Síria, Uma Realidade Atroz

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Hospitais com paredes caiadas, doentes com sapatos nos pés, fármacos em abundância e cirurgias em assépsia. E restrições financeiras, claro. Esta é a realidade de um médico em Portugal. Mas o que é a prática clínica noutras latitudes? Como trabalham os médicos em realidades tão díspares da nossa? A FRONTAL iniciou um projecto que te leva dos trópicos aos desertos, da abundância à escassez, da paz à guerra. Em poucas linhas viramos-te o mundo ao contrário. Arriscas-te a viajar aos Antípodas da Medicina?

Fotografia acima | AP PHOTO | Rodrigo Abd
“Aida chora após recuperar de ferimentos graves decorrentes do bombardeamento da sua casa pelo governo sírio em Idlib, no norte da Síria, a 10 de março de 2012. O marido de Aida e os seus dois filhos morreram aquando do bombardeamento.”

siriaUMA REALIDADE ATROZ

Após semanas infindáveis a tentar estabelecer comunicações com uma comunidade médica dispersa pela guerra civil, a FRONTAL conseguiu chegar à Síria para te dar em primeira mão o testemunho do que é praticar Medicina no seio do mais atroz conflito da atualidade.

O Sol já abrasa às primeiras horas da manhã. O céu é plácido na sua imensidão de um azul intenso. Um dia quase igual a qualquer outro nas incontáveis eras do mundo que o planalto sírio já viu passar. De súbito um grito! Um pé que se torce na pressa da fuga. O menor dos problemas que um sírio pode encontrar nos caminhos que atravessam as fronteiras. Cerram-se os dentes à dor e a marcha continua inexorável no seu intento, desapiedada na sua rapidez. Aquém da fronteira há bombardeamentos, tiroteios, sofrimento e morte. O que quer que os espere além dela não poderá ser pior.

“Estive recentemente em Alepo e Damasco e a situação é inacreditável! Há incontáveis mortos e feridos e a situação económica é má. As pessoas têm fome!”

Assim pensaram os sírios Faisal Al-Abrash, cirurgião ortopédico de Damasco e Ali Al-Sayed também médico (nomes fictícios). Faisal fugiu para o Líbano ilegalmente há 5 meses: “Tive muito medo. Caminhei uns 20km em chinelos e depois, já no carro, nem conseguia respirar devido ao medo.” Ali apenas abandonou a Síria no passado dia 20 de abril, refugiando-se no Iraque: “Atravessei a fronteira de Pesh Kahpour com o Curdistão iraquiano com outros refugiados e fui recebido pela Asayish [força policial curda]. Paguei 10$US para entrar no Iraque e fui direcionado para o campo de Domiz”.

“A situação é bem pior do que os media dão a conhecer, pois estes não conseguem ter acesso a muitas partes do país. Estive recentemente em Alepo e Damasco e a situação é inacreditável! Há incontáveis mortos e feridos e a situação económica é má. As pessoas têm fome!”, relata-nos Ali Al-Sayed. A Guerra Civil grassa pelo país há dois anos e a situação humanitária está a ficar fora de controlo. Os números são, de facto, aterradores: mais de 70 000 mortos, cerca de 4,25 milhões de deslocados dentro da Síria e 1,5 milhões de refugiados nos países limítrofes.

Mideast Syria

Quiçá, a invulgaridade desta massa humana em fuga seja o não se compor de povos paupérrimos da África subsaariana, mas sim dos farrapos de um tecido social organizado e próspero que jamais imaginou ver a sua realidade desfragmentar-se a tal ponto. Não é simplesmente uma guerra: o conflito é fratricida; é um povo que se volta contra si mesmo. A insegurança à porta de casa, mais do que as dificuldades financeiras, é a principal força motriz que espoleta este gigantesco movimento migratório.

