Coisas que só quem vive nos antípodas pode contar

sleeping_in_a_train__by_ookami_zone-d46eg0vVim parar a uma cidade magnífica, cheia de Sol, promessas e oportunidades, que por acaso se situa a 5 horas de distância de minha casa (4h30 das quais passadas num comboio ou autocarro). Confesso que, por norma, as viagens ao fim-de-semana são enfadonhas. Desesperantemente monótonas, na verdade. Porém, estaria a mentir se dissesse que, nestes últimos três anos, não havia experienciado algumas situações… Peculiares, à falta de melhor adjectivo.

[Crónica]

Na altura, Setembro estava quase a terminar. Eu tinha mesmo acabado de entrar na faculdade e aquele era o segundo fim-de-semana que vinha passar a casa. Era domingo e eu estava no comboio, de regresso a Lisboa, perdida entre atlas, apontamentos, tratados e pensamentos muito apoquentados – enfim, a habitual parafernália associada à unidade curricular mais apavorante do primeiro ano, também conhecida como Anatomia.

O comboio faz uma paragem, as portas abrem-se e mais passageiros começam a entrar. Dou comigo a olhar, distraidamente, para uma senhora com uns setenta e poucos anos, pequenina, anafada e rubicunda, a pedir a alto e bom som a um rapaz, que aparentemente não conhece de lado nenhum, para lhe ajudar a arrumar as malas.

Desatenta ao banal da situação, volto ao estudo. Alguns minutos depois, sinto que alguém pousa uma carteira no lugar vago ao meu lado. Seguida de um saco térmico. Mais um saco de tricot. E também um jornal, um leque e um saco de compras.

Cometo a insensatez de levantar os olhos e encontro um par deles, a olhar avidamente para mim, em seguida para os meus livros, e depois novamente para mim, com um fulgor revigorado. Soube, instintivamente, que a minha viagem ia ser muito longa. Ainda mais que o habitual.

– Boa tarde, menina!

Agora é que me tramei.

– Boa tarde. – returco, educadamente, mas sem dar oportunidade a mais conversa. Volto-me para os livros e continuo a estudar os forâmenes e sulcos do fémur, como se fosse a coisa mais estimulante que eu alguma vez lera. E resulta. Durante uns quinze minutos, que é o tempo que a senhora demora a acomodar-se. Entretanto, a voz dela instala-se nos meus pavilhões auriculares e o estudo perde-se, uma vez mais:

– Estou? Filha? Estás a ouvir-me? Olha que eu chego hoje ao Oriente, não te esqueças de me ir buscar! Ouve lá, já foste mandar arranjar o meu vestido? É que preciso dele para amanhã porque…

Faço um esforço por continuar a estudar, mas o movimento do comboio, o burburinho de fundo e a minha companheira de banco aos gritos e guinchinhos não me deixam concentrar. Faço uma pausa. Espero que a senhora termine o telefonema, o que acaba por acontecer, mas só porque a chamada da vizinha fica em linha de espera. A conversa perdura. E dura, dura, dura… Vem-me o slogan das pilhas à cabeça, vezes sem conta, tal e qual uma ladainha. Viro-me para o lado, encaro a senhora e, com o máximo de delicadeza que consigo, pergunto-lhe se pode falar um bocadinho mais baixo. Dá resultado. A senhora acaba por desligar a chamada. E, fazendo jus ao ditado: pior a emenda que o soneto.

– Então, menina, está a estudar o quê? Medicina?

Mente, mente, mente.

– Estou sim. Tenho aula de anatomia esta terça e tenho muitas coisas para estudar.

Burra.

Voltei-me novamente para os livros, esperando ardentemente que a senhora entendesse que eu não queria conversar. Infelizmente, a minha interlocutora, ou não percebeu, ou não quis saber.

– E então, em que ano está?

– No primeiro.

– E está a gostar?

– Sim. Só é pena que tenha tanto trabalho. A matéria é muita e o tempo é escasso. Tenho que aproveitar todos os pedacinhos para o rentabilizar. Principalmente no comboio. – Agarro novamente no livro e começo a ler.

