Uma simbiose para a vida – parte I

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A maioria das células do nosso corpo não são humanas. Por muito assustador que este conceito possa ser, a verdade é que a proporção entre as células bacterianas e as células humanas é de 10:1 e o número de vírus, bactérias, e outros patogéneos que vivem connosco ascende aos 8 milhões.

O papel de todos estes microrganismos é essencial para assegurar as funções digestivas normais, para a síntese vitamínica, defesa imunitária, extração de calorias dos alimentos e influência no metabolismo de fármacos, mantendo cada indivíduo saudável e funcionando como uma impressão digital individual – e única.

De acordo com uma publicação da revista Times, a comparação entre o tipo e a quantidade de microrganismos existente entre indivíduos poderá explicar o surgimento de diversas patologias, tais como a obesidade, asma, cancro e até o próprio autismo. Relativamente à obesidade, os investigadores sugerem ainda que uma das razões pelas quais as pessoas comem mais é devido a alterações na sua flora intestinal.

Charles Rathmann da Washington University School of Medicine, afirma que quanto mais soubermos acerca destes elementos presentes no nosso corpo, mais depressa poderemos aprender mecanismos não só para os manipular, mas também para prevenir ou até curar doenças. Isto pode ser comprovado através de diversos estudos, nomeadamente numa investigação com roedores obesos em que se verificou que a transmissão de flora intestinal de roedores magros levava à perda evidente de peso dos primeiros, isto sem qualquer alteração na sua dieta. Além disso, 90% dos indivíduos com infeção nosocomial por Clostridium difficile melhoram e estabilizam após a transmissão de flora intestinal proveniente de um indivíduo saudável.

Uma outra investigação permitiu perceber a relação entre a flora intestinal e o síndrome metabólico.[pullquote] O aumento do número de bactérias da flora intestinal induz um estado de inflamação reduzida[/pullquote], mas persistente, que conduz ao desenvolvimento de resistência à insulina e consequentemente ao síndrome metabólico, com ganho ponderal, hipertensão, hipercolesterolémia e aumento do risco de desenvolvimento de diabetes e doença cardiovascular.

Pode a alimentação diária alterar a composição bacteriana intestinal individual? Sim, de acordo com um estudo da Universidade da Pensilvânia, Filadélfia- basta um dia da nova dieta para a flora começar a mudar. Por exemplo, uma dieta à base de comida japonesa, nomeadamente sushi, leva, de acordo com um estudo da Universidade Pierre et Marie Curie (UPMC), Paris, à síntese de uma enzima marinha habitualmente não existente na flora intestinal, o que é uma vantagem no auxílio da digestão das algas vulgarmente usadas.

O metabolismo farmacológico também pode ser alterado pelas alterações da flora intestinal – Rima Kaddurah-Daouk da Duke University afirma que os tipos de ácidos biliares produzidos pela flora intestinal condicionam a resposta do indivíduo às estatinas.

O património individual da flora intestinal é tão variado que suscitou a curiosidade dos cientistas em mapear e individualizar estes microrganismos de acordo com a dieta de cada um, tal como poderás conhecer no próximo artigo. É caso para dizer: “diz-me o que comes, dir-te-ei quem és”.

O QUE O MUNDO COME

Fonte: Livro “Hungry Planet”

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