A Mala do Médico do Futuro

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Cada vez mais nos vemos envolvidos por tecnologia, e todos os dias vão surgindo novos aparelhos e dispositivos: alguns destinados especificamente à prática clínica, outros que difundem do nosso dia-a-dia para se tornarem ferramentas profissionais. Nesta edição da FRONTAL a rúbrica TEC vai olhar para a bola de cristal e abrir a mala do médico do futuro para responder à questão: que tecnologias estão a mudar o paradigma da prática clínica?

Google Glass

google-glass-9Para aqueles que ainda não conhecem o próximo grande projecto da multinacional americana, o Google Glass é um dispositivo portátil sob a forma de óculos com lançamento previsto para o final do ano. O hardware inclui Wifi, Bluetooth®, câmaras, comandos de activação por voz, e um heads-up display (instrumento importado da aeronáutica que transmite informações visuais sem que seja necessário o desviar do olhar).

Este aparelho poderá vir a ter um grande impacto na área da Medicina. Como? Estes são alguns cenários possíveis: um cirurgião transmite em tempo real uma cirurgia a vários alunos ao mesmo tempo; ao chegar ao local de um acidente, o paramédico transmite a situação em tempo real para uma equipa no hospital de forma a preparar da melhor forma o tratamento urgente dos doentes; um cardiologista, ao realizar um cateterismo, consegue ver a imagem da fluoroscopia através do display. As possibilidades são infinitas. No entanto, não é possível descartar as polémicas que a sua utilização poderá gerar, nomeadamente no que diz respeito à privacidade dos doentes. Se se ouvissem os cépticos da multinacional, a Google facilmente instalaria visão “raios X” com a justificação de evitar despir os doentes.

Estetoscópios electrónicos

3m-littmann-3200-02.2O Estetoscópio Littman® 3200 da 3M é um exemplo da crescente incorporação da telemedicina na prática clínica. Este estetoscópio, para além de diminuir o ruído ambiente em cerca de 85%, têm também a capacidade de amplificar os sons menos audíveis até 24 vezes. É também capaz de gravar os sons auscultados e enviá-los através de Bluetooth®, em tempo real, para um computador graças ao programa StethAssist da Zargis®. Assim é possível ouvir os sons à posteriori, visualizando-os sobre a forma de sonograma, caso seja necessária uma segunda opinião ou simplesmente para confirmar e registar o diagnóstico. Vendido à parte existe também o software Cardioscan, desenhado especificamente com o intuito de ajudar a analisar os sons cardíacos para a identificação e classificação de sopros. Estudos revelam que com estes programas os médicos que os utilizaram conseguiram reduzir em 46% a taxa de falsos negativos dos seus diagnósticos.

 

 

Tablets e Smartphones

padfone-8Com o crescente investimento em aplicações na área da saúde, hoje em dia não é difícil encontrar uma que sirva as necessidades mais específicas de um médico, sejam estas quais forem. Um exemplo de uma aplicação muito utilizada pelos médicos é a Medscape da webMD, que permite aceder a uma base de dados fidedigna e constantemente actualizada com mais de 3500 referências clínicas de doenças, 7000 referências de fármacos (incluindo interacções medicamentosas) e 2500 imagens e vídeos clínicos. Outros exemplos de aplicações semelhantes são a Epocrates e a UpToDate (embora esta última não seja gratuita). São também bastante populares as aplicações cuja função é realizar cálculos médicos, como por exemplo a Calculate da QmXD: esta permite calcular de forma prática tanto a pontuação de um doente na escala de risco de Framingham, como o ajuste de dose de fenitoína num doente com insuficiência renal, entre muitas outras coisas. Entre as várias aplicações existem milhares de funcionalidades que podem facilitar bastante a vida do médico e até fazer a diferença na tomada de decisões.

Através dos smartphones foi possível criar uma nova categoria de ferramentas de diagnóstico. Neste momento já existem, por exemplo, sistemas quantificadores da glucose sanguínea capazes de captar, registar e partilhar a informação através de uma aplicação para telemóvel. Através de pequenos acessórios é também possível transformar os iPhones em otoscópios, fundoscópios, microscópios, medidores da pressão arterial e até leitores de electrocardiogramas. As aplicabilidades são imensas. Contudo, as sensibilidades em alguns casos não são ainda ideais.

Ultra-sonografia Portátil

will-ultrasound-come-to-our-homes-civco-chatter-civco-chatter-1188x971Em 2009 a GE Healthcare introduziu no mercado o Vscan, um aparelho com um tamanho pouco superior a um smarthphone, ligado a uma pequena sonda. Tal como qualquer tecnologia baseada na ultra-sonografia, este aparelho não se limita a deixar ouvir o problema, permite-nos vê-lo. Graças à sua portabilidade é possível utilizá-lo no exame objectivo e obter um diagnóstico rápido, não só de patologias cardíacas como também de patologias respiratórias, abdominais, vasculares, entre outras. Apesar do seu elevado preço (cerca de 6000€), o seu uso tem crescido cada vez mais nos hospitais norte-americanos e, se a tecnologia continuar a evoluir e o preço a diminuir, poderá tornar-se de uso comum em todos os hospitais. Um dia, como médicos do futuro, poderemos dizer “Vim, Vi e Venci” ao invés de “Vim, Ouvi e Venci”.