Diz-me o que fazes e dir-te-ei quem és

Opção 1

À pergunta “o que é que te define?” ninguém concede oferecer resposta fácil. Não sem antes entreabrir os lábios a um suspiro, elevar o sobrolho e de olhos esbugalhados dizer, talvez, que “tanta coisa”. A pergunta é igualmente feita com a devida solenidade: não nos desejamos rasos, mas antes cheios desse sumo biográfico que ora sacia, ora lança quem nos ouve no lusco-fusco das possibilidades de sermos mais – muito mais. Por isso mesmo é curioso que, para efeitos práticos, ofereçamos de barato todo o protagonismo do nosso cartão de apresentação a um elemento redentor: a nossa actividade e/ou formação.

“E você é…?”. Com a entrada na faculdade, “estudante de Medicina”. Volvidos alguns anos, “médico”, acrescentando-se o conhecido apêndice antes do nome. Alguns anos mais e “médico-cirurgião-maxilo-facial”. E por aí adiante. O fenómeno, não sendo uma excentricidade moderna, começa mesmo na infância, como desde cedo se pergunta às crianças o que querem ser “quando forem grandes” – ao que por vezes nos devolvem as mais inusitadas respostas.

É curioso que  ofereçamos de barato todo o protagonismo do nosso cartão de apresentação a um elemento redentor: a nossa actividade e/ou formação.

O que nos move, além de uma herança cultural sobre o que deva ser o ciclo de vida, é também uma certa necessidade de coerência, como se aquilo que fazemos (inserido num projecto lógico com vista ao sucesso) fosse o cimento que tudo une, mesmo as pontas soltas da nossa história pessoal. Apesar de nascermos já nestas engrenagens, de crescermos impregnados de expectativas a médio prazo, não teremos a responsabilidade de repensar a tese, olhar ao que nos encaminhamos e ao que desejamos chegar?

Trabalho, Logo Existo

O trabalho parece carregar todo o sentido de uma existência e de uma identidade. E seria necessário outro arcaboiço para desenvolver a questão. Mas lembro Aristóteles, para quem o trabalho servia libertar para o lazer (curiosamente, a origem grega da palavra “escola” significa “lazer” ou “aquilo em que se emprega o lazer”). Pelo caminho, lembro uma passagem da “Aparição” de Vergílio Ferreira, em que um velho semeador, outrora com uma mão perfeita para a labuta, põe fim à sua vida quando confrontado com a patológica impossibilidade de semear como dantes. Noutro extremo, lembro ainda a célebre inscrição nos pórticos de Auschwitz, “o trabalho liberta” – e com esta esfuma-se a vontade de prosseguir com a rememoração.

Hoje, desde a escola, passando pela formação superior ou complementar e até à entrada no “mercado de trabalho”, há toda uma sincronização em prol da sustentabilidade do sistema, do progresso, da qualidade de vida e da satisfação das necessidades. E de que é que a sociedade necessita para que tudo funcione? Se pensaram em “consumidores” (de bens, serviços ou outros) não andaremos longe da realidade. A bem do capitalismo, que vai sobrevivendo como pode. A bem da vida que nos acostumámos a viver. O modelo vigente parece estar a tornar-se obsoleto. E a manter o trabalho como direito e dever inalienável, é preciso concretizar alguma mudança. “É preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma” (Giuseppe Tomasi di Lampedusa).

Propostas para um Ciclo de Vida Integrado

Maria João Valente Rosa avalia as implicações socioeconómicas e culturais de uma sociedade senescente e efervescente, isolando e identificando o modelo actual, assente numa lógica de partição: três grupos sequenciais e mutuamente exclusivos, entre os quais uma fatia jovem em franco emagrecimento e com dificuldades de transição, uma população activa marcada pela instabilidade e precariedade laborais, e os idosos, renegados para o extremo da equação. Sublinha-se a conotação francamente negativa associada ao envelhecimento, estampada em preocupações como a renovação de gerações, a perda de produtividade ou a insustentabilidade da Segurança Social, descurando-se, segundo a autora, o tremendo potencial que as circunstâncias nos oferecem. E é aí que propõe um modelo alternativo-especulativo com o mote “porque não misturar isto tudo?”.

Perseguimos estabilidade, repudiamos rotina. Desejamo-nos coerentes, desejamo-nos diferentes. Estudar entedia-nos, tempo livre entedia-nos.

Cada um dos grupos convive, de algum modo, com frustrações: jovens estudantes que anseiam por autonomia, adultos activos saturados, que ora recordam com nostalgia os tempos de faculdade, ora perseguem o ideal de reforma, e os idosos, que esbarram com a perda de sentido e valor. E se o trabalho confere sentido, porque não descentrá-lo (começando mais cedo, terminando mais tarde), descondensá-lo (promovendo o trabalho a tempo parcial) e torná-lo multifacetado (projectos em vez de emprego para a vida)? Que a formação base se mantivesse a montante, e prosseguisse integrada nas restantes fases; que menos horas semanais de trabalho abrissem espaço a projectos paralelos; que aos indivíduos com mais de 65 anos, cujas condições de saúde o permitissem, fosse dada a possibilidade de optar por uma reforma parcial, a par de desempenho activo. Estas e outras sugestões assentam na convicção de que conhecimento/experiência são valor, não conhecendo idades nem fronteiras.

Perseguimos estabilidade, repudiamos rotina. Desejamo-nos coerentes, desejamo-nos diferentes. Estudar entedia-nos, tempo livre entedia-nos. Os paradoxos do homem moderno pedem mais que análise, pedem concertação. E a humildade necessária para viver as coisas simples. Pedem ao homem moderno que se levante; e ande.