Reforma Curricular: A Comparação

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A crítica e a reflexão sempre foram motores de avanço da Humanidade. Querendo nós que se faça sempre mais e melhor na “nossa” Faculdade de Ciências Médicas, porque não refletirmos um pouco sobre o nosso currículo, através dos de outras faculdades que, sendo diferentes, nos podem ajudar a evoluir?

Numa das cenas iniciais da Canção de Lisboa, Vasco Santana enfrenta um temível trio de Catedráticos no exame final de Medicina. Do alto de um palanque os professores massacram o ignorante aluno, que nem por isso merece tanta violência, para o riso geral da plateia. Barbas grisalhas pontiagudas, capas negras e uma ampulheta de madeira completam o quadro cinzento, fiel ao que seriam as avaliações, certamente quase sempre muito menos alegres, do início do século XX. Hoje, como então, os alunos de Medicina continuam a ser sujeitos a exames e avaliações – e alguns ficam ainda mortificados com a possibilidade de confronto com professores em orais.

Mas as comparações entre a atual Faculdade de Ciências Médicas e o antigo Campo de Santana ficam por aí – o ensino, aquilo que realmente importa, sofreu uma verdadeira revolução: as barreiras entre professores e alunos esbateram-se, as tecnologias de informação invadiram as secretárias de trabalho, mil e uma fontes substituíram o livro sagrado escrito pelos mestres, o trabalho prático ganhou importância e o sentido crítico passou a ser estimulado em detrimento do papaguear das palavras dogmáticas do catedrático.

Hoje, o trabalho prático ganhou importância e o sentido crítico passou a ser estimulado em detrimento do papaguear das palavras dogmáticas do catedrático.

Sabemos que o presente da nossa faculdade difere do seu passado, quer próximo, quer distante. Diversamente, a maneira como se ensina medicina fora das portas da FCM-NOVA continua a ser um quase completo mistério para os seus alunos. Vale a pena, por isso, fazer uma curta viagem à volta do globo – com quatro paragens, duas em Portugal, uma em França, outra nos Estados Unidos da América –  para tentar perceber as diferentes realidades do ensino médico actual.

O que está em jogo aqui não é propriamente compararmos a nossa Faculdade a outras escolas de renome internacional, ou mesmo a outras com variados problemas, mas sim tentar responder a uma simples questão: Estamos a ser preparados para sermos bons médicos? Cada qual terá uma resposta diferente, com professores tendencialmente dizendo que sim e alunos a levantarem dúvidas razoáveis – de cada lado haverá um fundo de verdade e nós não iremos acrescentar mais uma opinião à discussão.

Ao fazermos uma reflexão sobre o ensino da Medicina noutros locais, de imediato nos salta uma ideia à vista: não estamos sozinhos. Há muitas faculdades a trabalharem da mesma forma que a nossa e milhares de alunos a estudarem pelos mesmos livros que os nossos e a serem submetidos às mesmas metodologias. Igualmente, porém, existem escolas que apostam em percursos formativos diferentes, dando, por exemplo, um grande ênfase à investigação, ou adiantando a prática clínica aos primeiros anos do curso (como aliás a reforma curricular em curso nos primeiros anos da nossa faculdade advoga), ou apostando em ferramentas pedagógicas ultra-modernas ou uma série de outros caminhos – tantos quantas faculdades de Medicina existem no mundo.

Afinal, estamos no caminho certo ou errado? Existem alternativas superiores aos nossos métodos de ensino?

Afinal, estamos no caminho certo ou errado? Existem alternativas superiores aos nossos métodos de ensino? O que podemos fazer melhor? Será que estamos a ser devidamente preparados para os desafios da Medicina de amanhã? E o que estão a fazer as outras faculdades para antecipar os mesmos?

Não vai ser assim tão fácil chegar a conclusões: afinal a FRONTAL informa, não dá respostas. Uma coisa é certa, porém: o ensino de Medicina não é igual – nem voltará a ser – ao do tempo do Vasco Santana. E ainda bem.

O Ensino Médico em França

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Pitié-Salpêtrière Hospital (Paris, França)

 

França: o destino de sonho de Erasmus para muitos estudantes da FCM-NOVA. Os que conseguem efetivamente partir regressam com histórias de uma experiência hospitalar radicalmente diferente da que conhecemos. Ao contrário do que é feito nos restantes exemplos, optámos por abordar como um todo o sistema de educação médico do país, devido às suas idiossincrasias e complexidade.
Existe um primeiro ponto sobre o qual é fundamental fazer uma chamada de atenção: não é fácil estudar Medicina em França. O primeiro passo que um aspirante a médico tem que tomar é inscrever-se no Primeiro Ano Comum dos Estudos da Saúde ou PACE (o segundo ponto a referir é que os franceses adoram siglas complicadas).

