Uma Embriaguez Patológica

Provavelmente já terá havido alguma ocasião particular em que te excedeste ligeiramente na quantidade de álcool ingerida, mas decerto nunca pensaste ser possível ficar embriagado sem consumir álcool! Isso é porque nunca ouviste falar da Síndrome de Fermentação Intestinal, o que é normal, visto ser um fenómeno pouco conhecido pela Medicina Ocidental. 

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1 | O etanol no organismo

O etanol, proveniente das bebidas alcoólicas e das frutas fermentadas, é uma boa fonte de energia, visto que fornece cerca de 7 Cal/g (29 kJ), podendo substituir o conteúdo energético dos hidratos de carbono, quando ingerido em grandes quantidades. Contudo, o seu consumo constitui um grave problema de saúde devido ao facto deste ser frequentemente abusivo, estando o alcoolismo crónico associado a défices nutricionais, causados maioritariamente pelo reduzido consumo de outros alimentos. O etanol é absorvido em todo o trato gastrointestinal, pelo que a sua concentração no sangue aumenta rapidamente após a ingestão. Difunde-se então através das membranas celulares e distribui-se equitativamente pelos fluidos intracelulares e extracelulares. O metabolismo ocorre no fígado, à custa da álcool desidrogenase (principal enzima desta via): o etanol é oxidado a acetaldeído e posteriormente convertido em acetato, a partir do qual se originam dióxido de carbono (CO2) e água (H2O). A flora intestinal é também responsável pela produção de etanol.

metabolismo etanol

 

2 | Uma síndrome rara

É do conhecimento geral que o grau de alcoolismo de uma pessoa é proporcional à quantidade de álcool ingerida pela mesma. Contudo, quando falamos da Síndrome de Fermentação Intestinal, este cenário perde toda a sua linearidade. Esta síndrome, também designada de Fermentação Endógena do Etanol, é ainda relativamente desconhecida pela comunidade médica, constando dum número muito reduzido de artigos publicados. A Síndrome de Fermentação Intestinal é descrita como uma síndrome na qual os doentes se intoxicam sem ingestão alcoólica. Pensa-se que seja causada por um sobrecrescimento de leveduras no intestino, sendo estas capazes de fermentar hidratos de carbono (nomeadamente glicose) em etanol, que é absorvido posteriormente para a circulação sanguínea. É caracterizada pelo aparecimento de um quadro de fadiga, confusão mental e dificuldade de concentração, entre outros sintomas vagos. Alguns casos documentados apontam como possíveis agentes causadores os fungos Candida albicans, Candida krusei, Candida glabrata e Saccharomyces cerevisiae (este último com maior incidência em doentes imunocomprometidos e em crianças), passando o tratamento pela toma de anti-fúngicos e por uma dieta pobre em hidratos de carbono.

fermentação etanol leveduras

 

3 | Estudos realizados

Os primeiros casos conhecidos desta síndrome foram descritos no Japão, nos anos 70. Nas últimas três décadas, apenas alguns casos foram documentados, os mais importantes em crianças. Em 1990, num estudo clínico levado a cabo por A. Hunnisett e J. Howard (publicado no Journal of Nutritional Medicine), foram administrados oralmente 5 mg de glicose, em jejum, a 510 indivíduos sob suspeita de Síndrome de Fermentação Intestinal, com medição dos níveis de glicose e de etanol no sangue, uma hora depois. Antes da ingestão de glicose, os níveis de álcool no sangue eram nulos em praticamente todos os indivíduos em jejum. No entanto, uma hora após a ingestão, 61% dos mesmos acusaram um aumento, em média, daqueles níveis, de 2.5 mg/dL – por comparação com um grupo de controlo, no qual os níveis de álcool no sangue eram muito próximos de zero. Um outro estudo, realizado em 1985 por W. Bivin e B. Heinen (publicado no Journal of Applied Bacteriology), combinou cinco fórmulas de comida e/ou suplementos para crianças com 4 leveduras das mais comuns (C. albicans, C. tropicalis, C. glabrata e S. cerevisiae), de modo a se poder medir a produção in vitro de etanol. Todas as misturas de etanol e hidratos de carbono originaram etanol, tendo a produção sido maior na preparação com S. cerevisiae.

fermented

4 | Um dos casos mais recentes

Um estudo de Julho de 2013, liderado por B. Cordell e J. McCarthy (publicado no International Journal of Clinical Medicine e divulgado pela CNN), focou-se num caso de um homem de 61 anos, oriundo do Texas, que, durante 5 anos, parecia estar embriagado todos os dias. A sua esposa, enfermeira, submetia-o a testes de alcoolémia, detetando sempre níveis de álcool na ordem dos 0.40, mesmo quando o senhor não havia ingerido nenhuma bebida alcoólica. Como a comunidade médica não estava familiarizada acerca da Síndrome de Fermentação Intestinal, o doente foi descredibilizado por várias vezes. Somente após um período de 24 horas de observação num serviço de Gastroenterologia, em 2010, é que os médicos compreenderam que o seu intestino estava, literalmente, a transformar comida em álcool. O doente foi submetido a um desafio de glicose oral (à semelhança do estudo de 1990), que se revelou positivo para a produção de etanol, bem como a uma cultura de fezes, a qual revelou a presença do fungo S. cerevisiae. Relativamente ao tratamento aplicado, verificou-se que a toma dos anti-fúngicos orais Fluconazole (100 mg/dia, durante 3 semanas) e Nistatina (500 U.I., 4 vezes ao dia, nas 3 semanas seguintes), aliada à restrição dietética de açúcares, hidratos de carbono e álcool (durante estas 6 semanas), levou à cura do doente.

De facto, apesar desta síndrome ser bastante rara, deve ser tida em conta pela comunidade médica, visto que pode ter implicações gravíssimas na vida social do doente, tais como o despedimento do emprego e dificuldades em estabelecer relações com outros, podendo mesmo levar à sua detenção preventiva.

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