Pronto, agora não há como falhar. Não posso ser mais directa do que isto sem ser rude. Mas que ingénua.

– Ser médico é a única profissão que ainda tem saída neste país!

Bem, minha senhora, não foi isso que me disseram na primeira aula do meu primeiro dia na faculdade. Nem nos seguintes. Nem é, tão pouco, para isso que as previsões apontam. Pensei, mas não partilhei. Continuei a ler, enquanto encolhia os ombros, como resposta.

– Então e que especialidade é que a menina quer?

Sentindo-me simultaneamente descortês e irritada, finjo que os contornos do fémur estão a captar toda a minha atenção e que não consigo ouvir mais nada.

– O namorado da filha da minha vizinha está a estudar para ser cirurgião. Ele é que tem juízo! Olhe que é mesmo uma jóia de moço… É inteligente, leva-a a passear, trata-a bem… Só é uma pena que seja um bocado feio, coitado! Mas ninguém é perfeito e os homens não são para se pôr no jarreiro! Para jeitoso, já chegava o meu Manel! Oh menina, já não há homens como antigamente… O meu Manel não era cirurgião, mas foi o homem que eu sempre quis! Quando nos casámos, levei um fato novo, castanho, de saia mesmo por baixo do joelho! E que bela perna eu tinha! O Manel também achava. Tivemos três filhos. Ele era honesto, soube educá-los, nunca deixou que nos faltasse nada. O meu papel era cuidar deles, tratar da casa e fazê-lo feliz, se é que me entende. Agora com todas as modernices, as mulheres já não sabem ocupar o lugar delas! Põem-se a trabalhar e vão para os bares, fumam e andam com calções que parecem cuecas. E não se casam, olhe a pouca vergonha. Mas a menina não vai ser dessas, com certeza! Quando acabar o seu curso, veja lá se encontra um cirurgião (mas um jeitoso!) e se depois têm muitos filhos, médicos também. Médicos é aquilo que faz mais falta. Muito eu gostava de ter um filho médico para cuidar de mim… E olhe, menina, que eu bem preciso que cuidem de mim. Sou uma pessoa muito doente…

Creio que, algures durante monólogo da senhora, desisti de fingir que estava a estudar e limitei-me a ouvi-la. Pelo que dizem, “um médico que só sabe medicina nem medicina sabe”. Com o mantra em mente, resignei-me à minha pouca sorte e pensei de que modo é que eu poderia tirar partido da experiência de vida desta personagem.

Foi o compromisso de encontrar resposta a esta questão que me permitiu aguentar, estóica e divertidamente, a história de vida da D. Maria das Dores (que, apesar de não ser o seu nome, é sem dúvida o que melhor lhe assenta).

Fiquei a saber por que razão é que ela se levantava do banco, mais ou menos de meia em meia hora, para passear de uma ponta à outra da carruagem (disse-me que o movimento aliviava a dor que sentia após ter sido submetida a uma cirurgia de uma hérnia discal). Contou-me também sobre aquela vez em que decidiu drenar um processo infeccioso de um dedo com a faca do presunto (“oh menina, aquele altinho vermelho que me estorvava as tarefas? Acha que eu precisava de ir ao centro de saúde para o tirar? Tenho lá vida para isso!”). Contou-me como, mais tarde, teve mesmo de ir ao hospital, quando o “altinho” piorou (devido à infecção, pois…).

E assim continuou, pela tarde fora. Quando finalmente me enumerou todas as suas maleitas, falou-me das do falecido Sr. Manel, das dos filhos e até da estadia do netinho mais recente na incubadora.

Estávamos já a mais de metade do percurso, quando a minha determinação sofreu o grande golpe: sem qualquer aviso, o comboio pára e o revisor avisa que este não vai a lado nenhum até que os bombeiros extingam o incêndio que estava a ocorrer nuns campos pelos quais a linha iria passar.

