COBERTURA | Evento de lançamento da 49ª edição impressa da Revista FRONTAL

Se perdeste o evento de lançamento da 49ª edição impressa da Revista FRONTAL, ou simplesmente o queres recordar, então este artigo é para ti! Trazemos-te aqui um apanhado do evento, para que não percas nada daquilo que se passou.

Na última quarta feira, dia 23 de maio, ocorreu a sessão de lançamento da 49ª edição da Revista Frontal, que tinha como tema “A Mulher e a Medicina”, e pôde contar com a presença do diretor da AEFCM, Bernardo Resende, e do fundador e coordenador geral da empresa Perguntas da Especialidade Dr. Tomás Pessoa e Costa. Outras figuras relevantes marcaram presença no lançamento desta edição, tais como a Dra. Nisa Félix, Dra. Marta Plancha, Dr. Jorge Roque da Cunha e Professora Doutora Helena Telles Antunes.

O discurso de abertura foi feito pelo presidente da AE, que relembrou o papel da FRONTAL, na procura de perspetivas e olhares mais ambiciosos, a que se seguiu os discursos da diretora da Revista, Carolina Gavancho e, por último, do Dr. Tomás Pessoa e Costa, que explicou a origem da Perguntas da Especialidade e o projeto em si.

Findada a sessão de abertura, iniciaram-se as palestras, ambas subordinadas ao tema da fertilidade feminina.

 

Dra. Nisa Félix

A primeira palestra foi dada pela Dra. Nisa Félix, médica interna do 6º ano de Ginecologia e Obstetrícia na Maternidade Alfredo da Costa, que de forma desafiante começou por questionar a definição de “mulher”, expondo a definição do termo segundo a Infopedia: “mamífero primata, fêmea, bípede, que, tal como homem, se distingue de todos os outros animais pela faculdade da linguagem verbal e pelo seu superior desenvolvimento intelectual e se distingue do homem pela capacidade de engravidar”. Fazendo o apontamento de que talvez fosse uma definição incompleta, a médica continuou a explorar o que é ser mulher nas sociedades atuais e o que a mulher representa.

Em primeiro lugar, começou por analisar a mulher portuguesa dos dias hoje em comparação com a de 1960 e, avaliando dados de 2011, percebe-se que a mulher passou a representar 52,7% da população, sendo que outros valores estatísticos não escondem ainda que as mulheres estudam mais e são as que mais tiram doutoramentos. No entanto, um outro valor foi destacado pela Dra. Nisa Félix: ainda que haja mais mulheres a estudar, continuam a receber menos que os homens em cerca de 151€ e são as mais desempregadas, algo contra o qual, sublinha, devemos continuar a batalhar. Ainda visando analisar a mulher portuguesa mas agora sob um ponto de vista mais pessoal, a médica aponta um facto importante e relevante: as mulheres casam cada vez mais tarde, sendo que em 1960 casavam por volta dos 24,8 anos e atualmente em torno dos 32 anos.

A Dra. Nisa Félix vai ainda mais além e questiona o conceito de família, questiona se ainda podemos olhar para as famílias como se olhava em 1960. E logo afirma que, efetivamente, são definições em mudança, realçando que enquanto médicos temos de nos adaptar e conhecer as realidades atuais das famílias e das mulheres.

Esta palestra expressou as grandes diferenças que há entre a mulher numa sociedade atual e noutra de há mais de 50 anos e realçou-se o papel tão diferente que passou a ter: se em 1960 a mulher era vista pela sociedade como apenas mulher e esposa, hoje em dia as mulheres são mais inovadoras, seguras, corajosas, empreendedoras e dinâmicas, sem, no entanto, deixarem de ser mães, filhas e amigas.

Mas eis que surge a questão: como é que hoje em dia se vive a maternidade? Estarão as mulheres mais frias e distantes? Ao que responde: “não, apenas diferentes”. Para reiterar esta resposta e a título de exemplo, mostrou um conjunto de imagens que falavam por si: a senadora australiana a amamentar enquanto trabalhava, uma eurodeputada americana que levava a filha enquanto exercia o direito de voto, uma modelo brasileira que amamentava a filha enquanto a maquilhavam e preparavam para uma sessão fotográfica, e, para reforçar também o dever do conceito de família, deixou para o fim a imagem do marido da primeira ministra da Nova Zelândia a cuidar da filha de ambos enquanto ela discursava nas Nações Unidas.

