Os Direitos e Deveres de um Estudante de Medicina

O que importará mais – dar a mão ao doente no seu suspiro final, ou saber com uma exactidão mórbida quais os mecanismos de acção de uma cefalosporina? O que é que será realmente importante saber (ou fazer) na prática clínica? Terão os estudantes de Medicina perdido a capacidade de erguer a mão para outra coisa que não tomar apontamentos ou medir pressões arteriais?
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Fotografia de Inês Amaral

[Opinião]

Dou por mim a olhar para uma terra de cientistas magníficos e analistas fabulosos que, com o seu conhecimento, conseguirão mudar o rumo da ciência. Orgulho-me em pensar que colegas meus serão, quiçá, condecorados um dia pelas suas descobertas científicas. Que a minha geração e as que virão depois serão as que mais saberão sobre todas as nuances dos processos metabólicos e fisiopatológicos que alguma vez houve na medicina.

Infelizmente, a medicina não é uma ciência, mas sim uma arte.

Arte – algo que é criado com imaginação e habilidade e que é belo ou que expressa ideias ou sentimentos importantes.

O médico tem o direito de ser um cientista, mas só se antes cumprir o dever de ser um artista.

O aluno de medicina não deve nunca esquecer o que lhe é dito desde o primeiro dia da faculdade, onde tudo é novo e desconhecido: “o médico representa uma elite”. Palavras sábias que, para um ouvido destreinado, tendem sempre a ser mal interpretadas. O médico é, sem dúvida, uma elite! É um direito adquirido após anos de trabalho, suor e sacrifícios que representa a sobrevivência num mundo inóspito e cruel. Somos a elite da humanidade e não da sociedade – apelo para que o leitor atente à palavra que usei. Ser a elite da humanidade significa ser humano no mais restrito sentido da palavra. Ser igual ao outro à nossa frente, com as mesmas fraquezas, defeitos, medos e dúvidas.

Ouso dizer que o médico só ganha o direito de ser superior a todos, se antes cumprir o dever de ser igual ao outro.

Pode parecer para o leitor mais desatento que todo este texto é paradoxal, mas a verdade é que, se o é, é porque a arte da medicina exercida pelos seus humildes pais foi destorcida por uma sociedade insaciável de informação da ciência. Hoje o doente deixou de ser uma pessoa. Não passa de mais uma cama ou mais um caso. Uma estatística. Um mero conjunto de processos anatomofisiológicos descompensados. Pode tudo isto parecer também uma realidade utópica – mais uma vez, peço que se recordem dos nossos esquecidos colegas que ainda hoje consideramos ídolos e génios, que pouco ou nada sabiam sobre a ciência, mas eram especialistas da arte. Peço que leiam o juramento mais importante do nosso sacerdócio e que procurem a palavra “ciência” nele contida – ou perdida. Sousa Martins podia não compreender quais os processos que estariam por detrás da evolução cancerígena – mas saberia, certamente, dar a mão ao doente na sua fase terminal.

Aos olhos do doente, temos poderes mágicos que curam a todas as enfermidades. Somos super-heróis que ao início do dia envergam a bata branca da mesma forma que um Clark Kent enverga a sua capa vermelha. Somos privilegiados. Somos exemplos.

O médico ganha o direito de ser um exemplo, mas só se cumprir o dever de ser um exemplo.

Na vida, não somos cientistas, mas sim humanos. Na profissão, não somos técnicos, mas sim cuidadores.

Somos aprendizes de uma das mais disputadas e conceituadas ciências do mundo moderno – isto é um facto. Posto isto, nunca se deixem esquecer que, se hoje existe uma ciência médica, ela foi criada em prol de um único e exclusivo objectivo: ajudar o próximo.

O médico ganha o direito de fazer parte da medicina, mas só se cumprir o dever de ser Médico.

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