O Dia

No dia em que um homem aprende que pode escolher, esse homem nasce. E tudo o que fará, desse momento em diante, serão escolhas sucessivas, das mais vulgares às decisivas, tomando consciência do que, na verdade, até já vinha fazendo sem o saber. Esse dia será redentor.

Até então, tudo o que um homem fez foi seguir. Aquela seguríssima ideia, na infância, de que tudo é porque sim, porque alguém lidera ou por mistérios indestrinçáveis ao imaginário pueril. A ideia de que sempre alguém toma conta de nós. E há um conforto necessário nisso, mas há também uma revolta indizível, um fogo desajustado à ordem estabelecida. A estas crianças temos por hábito chamar-lhes “difíceis”. À medida que a aculturação se desenha, estes homens enfim aceitam – e é ver-nos atemorizados por educadores, que só podem estar certos, e que não conseguimos seguir por sermos desajeitados demais, imberbes demais – mas vamos no seu encalço, porque assim há-de estar certo.

No dia em que um homem aprende que pode escolher, esse homem nasce.

 Pelo caminho vão-se abrindo janelas de luz. Quando no recreio nos é dada a escolher uma equipa de jogo. Quando, já autónomos no caminho para a escola, nos permitimos fazê-lo mais longo, mais curto, diferente. Quando nos ocorre duvidar. Quando à mesa começam a pedir a nossa opinião. Quando nos tornamos consumidores directos de tudo o que existe. Quando nos ligamos. Quando estamos vivos. E mesmo a inércia, enquanto indiferença à possibilidade de escolha, é uma escolha em si. Somos sempre verdadeiros. Nem sempre vivemos, isso sim, conforme a verdade que somos.

Há depois a questão mais complexa da representatividade. Isto é, a escolha de quem represente as minhas ideias, vontades e problemas numa colectividade. E não só as represente na sua forma estática, incorpórea, mas que as trabalhe e resolva no sentido que eu gostaria de ver cumpridas, se pudesse e quisesse fazê-lo.

Somos sempre verdadeiros. Nem sempre vivemos, isso sim, conforme a verdade que somos.

Vejamos: o voto é uma dupla escolha. Primeiro a escolha de o fazer (com todos os incómodos logísticos que isso implique, e a própria vontade de participar ou não de um colectivo). E segundo, em que direcção oriento o meu voto.

A meu ver, toda a energia radica no primeiro momento. Lidamos mal (e cada vez pior) com o compromisso. Emitir um “sim” demora menos que um segundo, o que torna tudo muito conveniente, pois queremo-nos fáceis, rápidos e soltos. Lidamos mal também com aqueles que nos representam: se por um lado desejamos que o façam, por outro somos assombrados, a espaços, pelo fantasma da autoridade. Como se esperássemos que, a dada altura, os nossos representantes nos traíssem para formar uma elite. “No fim de contas, eles decidem e exercem influência, e eu estou excluído disso”.

Da utopia para a vida. Das pequenas às grandes colectividades. É tanto mais complexo pensarmos estas questões quanto maiores forem os grupos representados. E por isso, não nos interessa agora pensar nas sociedades democráticas que conhecemos, com as suas fragilidades, paradoxos e desilusões – que também conhecemos. Estruturas que nos empurram todos os dias para a periferia das coisas, onde não resta valor ou lugar à acção. Pensemos em famílias. Em locais de trabalho. Pensemos em associações, entre todas as que existem, e pensemos na Academia.

A Faculdade vai-se fazendo, todos os anos, todos os dias. E faz-se porque alguns de nós se permitem fazer parte dessa construção.

No dia em que ingressamos numa faculdade, juntando-nos assim às centenas ou milhares de outros alunos que se inscrevem também, fazemos parte. Tivemos decerto a impressão de que a Faculdade estava já feita à nossa chegada, com tudo preparado para que nela pudéssemos aprender e crescer (não esquecendo as armadilhas que “só podem ter sido criadas de propósito para nos arreliar”). Mas a Faculdade vai-se fazendo, todos os anos, todos os dias. E faz-se porque alguns de nós se permitem fazer parte dessa construção. Não há vedações, excepto as que imaginamos. Há sim miríades de coisas a fazer. E as mãos nunca são demais.

E é por isso que o voto não se limita ao momento de voto, embora deva começar por aí. O voto inaugura um compromisso com tudo o que nos implica. É um modo de dizer “eu preocupo-me” e “faço parte”. Melhor que isso, é dizer “eu farei convosco”.

É aliança em movimento… Perpétuo associativo. Agora sim!

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Joana Aguiar ingressou no Mestrado Integrado em Medicina em 2008, na FCM-NOVA, onde frequenta agora o 2º ciclo de estudos. Actualmente é Directora da Revista Frontal, dinamizando a secção Sete Palmos de Testa - espaço que se quer (des)construtivo o bastante que não caiba em gavetas ou rotulações. Francamente interessada em Medicina Holística (particularmente Nutrição, Saúde Ambiental, Psicociências e Comportamento), Filosofia e Literatura, publicou pela primeira vez em 2008 um livro de Poesia, e foi agraciada em 2012 com o Prémio Literário José Luís Peixoto - Poesia.

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