Tendo estado há cerca de 1 ano em África, durante 3 meses, a Dra. Nisa Félix escolheu ainda trazer a realidade do que é ser mulher em diferentes partes do globo e relembrou que nem todas as mulheres têm um privilégio semelhante ao que se vive em Portugal: algumas mulheres, “não muito longe de nós”, só têm o direito de ser mães e esposas, tendo casamentos arranjados, estando submissas aos interesses do marido e sendo alvo de muita recriminação social e familiar quando procuram acesso a algo tão simples como planeamento familiar. Uma mulher africana, como foi dado o exemplo, chega a não poder utilizar um implante subcutâneo porque o marido lhe apalpa o braço e a obriga a remover o dispositivo. São, no entanto, mulheres mais disponíveis, ainda que com menos recursos. E se hoje em dia, na sociedade moderna, no país, enfrentamos o problema do adiamento da maternidade, por outro lado estas mulheres iniciam de forma precoce a maternidade. Posto isto, a médica relembra que o foco da atenção da comunidade médica deve ser tanto na possível infertilidade que o adiamento pode gerar e na oferta de técnicas de procriação medicamente assistidas, como no bom planeamento familiar e apoio social, sobretudo nestes países menos desenvolvidos, como é o caso de África.

Mas, no fim de contas, porque é que a mulher portuguesa adia a maternidade? E como resposta a esta questão tão atual, são apontados vários motivos: por optar por uma boa estabilidade financeira antes de ser mãe, pelo interesse numa progressão de carreira, por adiar a saída de casa dos pais por motivos muitas vezes económicos, por não encontrar um parceiro com quem queira assumir esta responsabilidade ou simplesmente por aceder a métodos contracetivos bastante eficazes.

Recorrendo novamente a dados estatísticos, a médica refere a mulher portuguesa tem em média 1,3 filhos, algo que pode ocorre devido à idade média do primeiro filho rondar os 30 anos. Por isto, a nossa taxa de natalidade diminuiu também abruptamente desde 1960, em que o valor era de 24,1%, até aos dias de hoje, em que ronda os 8,4%.

Sendo esta uma palestra subordinada ao tema da infertilidade, surge a outra questão pertinente: quais são então as consequências do adiamento da maternidade? E a resposta é logo dada: adiamento da idade em que se é mãe pela primeira vez, menor número de filhos, maior risco na gravidez ou mais patologias, pressão social e familiar e, por último e não menos importante, um aumento crescente da infertilidade feminina e necessidade de recurso a técnicas de reprodução medicamente assistida. Para corroborar este último aspeto, é exposta a taxa de infertilidade em Portugal, que aponta para os 10 a 15%, valor que exclui projetos monoparentais.

Porque todas as moedas têm cara e coroa, além de causas para o aumento da infertilidade em Portugal, a Dra. Nisa Félix mostrou o que pode a medicina atual oferecer para colmatar estes valores e começa por falar da história da procriação medicamente assistida (PMA), relembrando que é uma evolução médica relativamente recente, tendo surgido em 1978, com o nascimento da primeira criança por fertilização in vitro (FIV), em Inglaterra. Atualmente, em Portugal, até 2015, mais de 2400 crianças nasceram com recurso a técnicas PMA. Em 1985 foi a primeira inseminação intra-uterina e a primeira FIV no Hospital de Santa Maria, em 1990 foi feita a primeira criopreservação de embriões, em 1994 a primeira injeção intracitoplasmática (ICSI) e, em 1998, começou a ser feito o diagnóstico genético pré-implantatório que em Portugal, atualmente, só é feito Porto.

Apesar disto, só em 2006 surgiu a legislação e a formação do conselho nacional de PMA. Em julho de 2016 foi dado o acesso à PMA a todas as mulheres que queriam engravidar e autorizada a gravidez de substituição (vulgo “barriga de aluguer”) que dois anos depois foi vetada. Em abril de 2018, o anonimato dos doadores de gâmetas foi também vetado, o que se expressou numa diminuição do número de dadores de gâmetas. Outra possibilidade da medicina atual já inclui, por exemplo, transplante de útero, embora seja uma técnica que está parada, há um projeto piloto em Coimbra.