O PACE é um ano trabalhoso, com um currículo com disciplinas comuns e específicas aos vários ramos. O seu final representa adicionalmente a grande barreira para quem deseja estudar Medicina, já que o acesso ao 2º ano do Primeiro Ciclo, ou Diploma de Formação Geral em Ciências Médicas (sendo a sigla em francês DFGSM), é condicionado por um numerus clausus muito restrito. Existem, pois, três caminhos possíveis para os estudantes: (1) conseguem uma classificação suficientemente alta para entrarem em Medicina numa das faculdades nacionais; (2) falham a entrada em Medicina, podendo nesse momento escolher outra saída ou repetir o PACE uma única vez; (3) têm uma nota tão baixa no final do primeiro ano que lhes poderá ser sugerida uma reorientação para outra área de estudo no Ensino Superior.

Neste ponto as portas da Faculdade de Medicina estão abertas. E é neste momento que as coisas começam a ficar engraçadas. Paralelamente à formação teórica existe a possibilidade de frequentar estágios hospitalares: o primeiro, com a duração de 4 semanas antes do início do 2º ano, de iniciação à enfermagem; e diversos estágios de semiologia ao longo do 2º e 3º anos, totalizando 400 horas.

Terminado o Primeiro Ciclo (garantindo-se assim um diploma em Ciências da Saúde) os estudantes prosseguem para o Segundo Ciclo, clínico, comumente apelidado de Externato. Aqui são amplamente integrados na vida hospitalar e é-lhes exigida uma grande responsabilidade durante o período dos estágios: não é por acaso que um dos objetivos centrais estabelecidos para o Externato é não provocar malefício aos pacientes!

 Não é por acaso que um dos objetivos centrais estabelecidos para o Externato é não provocar malefício aos pacientes!

As grandes diferenças em relação à realidade da FCM-NOVA prendem-se, como já referido, com a vivência hospitalar. No hospital os alunos são obrigados a frequentar estágios – alguns obrigatórios (como cirurgia ou medicina geral), outros facultativos – e o serviço de urgência. Nuns e noutros a dedicação pedida aos estudantes é total, sendo que a aprendizagem é feita através do contacto direto com os profissionais mais experientes, internos ou especialistas, de forma a que a formação seja o mais completa possível. De uma maneira geral, segundo vários relatos, a participação requerida aos externos no dia a dia hospitalar é muito maior do que em Portugal, com estudantes a receberem doentes nos serviços, elaborando um exame objetivo completo, intervindo na discussão de casos clínicos, realizando os mais variados gestos clínicos…

A participação requerida aos externos no dia a dia hospitalar é muito maior do que em Portugal

A responsabilidade e trabalho exigidos são acompanhados igualmente por uma bela recompensa atribuída pelo governo francês: um salário. Obviamente este não suprirá as necessidades mensais de um estudante, alguns apelidam-no de simbólico. Vai de € 122 mensais no 4º ano a € 265 mensais no 6º.

No final do curso de Medicina os estudantes têm ainda de enfrentar uma prova final que serve de seriação para o acesso ao internato – as Épreuves Classantes Nationales –, cuja preparação se inicia logo no 4º ano e deve ser equilibrada paralelamente ao horário letivo.

Não existem palavras suficientes para descrever uma realidade tão díspar da nossa. De cima a baixo é um sistema diferente, que favorece a integração dos alunos na vida hospitalar, competitiva e trabalhosa. Para alguns, o esforço necessário poderá valer a pena no final; para outros poderá ser interpretado como o desperdício dos melhores anos da vida – tudo se resume a uma questão de perspetiva.

Departamento de Medicina e Ciências Biomédicas da Universidade do Algarve (Faro, Portugal)

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Departamento de Medicina da Universidade do Algarve (Faro, Portugal)

Provavelmente o curso de Medicina mais polémico de Portugal. Iniciado no ano de 2009 com o objetivo assumido de suprir a falta de pessoal médico, particularmente na região do Algarve, e aberto exclusivamente a licenciados, é diferente de todos os restantes cursos de Medicina do país. A começar nos moldes da candidatura,únicos no Ensino Superior, passando pelo currículo e terminando na sua duração (4 anos) quase tudo é estranho em relação àquilo que conhecemos na FCM-NOVA.Provavelmente o curso de Medicina mais polémico de Portugal.