Entre os milhares de mortos e feridos dos confrontos e os milhões que deles fogem desesperadamente, a população síria encontra-se particularmente vulnerável e necessitada de assistência médica. Todavia, “o sistema de saúde sírio está a entrar em colapso”, conta-nos Ali. “A assistência médica está num estado crítico: não há medicamentos, os médicos são poucos e a assistência aos feridos nos hospitais é muito limitada”, acrescenta. Faisal também nos dá conta desta realidade, especificando que “a situação em Damasco é má e no distrito envolvente de Rif Dimashq é péssima. Nas áreas cercadas pelo regime as condições são atrozes, mas naquelas com acesso à fronteira a situação é aceitável.” Há uma alarmante escassez de medicamentos: “Muita da indústria farmacêutica estava baseada em Homs, mas a cidade foi destruída e a indústria está inoperacional. Em Qamishli [junto à fronteira com a Turquia] há alguns fármacos disponíveis, mas apenas através do contrabando fronteiriço”, explica-nos Ali.

Não é simplesmente uma guerra: o conflito é fratricida.

Neste quadro de crise humanitária, a comunidade médica é, paradoxalmente, perseguida por forças militares e alvo de represálias devido ao seu compromisso ético de salvar vidas independentemente das afiliações políticas dos doentes. “Deixei a Síria há 5 meses devido a razões de segurança; fui alvo de pressões das autoridades e fugi”, relata-nos Faisal. Também Ali Al-Sayed nos diz que deixou a Síria porque “sendo médico, receei ser perseguido. Os médicos são capturados e torturados na Síria porque na sua atividade prestam cuidados a rebeldes da oposição. Tinha um amigo próximo que foi assassinado por essa razão.” A fuga dos profissionais de saúde agudiza ainda mais a situação no terreno, comprometendo a já de si incipiente assistência médica.

SYRIA-CONFLICT

Acresce a tudo isto a destruição assustadora de que é capaz o arsenal bélico do século XXI. Os relatórios de missão da ONU dão conta da devastação completa das infraestruturas do país: houve cidades arrasadas do mapa, de uma em cada três casas só restam escombros, a rede elétrica tem falhas recorrentes que impedem o acesso à água potável (OCHA, 2013). Ali Al-Sayed resume categoricamente: “A situação humanitária na Síria é um desastre”.

Apesar dos esforços concertados de vários ramos da ONU – como o Alto Comissariado para os Refugiados (UNHCR) ou o Gabinete para a Coordenação dos Assuntos Humanitários (OCHA) – e de várias organizações não governamentais (ONGs), a assistência que é possível prestar à população em território sírio é exígua. Operar em teatros de guerra é um pesadelo logístico e burocrático. A segurança dos profissionais não pode ser assegurada e as negociações com as várias fações do conflito revelam-se uma teia difícil de destrinçar. “(…) um comboio humanitário passa por 50 postos de controlo militar entre Damasco e Alepo [uma distância de 360km]… Compreenderão a impossibilidade deste pedido. Não podemos operar nestas circunstâncias”, relatou-nos Valerie Amos, Secretária-Geral-Adjunta para os Assuntos Humanitários da ONU.

“Os médicos são capturados e torturados na Síria porque prestam cuidados a rebeldes.”

Nos países circundantes, cerca de 60 organizações humanitárias prestam ajuda a uma população de refugiados que cresce a um ritmo alarmante. A coordenação das atividades de auxílio aos refugiados cabe ao UNHCR numa tarefa que uma porta-voz da organização, Reem Al-Salem, descreve como “extremamente desafiante”. Reem conta-nos que “o problema é que não há nenhuma solução política à vista. E se [o fluxo migratório] continuar ao ritmo a que estamos de momento a assistir, prevemos que o número de refugiados alcance os 3,5 milhões no final deste ano. (…) O número de deslocados dentro da Síria poderá chegar aos 6 milhões até ao final do ano. No total, estamos provavelmente a falar de aproximadamente metade da população da Síria” (ver infografia; dados obtidos em data.unhcr.org). As previsões do Plano de Resposta Regional da ONU para o 1.º semestre já foram ultrapassadas. Consequentemente, os 1 milhar de milhões de dólares estimados para as necessidades de apoio aos refugiados este ano são já uma previsão irrealista. Desse valor, já desatualizado, ainda só se conseguiu angariar metade.

