Homeopatia – Ciência ou Fraude?

Certamente que todos nós, em alguma ocasião, já teremos ouvido falar da Homeopatia e, como tal, sabemos que se gera controvérsia em torno da mesma quando a discussão de ideias se instala. Não parece haver um consenso relativamente ao verdadeiro efeito da mesma na cura medicinal. Perante este cenário, torna-se natural questionarmo-nos: será a Homeopatia vista, na atualidade, como uma terapêutica válida ou antes como uma alternativa dúbia à cura de uma doença? A FRONTAL foi investigar este assunto.

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As bases da Homeopatia

Desde a sua introdução na prática médica por Samuel Hahnemann, em 1796, a Homeopatia tem sido regida pelo princípio similia similibus curantur (“semelhante ao semelhante se cura”), apoiando-se num tratamento a partir da diluição da mesma substância que produz o sintoma num indivíduo saudável (é a chamada Lei dos Semelhantes). Na ótica dos homeopatas, a doença é tida como o resultado da perturbação da energia vital, podendo esta ser reposta pelo restabelecimento do equilíbrio – visão esta que remonta ainda aos tempos da alquimia.

Para além do princípio acima referido, a Homeopatia rege-se por vários outros ideais, tais como: a Teoria das Doses Mínimas, a Experimentação no Homem São e o ideal do Medicamento Único. Destes, em virtude do que será abordado adiante, é de destacar a Teoria das Doses Mínimas – segundo esta, uma determinada substância, submetida a diversas diluições em água, mantém a sua energia curativa, em ínfimas quantidades, retida nas moléculas de água, como se de uma memória se tratasse.

Segurança e reconhecimento

Segundo a Organização Mundial de Saúde, é necessário contrariar a ideia de que não existem riscos na administração de produtos homeopáticos, até porque, na sua maioria, estes são comercializados sem prescrição médica. No entanto, em 2005, no estudo “Homeopathy: review and analysis of reports on controlled clinical trialsforam realizados vários testes clínicos que verificaram, tal como em estudos realizados em 1991, que os medicamentos homeopáticos são mais eficientes que os com efeito placebo, tanto em humanos como em animais – o que se revelou uma surpresa para muitos profissionais de saúde.

Desde 1980 que, no Brasil, a Homeopatia é considerada uma especialidade médica. Também os sistemas de saúde pública de países como o Reino Unido, a Austrália, a França e a Alemanha integram já a componente homeopática da Medicina. No entanto, em Portugal, a Ordem dos Médicos não reconhece a Homeopatia como especialidade médica. Na Classificação das Profissões, em 1994, no nosso país, os homeopatas eram classificados como Especialistas de Medicina Tradicional ou Naturologistas. Atualmente, e desde 2010, fazem parte dos Especialistas das Atividades Intelectuais e Científicas enquanto Especialistas em Medicina Tradicional e Alternativa.

Uns a favor, outros contra – de que lado estará a razão?

Diversas críticas têm sido feitas aos métodos de cura homeopáticos, nomeadamente no que diz respeito à inexistência de estudos científicos que comprovem a eficácia dos seus métodos e aos altos níveis de diluição que, eventualmente, conduziriam à ineficácia dos procedimentos devido à inexistência de princípio ativo.

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Muitos homeopatas defendem, no entanto, que o segredo do sucesso das suas terapêuticas reside, além dos medicamentos per si, no longo tempo despendido por eles próprios nas consultas, estabelecendo-se uma maior empatia com os doentes, o que parece resultar num aumento da eficácia dos medicamentos administrados. Declaram ainda que a Homeopatia, ao contrário da Medicina Moderna, avalia o ser humano como um todo – mente e corpo – e não como um ser fragmentado.

Em 2005 publicou-se uma avaliação decorrida durante 6 anos no Bristol Homeopathic Hospital, na qual foram analisados consecutivamente, ao longo deste tempo, 6500 doentes, 70% dos quais revelaram melhorias significativas do seu estado de saúde. Os melhores resultados clínicos foram verificados em crianças com eczema e asma e em adultos com doença inflamatória intestinal ou cefaleias recorrentes.

Em Novembro de 2012, os investigadores Carlos Fiolhais e David Marçal apresentaram o livro “Pipocas com Telemóvel”, no qual apresentam diversos exemplos de ciência fraudulenta. A Homeopatia é, para estes autores, o melhor exemplo. Aliás, para demonstrar os seus pontos de vista, estes investigadores tomaram uma caixa inteira de um medicamento homeopático em frente de uma plateia. “Diz-se que há cerca de 3 milhões de portugueses a serem tratados pela Homeopatia. Estão a ser enganados, porque não é mais do que água com açúcar”, defende David Marçal. Confrontado com estas manifestações de desaprovação das práticas homeopáticas, o presidente da Sociedade Homeopática de Portugal questionou a capacidade científica de ambos os investigadores e o seu conhecimento acerca das bases da Homeopatia: “São detratores da Homeopatia, que é usada em muitos hospitais de referência em todo o mundo, como São Paulo, Viena ou Munique”.

Muitos homeopatas defendem (…) que o segredo do sucesso das suas terapêuticas reside, além dos medicamentos per si, no longo tempo despendido pelos próprios nas consultas (…)

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Ao longo do tempo, a Homeopatia tem adquirido vários apoiantes – Luc Montagnier, vencedor do Prémio Nobel da Medicina em 2008, é um deles. Desde 2009 que, através de múltiplos estudos, deu à Homeopatia algum do fundamento científico que muitos negavam: “Não posso dizer que a Homeopatia está certa em todos os aspetos. O que posso dizer de momento é que os princípios das diluições estão certos (…) São estruturas de água que mimetizam as moléculas originais.” As suas pesquisas demonstraram que sinais eletromagnéticos das partículas originalmente diluídas em água permanecem e têm efeitos biológicos mensuráveis.

Num estudo publicado já este ano (Revista de Homeopatia 2014; 74 (3/4): 49-54), que aborda o tratamento homeopático subsequente a terapêutica imunossupressora, Rajesh Shah, médico homeopata indiano, afirma que, para os homeopatas, o maior desafio na prática clínica é identificar o “remédio universal” para cada doença. Uma vez descoberto, todos os demais problemas se poderão resolver automaticamente.

A combinação das Medicinas Moderna e Tradicional será, muito provavelmente, o fator mais importante para a resolução futura deste grande enigma “Medicina Convencional versus Medicina Homeopática”. Só deste modo se poderão chegar a conclusões terapêuticas que contribuam para aquilo que é comum a ambas as práticas medicinais: a saúde do Homem.

Mais informações sobre os objetivos e futuras aquisições da Homeopatia em Portugal podem ser consultadas no sítio oficial da Associação Portuguesa de Homeopatia.

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Ana Rute Marques é aluna do 5º ano da FCM-NOVA. Nascida em Lisboa, cresce em Corroios. Ingressa no ensino superior em 2009, na Faculdade de Ciências Médicas, no mestrado integrado de Medicina. É colaboradora da Revista FRONTAL desde o início de 2013. Os seus interesses pessoais, além da Ciência (em especial das Neurociências), abrangem o Mundo Animal, a 7ª arte, as técnicas de Defesa Pessoal e os Clássicos da Literatura Portuguesa.

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