Quimioterapia: Aliada ou Inimiga?

Metotrexato, ciclofosfamida, carboplatina, cisplatina, anticorpos anti-tudo. O rol de fármacos usado em quimioterapia é vasto e daria para construir uma ode à luta contra o cancro, rima daquelas longas, ao jeito dos maiores génios líricos. No entanto, entre quadras e sonetos, a quimioterapia revela-se um imenso mar de contradições, ora por causa dos agressivos efeitos adversos, ora por afirmações tão contraditórias à sua natureza, como a de, afinal, até poder provocar o crescimento de tumores, ao invés de os curar.

por Cyril Berthault-Jacquier
Confrontation, por Cyril Berthault-Jacquier

Já se desconfiava que a esmagadora maioria dos doentes com cancro da mama, próstata e pulmão desenvolvia resistência à quimioterapia; só não se sabia ainda o mecanismo que justificava uma tão grande percentagem de indivíduos resistentes entre os que tinham estes tipos de patologia neoplásica. Recentemente, um grupo de investigadores descobriu a proteína que se julga estar na base deste estranho efeito: a WNT16B. Esta é segregada pelos fibroblastos existentes no microambiente tumoral, após serem atingidos pela quimioterapia. A descoberta foi anunciada numa publicação da Nature Medicine.

A grande questão, por agora, será compreender qual a relação entre a WNT16B e o desenvolvimento tumoral per si.. E a resposta parece estar na estimulação da já nossa conhecida via Wnt de transdução de sinal, ao mesmo tempo que o efeito citotóxico da quimioterapia nas células cancerígenas é atenuado. Todos estes mecanismos, como se calcula de antemão, criarão as condições ideais para o tumor retornar a um ponto maior de malignidade, potenciando ainda a resistência crescente do mesmo a cada ciclo, supostamente genotóxico, de quimioterapia.

Os cientistas justificam esta relação – comparável a um ciclo vicioso sem retorno aparente – pela proximidade intrínseca dos fibroblastos com as células cancerígenas, factor este que, muito dificilmente, impedirá tanto a comunicação parácrina entre o produto de umas e de outras, como as respostas que desencadearão entre si, tendo como ponto de partida a própria quimioterapia. Assim sendo, sugere-se que os ciclos de quimioterapia que os doentes fazem poderão potenciar este fenómeno, uma vez que conferem às células existentes em microambiente tumoral a oportunidade óptima de desenvolverem uma resposta deste tipo; a partir daqui, será fácil deduzir o papel da Selecção Natural no decorrer do processo: as mais fortes ficam, as mais perigosas resistem e as piores acabarão por matar, o que, invariavelmente, nos leva ao velhinho paradoxo: a quimioterapia destrói o mau, mas também o que está saudável.

Cancer-Chemotherapy

Um novo elemento de interrogação se levanta: até que ponto estaríamos dispostos a sacrificar o que de saudável resta num doente oncológico, arriscando, muito provavelmente, a sua vida, tendo por base somente a promessa de que talvez se ganhe a luta à resistência aplicando doses maiores e ciclos contínuos de quimioterapia? Estaria o doente – e o médico – disposto a participar numa aventura deste tipo, conhecendo à partida todos os efeitos nefastos que a quimioterapia terá em si, incluindo a possibilidade de uma morte dolorosa por uma causa (que se poderá revelar) perdida?

“Cancer therapies are increasingly evolving to be very specific, targeting key molecular engines that drive the cancer rather than more generic vulnerabilities, such as damaging DNA” – Dr. Peter Nelson (Fred Hutchinson Cancer Research Center)

Eventualmente, segundo o que revelam os investigadores, a solução para este problema passará por terapias cada vez mais dirigidas, ao nível do DNA tumoral. Convém também não esquecer a importância do ambiente que envolve o tumor. Isto é, além do DNA da célula afectada, o tratamento deve ser também dirigido ao próprio ambiente tumoral, o que significa que se deverá perceber muito bem o que esperar dos elementos integrantes desse mesmo ambiente, para se saber reagir às surpresas que o mesmo nos poderá reservar.

E assim se mostra que o cancro, afinal, é assustadoramente fascinante pela sua complexidade e pelo desafio-limite em que constantemente nos coloca, enquanto seres pensantes e evoluídos, e enquanto espécie que se vê fortemente afectada pela doença oncológica. Que há muito a fazer, e muito mais ainda por onde nos surpreendermos, é talvez a única verdade absoluta neste campo.

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Ana Luísa tem 22 anos e frequenta o 5º ano da FCM-NOVA, desde setembro de 2010. É natural de Caldas da Rainha, mas foi na vila da Benedita que completou o ensino secundário. Hoje, além de estudante de Medicina, é voluntária na Liga Portuguesa Contra o Cancro e Editora-geral da FRONTAL, onde já foi colaboradora e editora da secção de Cultura da revista (Para Inspirar) e do site. Fez parte da comissão organizadora do iMed Lisbon 2014 e interessa-se por viagens em geral - reais e irreais - além de tantas outras áreas diversas em particular, o que sempre levantou dilemas na hora de decidir o que fazer no futuro; o Ser Humano no seu todo é, contudo, o grande interesse que poderá sumarizar os restantes - o Cérebro, a Literatura, a Filosofia, a Natureza – e justificar a sua atual escolha.

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