Provavelmente o curso de Medicina mais polémico de Portugal.

Como já referido, o modelo de candidatura a este curso é excecional. Como os únicos aspirantes elegíveis são licenciados, disciplinas específicas, média de exames e outras considerações não são tidas em conta na hora da candidatura. Diversamente, o que mais importa é impressionar o júri responsável pela seleção dos melhores perfis para as 32 vagas existentes em cada ano. Neste sentido, facilmente perceberemos que o processo de candidatura será semelhante ao existente nas restantes faculdades de Medicina reservadas a licenciados; mas muito mais seletivo! O primeiro aspeto que o candidato terá que cumprir é uma série de pré-condições, que vão desde a obtenção de uma média de 14 no respetivo curso à experiência profissional ou de voluntariado. Tendo-se verificado as prévias condições, o aspirante é então sujeito a duas fases de seleção: uma avaliação de aptidões cognitivas e conhecimentos da língua inglesa e um conjunto de mini-entrevistas.

O programa curricular desta faculdade é inspirado no modelo de Aprendizagem Baseada em Problemas (do inglês Problem Based Learning), teoria pedagógica que conhecemos das aulas práticas de fisiopatologia. A exceção do curso da Universidade do Algarve (UA) reside na utilização exclusiva deste método, não existindo unidades curriculares clássicas, mas sim aprendizagem segundo casos clínicos. Temáticas consideradas fundamentais são abordados no seguimento dos mesmos; os alunos têm, pois, disciplinas como Ensino Baseado em Problemas, Clínicas, ou Laboratório de Aptidões.

O programa curricular desta faculdade é inspirado no modelo de Aprendizagem Baseada em Problemas

Relativamente à experiência clínica, esta é iniciada desde o primeiro ano, existindo um envolvimento nos Centros de Saúde e Unidades de Saúde Familiar nos três primeiros anos e Hospitais no último – esta organização não espanta se nos lembrarmos que este curso terá sido inicialmente pensado para formar particularmente especialistas em Medicina Geral e Familiar.

Desde a abertura do curso, este tem sido alvo de duras críticas de vários responsáveis de instituições médicas, nomeadamente da Ordem dos Médicos. Atualmente, estão a sair da Universidade do Algarve os primeiros médicos formados pela instituição, o que representará a prova de fogo face ao criticismo vigente. Igualmente, em dezembro de 2012 o Bastonário da Ordem dos Médicos deslocou-se à UA, afirmando ter encontrado “pessoas altamente motivadas” e acrescentando não ter dúvidas de que os alunos “serão bons médicos”, apresentando como solução para o excesso de vagas nos cursos de Medicina a diminuição dos lugares para licenciados nas restantes faculdades do país. Será esta uma mudança de paradigma na posição face ao currículo algarvio? Só o futuro o dirá.

Harvard Medical School (Boston, USA)

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Harvard Medical School (Boston, EUA)

Fundada em 1782, a Harvard Medical School (HMS) é, desde há largos anos, uma referência mundial na área do ensino médico, investigação e saúde. Tendo formado 15 detentores do prémio Nobel, é claro que há algo por detrás deste sucesso.

Quando chegam à HMS, os até aí “pre-med students” passaram por 2 anos numa instituição de ensino superior onde, para além de poderem frequentar unidades curriculares dos mais diversos campos do conhecimento, têm de completar os pré-requisitos exigidos. São eles (os mínimos): 1 ano de Biologia com experiência de laboratório, 2 anos de Química (orgânica e inorgânica) com experiência de Laboratório, 1 ano de Física e 1 ano de Cálculo. Para além destes, Harvard requer também experiência em escrita expositiva. Adicionalmente a este rol de requisitos, é ainda recomendado (um mínimo de) 16 horas de Literatura, Línguas, Artes, Humanidades, Ciências Socias e conhecimentos básicos de Informática. Se pensam que fica por aqui, enganem-se. É preciso, ainda, ter uma boa classificação no MCAT (Medical College Admission Test)! Toda esta bagagem prepara os alunos para enfrentar 4 anos de um plano de estudos que os absorve, devido à sua exigência. Isto se forem aceites, visto que apenas 4,1% dos candidatos é aceite.