“Vim para o Líbano da mesma forma que a minha mãe me deu à luz: de chinelos. Tento manter-me otimista, mas peço ao Ocidente que tire os óculos de sol.”

Reem Al-Salem define as quatro prioridades para o apoio aos refugiados: proteção, alojamento, alimentação e assistência médica. Quanto ao alojamento, existem neste momento 21 campos de refugiados espalhados pelas regiões fronteiriças da Turquia, Iraque e Jordânia. Contudo, apenas cerca de 24% da população refugiada está apoiada por estes campos. Os restantes 76% vivem dispersos por zonas urbanas ou rurais do Líbano e demais países vizinhos, onde se espera que paguem renda. Fasil diz-nos que um dos principais problemas no Líbano são as rendas exorbitantes. As organizações coordenadas pelo UNHCR tentam ajudar as famílias a suportar esta despesa, mas não conseguem chegar a todos. “As pessoas vivem onde quer que consigam arranjar abrigo: há pessoas a viver em matadouros ou em edifícios abandonados”, conta-nos Reem. Os cuidados de saúde dependem dos sistemas de saúde locais, complementados pela ação de ONG’s como os Médicos sem Fronteiras. Mas nunca é o suficiente. Ali Al-Sayed relata-nos a situação do campo de Domiz (no Curdistão iraquiano): “o campo está sobrelotado e o sistema [de saúde iraquiano] não consegue fornecer medicamentos e assistência a toda a população refugiada em cumulação ao que já providencia à população local”.

SIRIAAA

À medida que o número de refugiados aumenta, a situação vai-se tornando cada vez mais precária. Os países da região têm demonstrado uma enorme generosidade para com os refugiados, mas a magnitude do êxodo está a fazer esticar a corda. Nestes dois anos de conflito, o afluxo de refugiados aumentou a população libanesa em 10% e a jordana em 6%. Ademais, estes países do Médio Oriente já tinham também situações políticas e económicas periclitantes. Faisal Al-Abrash conta-nos que “a situação está a deteriorar-se [no Líbano]. Há poucas oportunidades de trabalho e mesmo com a ajuda das organizações internacionais a situação dos refugiados é má”. No Iraque a descrição de Ali Al-Sayed é semelhante: “Para os desempregados a vida é difícil, mas para quem trabalha é melhor. Penso que o desemprego é o principal desafio, pois embora a assistência providenciada pelo Governo [iraquiano] e pela UNHCR seja importante, não é o suficiente para lidar com as necessidades básicas do quotidiano.”

Os países da região têm demonstrado uma enorme generosidade para com os refugiados, mas a magnitude do êxodo está a fazer esticar a corda.

Quando questionado acerca do futuro do seu país, Ali Al-Sayed não se mostra muito otimista: “será necessária uma década para o país recuperar e ainda mais tempo para o melhorar. De momento não vejo um futuro brilhante para Síria.” Já Faisal Al-Abrash é mais expansivo: “Honestamente, espero que a revolução triunfe, mas que não haja a ascensão de ideologias. Tenho muitas expectativas. É melhor viver um dia com dignidade do que 1000 dias de humilhação. Sou um homem educado, um médico, mas vim para o Líbano da mesma forma que a minha mãe me deu à luz: de chinelos. Tento manter-me otimista, mas peço ao Ocidente que tire os óculos de sol.”

A FRONTAL agradece a inexcedível cooperação da delegação da UNHCR no Líbano, sem a qual nos teria sido impossível realizar as entrevistas e o próprio artigo.

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