Eis a Questão: Professor Dr Miguel Viana Baptista

PORTYSTROKE: Poderá o conhecimento do nosso

património genético prevenir o AVC juvenil?

Professor Doutor Miguel Viana Baptista

Serviço de Neurologia, Hospital Egas Moniz – CEDOC, FCM-NOVA

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Professor Doutor Miguel Viana Baptista
Professor Doutor Miguel Viana Baptista

O Acidente Vascular Cerebral (AVC) constitui uma causa importante de mortalidade e morbilidade em adultos jovens. Estima-se que existam neste grupo etário 3000 novos casos/ano em Portugal, no entanto existe muito pouca informação disponível. Acresce que numa percentagem significativa dos casos a etiologia do evento permanece por esclarecer, mesmo quando são efetuadas investigações exaustivas. A doença de Fabry e o CADASIL (Cerebral autosomic dominant arteriopathy with subcortical infracts and leucoencephalopathy) são doenças monogénicas raras que cursam com AVC em idade jovem. A descrição de fenótipos atípicos sugere que estas entidades possam estar subdiagnosticadas nesta população, sendo a questão particularmente relevante no que respeita à doença de Fabry, na medida em que esta entidade é potencialmente tratável. O estudo foi desenhado para rastrear estas entidades na população jovem com AVC, permitindo adicionalmente obter informação detalhada em relação ao AVC nesta faixa etária.

[pullquote align=”right”]Durante um ano foram incluídos doentes jovens admitidos com um primeiro AVC, admitidos em 12 Serviços de Neurologia do país[/pullquote]Foi efetuado um estudo prospetivo multicêntrico, no qual durante um ano (novembro de 2006 a outubro de 2007) foram incluídos todos os doentes jovens (18-55 anos) com um primeiro AVC, admitidos em 12 Serviços de Neurologia do país. Foram compilados dados demográficos, clínicos e imagiológicos e foi realizado o estudo genético das respetivas mutações: para a doença de Fabry com sequenciação completa do gene GLA e para o CADASIL, com sequenciação dos exões do gene do NOTCH3 nos quais, previamente, foram encontradas mais frequentemente mutações (4,11,18 e 19). O estudo encontra-se nesta altura na fase de análise dos dados de seguimento a 5 anos.

Os resultados (publicados na revista Stroke) foram os seguintes: de um total de 625 doentes admitidos, 132 foram excluídos (15 recusaram, 21 morreram previamente à inclusão e 96 foram perdidos por outros motivos). Estudamos 493 doentes (idade média 45,4 anos; 61% do sexo masculino), 74% tinham um AVC isquémico; 23% um AVC hemorrágico (incluindo 26 casos de hemorragia subaracnoideia) e 3% uma trombose venosa cerebral.

[pullquote]Identificámos duas mutações diferentes no gene GLA (…) e sete polimorfismos, previamente não descritos, do gene NOTCH3[/pullquote]Identificamos duas mutações diferentes no gene GLA, em 12 doentes (prevalência estimada 2,4% IC 1,6 – 4,7). Estes doentes apresentavam níveis subnormais / limite inferior do normal de alfa-galactosidase. Identificamos 7 polimorfismos, previamente não descritos, do gene NOTCH3, em 8 doentes (prevalência estimada 1,6% IC 0,8-3,1) cujo significado permanece desconhecido. Relativamente à presença de fatores de risco vasculares, os doentes nos quais foram identificadas mutações (quer do gene GLA, quer do gene NOTCH3) não eram significativamente diferentes da restante população estudada.

As alterações identificadas merecem, tanto no caso da doença de Fabry quanto no CADASIL, alguma reflexão. No entanto os resultados sugerem que, apesar de raras, ambas as entidades devem ser consideradas em diferentes tipos de AVC. Serão necessários mais estudos para perceber qual o significado das alterações encontradas e reconhecer quais os casos nos quais estas entidades deverão ser equacionadas prioritariamente. Admitimos que as mutações identificadas possam de alguma forma interagir com os restantes fatores de risco vasculares.

[pullquote align=”right”]A informação coletada constitui um bom exemplo da importância da colaboração entre diferentes hospitais e da articulação entre ciências básicas e clínicas.[/pullquote]O presente trabalho é fruto do empenho de diferentes profissionais e instituições. A informação coletada constitui um bom exemplo da importância da colaboração entre diferentes hospitais e da articulação entre ciências básicas e clínicas. Os estudos genéticos foram efetuados no serviço de Genética da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, existindo atualmente uma base de dados com amostras destes doentes que permitirá no futuro testar o significado de outras alterações genéticas no AVC jovem. O estudo teve o Patrocínio da Genzyme Portugal, e mostra bem como a colaboração com a indústria farmacêutica pode servir interesses comuns à comunidade. Representa um esforço importante no sentido de compreender a patologia vascular cerebral em Portugal e sublinha a necessidade de prosseguir a investigação nesta área com novos estudos de âmbito nacional.

[list type=”arrow”][li]MAIS INFORMAÇÕES – Clinical Research Group, Neurology, Stroke and Dementia[/li][/list]

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Ana Rute Marques é aluna do 5º ano da FCM-NOVA. Nascida em Lisboa, cresce em Corroios. Ingressa no ensino superior em 2009, na Faculdade de Ciências Médicas, no mestrado integrado de Medicina. É colaboradora da Revista FRONTAL desde o início de 2013. Os seus interesses pessoais, além da Ciência (em especial das Neurociências), abrangem o Mundo Animal, a 7ª arte, as técnicas de Defesa Pessoal e os Clássicos da Literatura Portuguesa.

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