Toda esta bagagem prepara os alunos para enfrentar 4 anos de um plano de estudos que os absorve, devido à sua exigência. Isto se forem aceites…

Com a reforma ocorrida em 2006 na HMS o novo currículo preconiza que os 2 primeiros anos sejam quase totalmente dedicados aos FOM – Fundamentals of Medicine, que envolve as áreas mais básicas das ciências médicas como Introdução à Profissão, Ciências Biomédicas (Anatomia, Fisiologia, Farmacologia, etc.), Ciências Sociais e Populacionais, Fisiopatologia, e ainda, “Clinical Skills and Patient-Doctor Relationship”. Tudo de forma a que estes alunos estejam eximiamente preparados para os dois últimos anos de estágios clínicos. Desta forma, no 3º ano (Principal Clinical Experience) os alunos passam por residências em Medicina, Cirurgia, Pediatria+Ginecologia e Obstetrícia (3 meses cada), Neurologia (1 mês) e Psiquiatria e Radiologia (1-2 meses), frequentando também transversalmente ao longo do ano “Primary Care” e “Patient Doctor III”, de forma a manterem em constante desenvolvimento as suas capacidade de bem agir com os pacientes. Os alunos finalistas passam no seu 4º e último ano em Harvard (Advanced Experiences in Clinical Medicine and Basic Sciences) em mais uma residência em Medicina ou Psiquiatria Avançada, tendo também oportunidade de ter experiências eletivas em especialidades como Hematologia, Dermatologia, etc. Mas não é tudo! Antes do tão desejado título de “MD”, precisam ainda de completar alguns cursos avançados em fisiopatologia e em técnicas de laboratório, de forma a que todos os detentores de um “canudo” de Harvard possam não só primar pela excelência do seu trabalho clínico, como também seguir uma carreira de sucesso na área de investigação.

Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho (Braga, Portugal)

ECS-UM

Escola de Ciências da Saúde – Universidade do Minho (Braga, Portugal)

A Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho (ECS-UM), uma das escolas médicas mais jovens de Portugal, abriu portas no ano letivo 2000/2001, trazendo ao panorama português uma revolução no ensino da Medicina.

Multidisciplinaridade e integração são as palavras de ordem e o aluno o ator principal. O aluno da ECS-UM começa desde cedo com unidades curriculares como “Sistemas Orgânicos e Funcionais” que o acompanha até ao 3º ano, onde há uma integração de conhecimentos de várias áreas como Embriologia, Anatomia, Fisiologia e Bioquímica, aplicadas a um sistema (digestivo, p.e.) ou patologia (neoplasias, p.e.), entre outras possibilidades. De resto é esta, na verdade, a grande alteração e diferença em relação aos currículos praticados na maioria das Escolas Médicas em Portugal.

Multidisciplinaridade e integração são as palavras de ordem e o aluno o ator principal.

“Introdução ao Curso de Medicina”, “Estágio em Centro de Saúde” – os alunos da ECS-UM têm desde cedo um importante contacto com o futuro local de trabalho – e “Células e Moléculas”, dão um ligeiro toque clássico ao 1º ano. “Socorrismo”, por outro lado, é uma das inovações apresentada por este modelo ainda no ano de caloiro. “Projeto de Opção” surge também no 1º ano (também no 2º e 4º), permitindo ao aluno desenvolver um projeto numa área do seu interesse, sendo apresentado ao público sob a forma de relatório/monografia e avaliado no final por um júri. Desta forma, portanto, é dada uma liberdade exemplar e inovadora ao aluno. Por último, “Domínios verticais”, disciplina transversal do 1º ao 5º ano, permite a abordagem de diferentes ciências como a Psicologia, Sociologia e Ética, em diferentes fases do desenvolvimento do futuro médico.

Os últimos 3 anos do curso são, na verdade, semelhantes aos dos currículos clássicos.

De resto, no 2º ano, a grande novidade será “Família, Sociedade e Saúde” que se junta a “SOF II / III” e a “Projeto de Opção II” e “Domínios Verticais II”. O 3º ano, por outro lado, surge como uma preparação para os anos verdadeiramente clínicos com “Biopatologia e Introdução à Terapêutica” (43 ECTS!), “Introdução à Saúde Comunitária” e “Introdução à Medicina Clínica”. Os últimos 3 anos do curso são, na verdade, semelhantes aos dos currículos clássicos, com residências em Medicina, Cirurgia, Saúde Maternoinfantil, entre outras, à exceção de “Da Clínica à Biologia Molecular I, II e III” que os acompanha nos últimos anos e permite manter uma importante perspetiva celular da saúde e doença, muitas vezes negligenciada. Há também a possibilidade de realizar residências opcionais no 5º ano, dando ao aluno, mais uma vez, liberdade para escolher as especialidades que mais o atraem. A grande diferença do 6º ano será a componente una das residências hospitalares, todas incluídas na mesma UC (39,5 ECTS) e, portanto, sujeitas a uma avaliação também unificada.

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