Para terminar a palestra, a Dra. Nisa Félix escolheu falar de possibilidades futuras e risonhas para solucionar a infertilidade, de entre as quais haver maiores apoios sociais para a maternidade, simplificação dos processos de adoção, aceitação da gravidez de substituição e até mesmo úteros artificiais.

Encerrou-se, então, assim uma palestra que expôs de forma muito breve, a mudança do papel da mulher na sociedade e até mesmo a mudança do conceito família com os tempos, aliado ao que a medicina tem vindo a oferecer.

 

Dra. Marta Plancha

A Dra. Marta Plancha, Médica Interna de Ginecologia-Obstetrícia na Maternidade Dr. Alfredo da Costa do CHLUC e formadora na Perguntas da Especialidade, abordou a temática das técnicas de procriação medicamente assistida (PMA) no contexto da infertilidade, bem como os desafios atuais que se impõem na nossa sociedade referentes a este problema tão importante.

Começando por definir infertilidade como a ausência de gravidez após 12 meses de relações sexuais regulares sem contraceção e alertando para a sua prevalência – 10-15% (em Portugal e no mundo) -, a Dra. Marta Plancha alertou para as diferenças subjacentes ao estudo da infertilidade tendo em conta a idade da mulher que pretende engravidar. A taxa de fertilidade diminui com a idade, assim como o limiar para o estudo da infertilidade – em mulheres com menos de 35 anos de idade que não consigam engravidar ao fim de 12 meses, a investigação e potenciais tratamentos começam após esse período, enquanto que em mulheres com mais de 35 anos, e apesar de a definição ser de um ano, o limiar é mais curto e a investigação pode começar mais precocemente, a partir dos 6 meses.

Seguidamente, levanta a questão sobre o que é, afinal, o sucesso das técnicas de procriação medicamente assistida. É a taxa de fertilização? De implantação? De gestação? É o ultrapassar do 1º trimestre de gravidez? Acabando por esclarecer que o sucesso real da PMA é a taxa de bebés nascidos, únicos em cada gestação e saudáveis, com bons outcomes obstétricos e perinatais.

Mergulhando então no mundo das técnicas de procriação medicamente assistida propriamente ditas, a Dra. Marta Plancha aborda-as em três grupos, das mais aceites atualmente até às mais controversas, com as implicações éticas subjacentes a cada uma delas. Começa por explicar o processo de recolha de gâmetas masculinos usados no tratamento da infertilidade, partido depois para a exploração das técnicas de PMA mais aceites e utilizadas hoje em dia, descrevendo cada uma delas e apresentando alguns vídeos explicativos. Neste grupo incluem-se a Inseminação Intrauterina (IIU), a Fertilização in vitro (FIV), a Injeção Intracitoplasmática do esperma (ICSI), biópsia testicular (que costuma ser usada de forma complementar com a ICSI), e a Maturação in vitro (IVM). De seguida e escalando no que respeita a controvérsias, explorou as técnicas de congelamento de tecido gonadal (criopreservação), a biópsia embrionária e testes genéticos pré-implantação (micromanipulações), e ainda a técnica de trofoectoderme em blastocisto, abordando as questões éticas e religiosas implícitas a cada uma delas. Por fim, apresentou as técnicas mais controversas, as que têm mais questões legais, morais e religiosas, como são a doação de gâmetas, o transplante de útero e a gestação de substituição (“barrigas de aluguer”), mas não sem antes levantar questões como “Como se estabelecem limites de idades para recorrer a técnicas de PMA?”, “Devem ser iguais nos sexos masculino e feminino, nos cuidados de saúde públicos e privados?”, “Quem decide estes limites?” e muitas outras que marcam a discussão e desafios atuais das técnicas de procriação medicamente assistida.

 

AUTORES

Beatriz Figueiredo

Sofia Santos

FOTOGRAFIA

Inês Sanches

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