Prof. Dr. Albino Oliveira-Maia | Um Mundo Novo para o Cérebro na Saúde Mental

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Na semana em que se assinala internacionalmente o Cérebro, pedem-me os futuros médicos que estudam na NMS que escreva algumas palavras sobre o assunto. Enquanto responsável pela docência de conteúdos na área das Neurociências assim como da Psiquiatria, é com muito gosto que o faço. A existência de médicos que se dedicam às doenças da mente, sendo simultaneamente peritos no estudo do cérebro, é algo que, não sendo original, nomeadamente nesta Faculdade, só poderá ser cada vez mais frequente, com evidentes benefícios para ambas as ciências. Na verdade, o extraordinário progresso nos métodos disponíveis para o estudo do cérebro tem permitido que, com uma rapidez inesperada, se possam iluminar alguns dos aspetos mais obscuros do funcionamento da mente.

Há hoje tecnologia que, em modelos animais, permite isolar e identificar populações de neurónios de acordo com as sua participação em determinada função superior, por exemplo a sua ativação na exposição a determinado contexto, ou de acordo com a produção de determinado neurotransmissor ou recetor de membrana, por exemplo neurónios que produzem dopamina. Identificados os neurónios de interesse, é já possível observar os seus padrões de atividade, ou manipular seletivamente essa atividade, aumentando-a ou reduzindo-a, com extraordinária resolução tanto no espaço como no tempo. Tudo isto é possível com o animal acordado e a executar um comportamento mensurável. Assim, foi já possível demonstrar que a memória de um local, ou de um contexto, depende da atividade de subpopulações específicas de neurónios no hipocampo, e que essa memória pode ser suprimida ou recrutada pela manipulação artificial da atividade desses neurónios. Sabemos hoje também, como resultado do trabalho de doutoramento de um estudante doutoral e docente da NMS, que a atividade de neurónios dopaminérgicos é fundamental para iniciar programas de ação mas que, uma vez que esta seja iniciada, o papel desses neurónios é secundário. Os exemplos são inúmeros, e tomariam muitas mais palavras do que as que me foram concedidas, mas espelham de algum modo o progresso no conhecimento detalhado da fisiologia de funções mentais tão abstractas como a memória, a aprendizagem, a tomada de decisão, o prazer, a motivação, a agressividade e o desejo sexual, entre tantas outras.

Também em pessoas, e nomeadamente em pessoas doentes, apesar de não ser de todo possível o mesmo grau de minúcia na monitorização e controle da atividade neuronal, os avanços técnicos não foram menos espetaculares, e começam a desvendar novos caminhos para condições em que não temos ainda respostas satisfatórias. No âmbito da depressão, por exemplo, foram já desenvolvidas alternativas terapêuticas que permitem modular focalmente a excitabilidade de neurónios do córtex, de uma forma segura e totalmente não-invasiva. Esta abordagem terapêutica, aprovada há uma década nos Estados Unidos da América, foi recentemente cruzada com tecnologias de imagem que permitem conhecer o grau de conectividade funcional entre diferentes zonas do cérebro. Assim, foi possível demonstrar, numa grande população de pessoas com síndromes depressivas sem resposta à medicação, que havia distinções nos padrões de conectividade cerebral, que permitiam dividir os doentes em grupos. Por outro lado, os mesmos autores demonstraram que a estimulação focal de uma determinada zona do córtex era muito mais eficaz no grupo de doentes com alterações de conectividade que envolvia essa zona do que nos restantes. Mais uma vez, haveria vários outros exemplos deste tipo. No entanto, penso que este, tal como outros, deixa entreaberta a porta que permite antecipar um mundo novo que se aproxima para a Psiquiatria e Saúde Mental, em que o cérebro terá uma posição central.

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Albino J. Oliveira-Maia (MD, PhD)

Professor Auxiliar Convidado de Psiquiatria e Saúde Mental na NOVA Medical School | Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa

Médico Psiquiatra no Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental

Investigador Clínico e Psiquiatra na Unidade de Neuropsiquiatria do Centro Clínico Champalimaud

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