O erro de Nietzsche

Graças à sua ubiquidade a música influencia de forma pervasiva a construção das memórias e da identidade de muitos de nós. Mais (e não fosse ela senhora para activar o sistema límbico), a música consegue despertar emoções, da tristeza à saudade, do entusiasmo à amargura. Mas possuirá a música potencial para devolver a quem as perdeu as lembranças de uma vida? Haverá na música substância para se reencontrar o sentido de quem se é? Em que encruzilhadas sinápticas se interceptam os caminhos da memória com os de uma canção? Se és daqueles que não conseguem suster a nostalgia que os invade quando ouvem melodias que remetam para um cantinho do passado, acompanha-nos enquanto a FRONTAL se debruça sobre o baú das memórias e o tenta abrir cantando.music-dandelion-654x270

 

“Sem música a vida seria um erro” atestou Nietzsche, num tempo em que pouco se suspeitava acerca do efeito terapêutico que uma sequência de notas musicais estrategicamente alinhadas poderia exercer. O facto é que se para alguns a música passa ao lado (ou ao largo), para outros é absolutamente fundamental que a vida se acompanhe de uma banda sonora que espelhe de fora o que lhes vai por dentro, como uma lente que amplia as emoções (as boas e as más) e que de certa forma as tolda. Mesmo aos mais insensíveis a variações harmónicas de ondas mecânicas à sua volta não é fácil escapar ao poder que a música tem de nos projectar para o passado, de activar memórias e de através delas nos possibilitar reviver momentos que foram nossos, fazem parte da nossa história e cimentam a nossa identidade. Mais que trazer para a superfície a memória insípida de uma experiência passada, a música parece facultar matéria-prima para o enriquecimento da mesma, de tal modo que ao escutar uma canção em particular a mente se precipita a condimentar com imagens (mesmo que desfocadas), aromas (mesmo que distorcidos) e sabores (ainda que esbatidos) a memória que ela desperta. Ser incapaz de recordar marcos biográficos é mergulhar num vazio pessoal: quem não se lembra do que outrora foi “não foi”, perde o património íntimo que veio a acumular ao longo dos anos e, indubitavelmente, “deixa de ser” (aos seus olhos, entenda-se). Que o digam os doentes com Doença de Alzheimer, que desembarcam nos últimos dias de vida desprovidos de uma consciência límpida da bênção que foi terem vivido. Da premissa de que a música actua como um wormhole até às memórias passadas, surge a hipótese de esta poder ajudar estes doentes a esclarecer-se quanto a quem foram e quanto a quem são.

 

Do escutar ao recordar vai uma melodia

Não é novidade que o recuperar de certas lembranças é facilitado por gatilhos – fragmentos de informação ligados a uma memória em particular, que actuam como deixas ou “sinais” para o processo de recuperação da mesma. Estes sinais são mais eficientes se, além de terem um significado pessoal que remeta para a memória em questão, tiverem sido armazenados (ou “memorizados”) em simultâneo com ela. É aqui que entra a música, mas já lá vamos.