Pois bem, eu tinha um objectivo nobre em mente. Conquanto, quando ouvi esta “boa nova” e percebi que teria de ficar ali, a aturar a senhora, parada, sem conseguir estudar, sem ter acesso à internet (o pânico), sem ter auriculares para ouvir música ou para ver um filme no portátil (o horror), durante tempo indeterminado, a bem dizer, só não trepei paredes porque não calhou.

A D. Maria das Dores, que entretanto interrompeu o monólogo para avisar a filha, os dois filhos, a vizinha e a irmã de que estava a ocorrer um incêndio perto do comboio e que sabe Deus a que horas iria chegar a Lisboa, deu-me uma pausa para fechar os olhos, encostar a cara ao vidro e iniciar a minha performance de “pessoa que está a dormir”, digna de Óscar. Devo ter sido mesmo convincente, dado que a senhora me conseguiu deixar em paz, durante um bom bocado.

Enquanto a minha performance decorria, de olhos bem fechados, dei comigo a cogitar se as leis de Murphy seriam tão descabidas assim. Acreditar que “Qualquer coisa que possa correr mal, correrá mal, no pior momento possível” parece-me pouco verosímil e até um bocadinho pacóvio. Ironicamente, ou não, no preciso momento em que começo a aceitar a situação, oiço um telemóvel tocar. Para meu horror, constato que é o da minha pessoa e que vou ter “de acordar” para o atender… “Adeus, Óscar para Melhor Actriz”.

– Então, minha filha? Estás presa no comboio por causa do incêndio, não é? – Comenta a minha mãe, preocupadíssima – Que grande chatice! Sabes que mais? Estive agora a falar com a tua madrinha e não é que o filho dela também foi hoje para Lisboa? Saiu depois de ti e já lá chegou há um par de horas! Se ele soubesse, tinha-te dado boleia. Havia imenso espaço no carro…

Consegui manter a compostura. Pedi à D. Maria das Dores, que entretanto retomara a série de telefonemas para a filha, os filhos, a vizinha e a irmã, que me deixasse passar, dirigi-me ao bar e pedi um descafeinado. Sentei-me num dos sofás e decidi dar uma pausa à minha cabeça. Não sei quanto tempo fiquei por lá. Sei que foi muito. Dei conta, vagamente, de o comboio retomar a marcha e de a D. Maria ir até lá, “ ver se a menina estava bem e se gostaria de experimentar um biscoito caseiro”. Como se adivinhasse que a minha comida tinha ficado presa, na mala, por baixo de tantas outras e eu estivesse a ficar com fome.

Pareceu-me sinceramente preocupada e afável. E eu, do nada, apercebi-me que por detrás da velhota descarada e inconveniente, estava uma pessoa com muito mais experiência de vida do que eu e, aparentemente, com melhor coração, também.

Como tal, não só não consegui ficar chateada com a falta de privacidade nem com toda a maçada a que a senhora me sujeitou toda a santa tarde, como dei comigo a sentir uma espécie de afecto por ela pois, apesar de ser tão tacanha, tão antiquada e tão chata, conseguia ser também tão autêntica.

Confesso que não aprendi nada de anatomia durante essa viagem e que, na terça-feira seguinte, quando a monitora da disciplina me deu um fémur para a mão, eu consegui fazer a proeza de articular a patela na não-existente superfície articular da face onde se encontrava a linha áspera, o que me valeu uma vergonha gigante e olhar irado de “vai estudar, a sério, pá!”. E eu lá fui, que remédio.

Mal ela sabia que, nesse fim-de-semana, eu tinha demorado sete horas e meia a chegar a Lisboa. Ou que tinha conhecido a D. Maria das Dores. Ou que lhe tinha emprestado o meu telemóvel para ligar à filha para a ir buscar, porque a bateria do dela não havia aguentado as tarefas dessa tarde, enquanto ambas saboreávamos os biscoitos dela e a limonada da minha mãe.

Ou ainda, tão pouco, que esta seria apenas a primeira das minhas peripécias em viagem, enquanto estudante de medicina.