Guerra contra o Cancro. O fim do thriller?

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O cientista heróico que vem para derrotar o cancro provavelmente nunca existirá. O cancro é um vigarista biológico que não só invade a célula como também assume o controlo dos seus mecanismos. Apesar da Ciência já se ter dedicado bastante ao estudo dos processos moleculares do cancro, só foi possível compreender com maior profundidade o funcionamento biológico deste destruidor implacável nos últimos anos. Os avanços na genómica permitiram concluir que este é muito mais complexo do que se pensava. Assim sendo, questionou-se se o paradigma da investigação individual precisaria de uma reavaliação no sentido da mudança para a ciência em grupo. Este modelo de luta contra o cancro pode ser superior à abordagem tradicional, na qual um investigador se foca apenas num objetivo. “Já não se faz ciência e medicina isoladamente” afirma Dr. Lynda Chin, diretora do Institute for Applied Cancer Science.

A ciência em grupo tem sido a premissa por trás das “Dream Teams” da organização Stand Up 2 Cancer (SU2C), fundada pela produtora do Homem Aranha, Laura Ziskin (que perdeu a batalha contra o cancro da mama em 2011), pela jornalista norte-americana Katie Couric e pela ex-diretora da Paramount Pictures, Sherry Lansing. O objetivo deste grupo é atacar o cancro da mesma forma que se produz um filme: juntar as “personagens” mais talentosas, financiá-las generosamente e supervisionar o seu progresso com rigor, tentando alcançar a grande recompensa.

Uma das nove “equipas de sonho” apoiadas pela SU2C – formada por vários protagonistas, nomeadamente geneticistas, patologistas, bioestatísticos, bioquímicos, informáticos, oncologistas, cirurgiões, enfermeiros, entre outros –, recorrendo aos últimos avanços na epigenética, realizou ensaios clínicos baseados na regulação da expressão génica, incluindo as mutações que induzem neoplasias. As funções epigenéticas, manipuladas por factores ambientais e farmacológicos, aumentam a probabilidade dos tratamentos tradicionais posteriores funcionarem. No caso do doente Tom Stanback, ex-fumador de 62 anos, cujo tumor associado ao carcinoma pulmonar de não-pequenas células lhe dificultava a respiração e a deglutição, foi-lhe administrado um fármaco ativador dos linfócitos T. Este permitiu que a radioterapia fosse mais eficaz, levando à regressão total do tumor. A equipa foi premiada com uma subvenção em maio de 2009 e, no mesmo ano, foi possível não só a extensão do ensaio clínico que envolveu Stanback, como também a criação de outros.

O cientista heróico que vem para derrotar o cancro provavelmente nunca existirá.

De facto, nos últimos anos, a evolução da investigação deu-se à velocidade da luz. Enquanto outrora, na área da Oncologia, o período desde a experiência laboratorial até ao ensaio clínico era tipicamente de uma década, com o paradigma atual de formação de equipas este processo demora apenas um a dois anos. “É um processo rápido, mas não o suficiente quando há um doente a precisar urgentemente de tratamento. O cancro não espera dois anos.” comenta Dr. Daniel Haber, diretor do Centro de Oncologia do Massachusetts General Hospital.

Outro exemplo de êxito da reestruturação da investigação é o do Centro Oncológico MD Anderson. O presidente, Dr. Ronald DePinho, reuniu seis grupos multidisciplinares com o intuito de “organizar ataques abrangentes” a oito tipos de cancro: próstata, melanoma, pulmão, mama, ovário e três tipos de leucemia no programa Moon Shots.

Apesar do sucesso do paradigma de “crescer como equipa”, o investigador que trabalhar para o momento “eureka!”, isolado num laboratório, terá sempre um papel neste novo cenário. “Ainda precisamos de investigadores que procurem debaixo das pedras” comenta Dr. William Nelson, diretor do Centro Oncológico Johns Hopkins.

Encontramo-nos perante um novo guião para um enredo antigo, onde ainda há muito por escrever. O que se pretende agora é o fim do filme.