Um estudo levado cabo pelo Centro para a Mente e o Cérebro da Universidade da Califórnia, apoiado em técnicas de ressonância magnética funcional, demonstrou que o acesso a memórias autobiográficas envolve uma rede extensa de circuitos neuronais cujo cerne abrange as regiões dorsolateral e medial do córtex pré-frontal (CPF), o córtex visual e a porção medial do lobo temporal (com ênfase no hipocampo, responsável por transferir para a memória a longo prazo os dados arquivados pela memória a curto prazo). Demonstrou, também, que a activação do CPF é tanto mais intensa quanto mais relevante for a música ouvida para os participantes no estudo. Em pormenor, a região dorsolateral do CPF processa a recuperação controlada e voluntária de informações autobiográficas específicas, ao passo que a região medial se encarrega da busca por uma referência associada às mesmas, um significado pessoal com o qual o indivíduo se identifique e que desencadeie um sentimento de coerência e de sentido; no seu todo o CPF relaciona memórias, emoções, afectos e músicas, estando por detrás da sensação de “reviver” associada a memórias autobiográficas específicas e indivíduos com danos nos lobos frontais manifestam défices generalizados no recurso à chamada “memória episódica” (a componente da memória a longo prazo que regista eventos, locais e experiências segundo uma contextualização temporal). Em paralelo à activação espontânea do CPF pela música ocorre activação do córtex visual, o que explica as imagens mentais vívidas geradas por músicas com grande significado pessoal. A porção medial do lobo temporal está associada ao conhecimento geral que cada um tem de si mesmo e lesões aqui localizadas acarretam, também, a perda global de memórias autobiográficas. O hipocampo e algumas áreas corticais vizinhas participam na recuperação de detalhes que ornamentam as memórias, sendo igualmente activada a amígdala caso parte desses detalhes contenha elementos com um forte conteúdo emocional. O hipocampo em particular desempenha o papel de unidade central nesta intrincada função executiva, recebendo informações (ou memórias) simultâneas do córtex sensorial e integrando-as num “episódio” mnemónico singular. A combinação sináptica associada a esse episódio permanece gravada, o que permite que o acto de ouvir uma peça musical despolete Einstein-Quotes-1memórias de momentos passados ao som da mesma. É por esta razão que quando se recorda um evento se o recupera como um todo e não como múltiplas memórias desagregadas dos sons, das imagens ou dos cheiros a ele associados. Estudos semelhantes registaram que durante o evocar, pela música, de memórias episódicas ocorre maior afluxo sanguíneo para o precuneus e os giros frontais médio e superior, e que a estimulação da memória semântica (a que retém factos, conceitos e significados) se acompanha de um maior recrutamento de sangue para, entre outros, o CPF medial e o córtex temporal medial.

 

“Música para os meus ouvidos”

A ponte entre o que foi exposto e uma eventual aplicação terapêutica na Doença de Alzheimer passa pelo cenário em que tudo não acontece (ou não acontece tanto). A ignição para o processo degenerativo que está na base da doença dá-se no córtex entorrinal, localizado na região medial do lobo temporal, próximo do hipocampo e que com ele estabelece conexões directas, merecendo honras de protagonista no palco da função mnemónica já que actua como principal ponto de entrada dos dados provenientes da experiência visual e espacial para o hipocampo, que os transforma nas memórias duradouras que se perdem com o avançar da doença. Daí o processo de atrofia dirige-se para o hipocampo propriamente dito e alastra gradualmente pelas restantes áreas corticais até atingir os lobos temporais e frontais. Já os dados da experiência musical permanecem, em certa medida, preservados. De facto, o compromisso patológico da função mnésica parece poupar a memória musical estando inclusivamente documentado um caso em que o desempenho de um doente idoso com Doença de Alzheimer avançada (Mini Mental State Examination de 8/30) foi semelhante ao de idosos saudáveis no reconhecimento de melodias e letras de músicas, além de que certos excertos musicais suscitaram respostas fortemente emotivas (tanto positivas quanto negativas). Tal pode ser explicado à luz da taxa relativamente lenta de atrofia cortical observada no CPF ao longo da progressão da doença, o que sugere a conservação do substrato neuronal que associa música, emoção e memória.

Temos, portanto, que músicas presentes em períodos relevantes da vida, sobretudo nos pautados por uma forte carga emocional, passam a estar impreterivelmente enleadas ao manancial de recordações e a influir na visão que cada um tem de si mesmo. Temos, ainda, que para lá do contributo indelével para a construção das memórias autobiográficas, a música também estimula a memória verbal, a atenção e o humor, o que tem sido apontado como uma arma terapêutica contra patologias que afectem essencialmente o sistema cognitivo. Neste âmbito, a música revela-se um instrumento precioso ao dispor daqueles que padecem de Doença de Alzheimer na medida em que a exposição dos mesmos a melodias que lhes são familiares facilita a recuperação de material autobiográfico referente às várias fases da vida, remotas ou recentes, reduz a desorientação autopsíquica, melhora as faculdades linguísticas e a atenção – uma paleta de argumentos que inspiram a exploração da música como aliada no combate a esta maleita.

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