as infeções causadas por bactérias multirresistentes pode estar no mel. O doce néctar, conhecido há milhares de anos, principalmente pelos mais gulosos, tem importantes propriedades antimicrobianas que só recentemente começaram a ser explicadas pela Ciência. Logicamente, a FRONTAL não podia deixar-te de fora desta deliciosa investigação.

Imagem cedida por António Hermenegildo
Imagem cedida por António Hermenegildo, aluno da Faculdade de Ciências Médicas

Há já muitos séculos que as propriedades antimicrobianas do mel são bem conhecidas na Medicina tradicional, sendo utilizado no tratamento de infeções do trato respiratório superior e de feridas. Nos últimos anos têm surgido vários estudos com o objetivo de caracterizar e identificar as substâncias responsáveis por estas propriedades. Sabe-se, por exemplo, que o modo de ação do mel está ligado a um baixo pH, elevada osmolaridade, presença de peróxido de hidrogénio, péptidos antibacterianos como a defensina-1 da abelha e compostos bioativos vários, que até agora tinham uma origem desconhecida.
O uso excessivo de antibióticos e a emergência de patogénios multirresistentes criaram a necessidade de encontrar alternativas no combate às infeções. A investigação científica baseada em produtos utilizados na Medicina tradicional, e mais concretamente no mel, reveste-se assim de uma grande atualidade e de uma importância ímpar para a área da saúde.

As “bactérias boas”

O processo de polinização expõe as abelhas aos microrganismos presentes nas flores. Imagem cedida por António Hermenegildo
O processo de polinização expõe as abelhas aos microrganismos presentes nas flores.
Imagem cedida por António Hermenegildo

O segredo das propriedades antimicrobianas do mel, documentadas pelas mais diversas civilizações ao longo do tempo, pode estar na flora simbionte presente no estômago das abelhas. Essa microbiota é constituída por cerca de 40 estirpes de bactérias produtoras de ácido lático (LAB) durante o processo de fermentação. Os investigadores descobriram que 13 dessas 40 estirpes, identificadas taxonomicamente como Lactobacillus e Bifidobacterium, produziam compostos bioativos como ácidos orgânicos, ácidos gordos livres, enzimas, etanol, peróxido de hidrogénio, péptidos antimicrobianos e antibióticos. O conjunto destas substâncias resulta numa ação inibitória de largo espectro contra microrganismos, que tem protegido as abelhas contra bactérias e leveduras presentes nas flores.

O segredo das propriedades antimicrobianas do mel (…) pode estar na flora simbionte presente no estômago das abelhas.

Para o estudo foi utilizado mel fresco proveniente diretamente da colmeia, sem ser submetido a qualquer processamento, uma vez que se sabe que o mel manufaturado é completamente desprovido da flora simbionte das abelhas. Os patogénios escolhidos para se avaliar a ação das LAB foram agentes associados à infeção de feridas crónicas como o Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), Pseudomonas aeruginosa e Enterococcus resistente à vancomicina (VRE), entre outros. A aplicação das LAB sobre as bactérias resistentes, in vitro, permitiu não só verificar uma potente ação antimicrobiana das LAB como também identificar metabolitos e proteínas possivelmente ligados a este processo.

O mel fresco é rico em LAB e tem um enorme potencial terapêutico. Imagem cedida por António Hermenegildo
O mel fresco é rico em LAB e tem um enorme potencial terapêutico.
Imagem cedida por António Hermenegildo

Segundo Tobias Olofsson, um dos investigadores envolvidos no estudo, o potencial terapêutico do mel está na capacidade de adaptação face à ameaça e à ação combinada das LAB: “Os antibióticos são, na sua grande maioria, uma substância ativa, eficaz contra apenas um estreito espetro de bactérias. Quando utilizadas vivas, estas 13 LAB produzem os tipos de compostos antimicrobianos mais apropriados para a ameaça concreta com que se deparam. Parece que esta estratégia tem funcionado bem durante milhões de anos na proteção da saúde e do mel das abelhas contra microrganismos agressivos. Contudo, como o mel manufaturado não contém as LAB vivas, muitas das suas propriedades únicas foram perdidas na atualidade”.

O mel e as feridas crónicas

Apesar de os resultados terem sido obtidos em ambiente laboratorial e não terem sido efetuados estudos em humanos, a perspetiva de ter uma arma terapêutica eficaz no tratamento das feridas crónicas é muito animadora. A infeção de feridas crónicas é atualmente uma causa importante de aumento da morbimortalidade dos doentes e de prolongamento dos internamentos. O problema é tão grave que, atualmente, considera-se que todas as feridas crónicas estão, por definição, contaminadas. Segundo alguns estudos, 70% dos doentes com feridas crónicas têm colonizações muito significativas ou infeções marcadas das suas feridas.

Ineficácia da terapêutica antibiótica no tratamento das feridas crónicas
Ineficácia da terapêutica antibiótica no tratamento das feridas crónicas

Este modelo explicativo para algumas das propriedades antimicrobianas e terapêuticas do mel vem abrir portas ao desenvolvimento de armas terapêuticas alternativas no combate às infeções. A falta de explicação científica sobre a origem dos compostos com propriedades terapêuticas do mel e a inexistência de ferramentas cientificamente comprovadas, seguras e estandardizadas tem impedido uma maior utilização deste produto na clínica.
A utilização clínica do mel fresco é uma estratégia muito promissora no controlo das infeções a uma escala global, uma vez que está facilmente acessível nos países em desenvolvimento e que pode ser a resposta para travar o aumento da resistência aos antibióticos nos países desenvolvidos.

O futuro do tratamento das feridas crónicas pode estar numa colmeia perto de si. Imagem cedida por António Hermenegildo
O futuro do tratamento das feridas crónicas poderá estar numa colmeia perto de si.
Imagem cedida por António Hermenegildo

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