Feitiço do Tempo

Revi recentemente o Groundhog Day, um filme com uma premissa relativamente simples, mas de uma profundidade extraordinária. Neste, um meteorologista e repórter televisivo, Phil Connors, é enviado para uma remota vila dos EUA para noticiar as celebrações do famoso Dia da Marmota; acompanha-o neste processo a sua produtora, Rita. Phil é um dos personagens mais arrogantes, egoístas, egocêntricos e sarcásticos da história do Cinema. Aborrecido por lhe ter sido delegada uma missão num sítio simplório, deseja sair o mais rapidamente possível do local. Um nevão, no entanto, impede-o de levar a sua avante. Phil volta ao seu hotel, derrotado pelas condições climatéricas, adormece e acorda no dia seguinte no mesmo local, à mesma hora (nada de extraordinário) mas – e aqui reside a novidade do filme – no mesmo dia; e todos os dias deste personagem serão uma repetição do malfadado Dia da Marmota. Phil está preso no tempo e no espaço.

Groundhog Day (1993), Harold Ramis

Esta, por estranho que nos pareça, é também a nossa condição. Criaturas que somos, estamos presas neste tempo, neste espaço, sem, como Phil, sabermos bem porquê. É verdade que a inabalável ambição humana conseguiu limitar o espaço. Onde viu rios, construiu pontes; quis, como Deus, “que a terra fosse toda uma / Que o mar unisse, já não separasse” e, portanto, fez barcos, caravelas, naus; derrotou quilómetros de terra com estradas, quilómetros de estrada com automóveis; olhou para os pássaros e, querendo ser igual, criou aviões; observou as estrelas do firmamento e soube que a distância entre nós e elas deveria ser nula, tinha que ser nula, e tornou motores em propulsores, aviões em foguetões.

Continuamos, contudo, limitados pelo tempo. Detestamo-lo, por ser demasiado fugaz; amamo-lo, pois sem ele não existiríamos. É uma maldição, porque temos um prazo de validade; e uma bênção, já que depois de tudo também merecemos descanso. Tal como Phil, desprezamos a repetição, mas, ao mesmo tempo, não deixamos de nutrir por ela um certo carinho: a música tem repetição, a poesia tem repetição. A paixão ama a repetição: mais um beijo nunca será demais; não amamos só às vezes, mas exaustivamente.

Como podemos, então, quebrar este feitiço? Phil dá-nos a resposta: pelo amor. Não somos eternos, já que isso seria um atentado à nossa condição. No entanto, amamos eternamente, não apenas este dia, esta semana, este mês, estes próximos cinquenta anos: a credibilidade do amor está em amar toda a vida. Morrer ao teu lado é uma maneira celestial de morrer, gritavam urgentemente os Smiths, e disseram-nos tudo: quem ama, sabe que nem a morte será o limite. Se o amor tudo vence, até o tempo se rende ao amor. Este sentimento, ao mesmo tempo um acto da vontade e um salto no escuro, eleva a nossa condição enfraquecida e limitada.

Já a terminar o filme, Phil, entretanto apaixonado por Rita, sussurra-lhe: “The first time I saw you… something happened to me. I never told you but… I knew that I wanted to hold you as hard as I could. I don’t deserve someone like you. But if I ever could, I swear I would love you for the rest of my life”. Estava quebrada a maldição. Ainda que a sua vida fosse perpetuamente aquele dia, isso não importaria: o feitiço do tempo fora derrotado pelo amor

Até ao final do filme, permanece a mesma questão: o que terá causado aquela prisão em primeira instância? À imagem das nossas vidas, nunca saberemos a resposta, mas pouco interessa; sabemos, sim, como quebrar este colete de forças como outrora vencemos os rios e os ares, os céus e os mares: pelo amor, o nosso veículo disruptor do tempo. Amando somos eternos, somos mais nós. Amemos, pois, como Phil e cumpriremos, todos os dias, o nosso desígnio de eternidade.

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