Burnout

Uma carga horária excessiva, um nível de exigência elevado e a sensação de que não se vai estar à altura dos desafios propostos conseguem desmoralizar qualquer um. No entanto, a persistência da desmotivação deve alertar para a possibilidade de estarmos perante uma síndrome de burnout.

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Os estudantes de medicina estão continuamente expostos a agentes psicossociais indutores de stress que, se continuados, podem levar ao aparecimento desta condição. Esta define-se pela tríade de exaustão emocional, despersonalização e baixa realização profissional. Além disso, na ausência de uma intervenção adequada pode associar-se a sintomatologia física como cefaleias, tonturas, dispneia e distúrbios do sono. Convém notar que o agregado de sintomas nestes casos difere do da depressão, do tédio e da simples infelicidade (alterações que também são muito frequentes entre esta subpopulação).

O estudante que sofre de Burnout apresenta geralmente uma redução da qualidade do seu estudo, maior probabilidade de errar, maior absentismo, bem como diminuição da satisfação perante o seu trabalho. Verifica-se ainda incapacidade de reduzir os níveis de stress durante o tempo livre como resultado da exaustão emocional. Com a despersonalização, torna-se negativista e cínico, tendo geralmente dificuldade em estabelecer comunicação interpessoal. É também frequente a culpabilização dos outros por tudo aquilo que não corre de feição. A baixa realização profissional, por último, manifesta-se pela falta de confiança nos conhecimentos e nas capacidades do próprio; pela sensação de que o seu trabalho não tem qualquer valor. O estudante de medicina é capaz de trabalhar sol a sol e mesmo assim nunca corresponder às suas expectativas. Isto é particularmente notório na preparação para o temido exame de especialidade e mesmo durante os estágios, quando parece não existir preparação possível para as perguntas do orientador.

Pensava-se originalmente que o burnout surgia tarde na carreira médica, após o idealismo inicial dar lugar ao pragmatismo da prática diária. No entanto, hoje sabe-se que é mais prevalente em médicos jovens que em médicos mais experientes. Segundo Oliva Costa, em Burnout Syndrome and associated factors among medical students: a cross sectional study, é ainda extremamente frequente entre estudantes de Medicina, especialmente durante a transição para o ciclo clínico de estudos. Pensa-se que assim seja por reflectir uma época de ansiedade, expectativas e medos, em que a limitação do conhecimento científico assume um contexto e o impacto do contacto com doentes crónicos e terminais se faz sentir. No entanto, o burnout também é comum durante a avalanche de informação que caracteriza o ciclo de ciências básicas.

Há uma relação comprovada entre burnout e morbilidade psiquiátrica. Dados de estudos transversais de sete escolas médicas americanas, publicados em 2008 na revista Annals of Internal Medicine, demonstraram que os alunos que experienciam burnout possuem um risco duas a três vezes superior de se encontrarem entre os 11,2% dos que assumiram ter considerado suicídio previamente. Aliás, a severidade do burnout revelou-se extremamente relacionada com ideação suicida (OR 3.46; p < 0.001), tendo esta associação persistido após o controlo da depressão.

É importante notar que a alta carga de trabalho e a exigência dantesca do currículo não são os únicos factores que contribuem para a ocorrência de burnout. Traços de personalidade inerentes aos médicos e estudantes de Medicina como a obsessão, o perfeccionismo e a exigência também predispõem para a ocorrência desta síndrome. De facto, no artigo publicado por Marie E Dahlin na revista BMC Medical Education, em 2007, foi observada a associação entre comportamentos de personalidade tipo A e burnout. Além disso, na presença desta síndrome ou de outros distúrbios psiquiátricos é geralmente evitada a procura de auxílio, o que leva à perpetuação do problema. Outros factores predisponentes apontados na literatura são a (fraca) qualidade do ambiente académico e a ocorrência eventos de vida infelizes e doenças major.

Na área profissional da Medicina, o burnout está a deixar de ser um assunto intocável e tem vindo a ser progressivamente mais estudado, dado tratar-se de um problema de saúde pública não só com repercussões na qualidade de vida do próprio, mas também com consequências no tratamento dos doentes. Muitos estudos têm vindo a ser feitos na tentativa de relacionar a presença e a gravidade do burnout com a área geográfica e a especialidade médica, de forma a direccionar possíveis intervenções para as populações mais afectadas.

Há, assim, uma tendência para as especialidades dos cuidados primários estarem no topo da lista das que têm maior relação com burnout. Esta tendência deve-se ao maior risco de exaustão emocional, dado o maior contacto com os doentes. Os autores do referido estudo consideram que a prevalência de burnout nos médicos americanos atingiu valores críticos, sendo superiores aos de 2015. Estes resultados estão em consonância com uma pesquisa realizada pela Mayo Clinic em 2015 que comparou os valores de 2011 com os de 2014, tendo observado um aumento de 45,5% para 54,4%. Esta tendência não é exclusiva dos Estados Unidos, já que estudos realizados em países europeus apontam também para uma incidência crescente.

Considera-se que a atuação deve começar logo no ingresso no curso de medicina e que as escolas médicas se encontram numa posição privilegiada para promover o bem-estar dos alunos. Várias estratégias têm sido implementadas como a promoção de self-care skills (através de intervenções por parte dos psicólogos da faculdade) e a educação dos alunos na prevenção e redução do burnout. Também a instituição de programas estruturados de aconselhamento de estudantes se tem revelado frutífera. Além disso, orientação por parte de colegas de anos mais avançados e relações interpessoais saudáveis têm uma influência muito positiva. Outras táticas incluem o treino comportamental cognitivo, a psicoterapia, o treino de competências de adaptação e comunicação, o relaxamento e a prática regular de exercício físico. Estas medidas mitigam comprovadamente o risco de burnout por diminuição do stress e aumento da qualidade de vida.

Porém, estas intervenções têm tido obstáculos sobretudo devido à relutância por parte dos alunos e dos médicos perante as mesmas, tanto porque não as consideram úteis, como porque as encaram como mais uma obrigação, ou ainda por estigma associado às técnicas de self-care. Consequentemente, os resultados são menos produtivos e muitos destes indivíduos acabam por desenvolver depressão. Idealmente, o ensinamento destes mecanismos de coping deveria estar contemplado nas cadeiras de ciências sociais integrantes do curso de medicina, de forma a capacitar o próprio no combate ao burnout e à morbilidade psiquiátrica. Desta forma, pensa-se que seria possível travar o crescimento galopante desta síndrome.

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