O Homem que Não Viveu Duas Vezes

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O mundo – conceito global e unificador – é hoje palco de uma das mais incríveis conquistas da Humanidade enquanto espécie predisposta à doença e resignada à evidência da morte: a esperança média de vida de um humano é a mais alta da História.

Vivemos, de uma forma geral, mais tempo; a Europa (Portugal incluído) tem por volta dos 80 anos (com todas as variações geográficas que esta generalização anula), a idade média que uma pessoa espera atingir quando nasce. Outro conceito importa reter: para quem alcança os 65 anos, há estatísticas categóricas, a nível também europeu, afirmando que essa pessoa poderá viver ainda cerca de 20 anos; assim, para os afortunados que atingem a terceira idade, as contas feitas à nascença apresentavam um erro feliz de 5 anos.

Ainda assim, que não se ignore mais um número relativo a esperança de vida, que é reflexo da análise das condições de saúde de quem entra na terceira idade, e soma e segue; estima-se que em Portugal, objetivamente, o número de anos de vida saudável (isto é, sem limitações ou incapacidade), após os 65, seja de apenas 6,6 (contra os 8,3 que se registaram em 1995). Que significa isto? Que, de um modo geral e relativamente inespecífico, estamos “condenados” a 13,4 anos de sobrevivência limitada pelas condições parcas de saúde do nosso corpo. Significa, em suma, que vivemos mais, mas não necessariamente melhor.

Pergunta: que esperança há, efetivamente, no futuro dos largos anos que vão sobrando até ao fim? Um agradável caminho ou um sem-fim de precalços? Qual o significado real de respirar e alimentar a crença de que os dias se multiplicam, em vez de se subtrairem? Há um erro óbvio na fórmula de cálculo que aplicamos à observação do futuro: cremo-nos imortais à conta da pálida crença de que falta muito, muito para que, depois de amanhã, nada...

Viver na era das doenças crónico-degenerativas

Infeções, estados de degradação completa, pandemias e epidemias, períodos curtos de vida – aprender a esperar muito pouco… Tudo isto caracterizava o passado da saúde (ou será da doença?) e não era mais do que tradução óbvia de situações de má nutrição e escassez alimentar, falta de saneamento e água potável, vacinação e antibioterapia altamente limitadas, ausência de programas de saúde dirigidos e de progresso técnico-científico.

O presente é diferente; ultrapassados estes problemas, parece hoje a mensagem ser apenas uma: Vive!, não apenas no sentido do organismo que mantém as capacidades vitais ativas, como também do que reage ao meio em volta, recebe e responde e exacerba atitudes, que contamina e desafia, desafia-se, sempre. Este é o único manda- mento da era das doenças crónico-degenerativas.

Assim se fundamenta, não um quinto Império, mas uma quarta fase da integração da saúde das populações: venha a diabetes, o cancro metastizando de órgão em órgão, e as doenças cardiovasculares sempre no topo da tabela das mais incapacitantes (30,4% das causas de morte em Portugal, em 2012); venha a alteração dos padrões da morbilidade, a existência presente e a morte assente. Venha a demência, a lenta deterioração da mielina, o aspeto irreconhecível das feições humanas e animais, dos lugares e das memórias, a tristeza crónica.

Avé à terapêutica múltipla: dois ao acordar, saqueta a meio da manhã, um antes e outro após o almoço, e nunca se esqueça de repetir a dose ao jantar nem da colherzinha de lactulose para pôr isso a funcionar; benzo para dormir, benza-se para acordar. Avé aos cuidados continuados, paliativos e morfinizados.

Responsabilidade e Comportamento

Não se trata de Epicuro trazido ao século XXI, mas de uma crítica ao hedonismo moderno, que prevalece sempre que a sabedoria popular afirma “a vida são dois dias” – mote que gera motim, é isto base para dias conduzidos em excesso.

O medo mascara-se de um outro: é que, dizem, pode não haver amanhã. Desculpa pueril para adultos que ainda não cresceram, pois só assim se justifica que o desequilíbrio dê as mãos à irresponsabi- lidade pessoal, num desrespeito profundo pelo corpo saudável, pelo continente que habitamos e que haveremos de habitar – como desde já argumentei – não por dois dias, mas por seus múltiplos, separados em duas margens: uma, desregrada e bela, fumo e névoa e álcool no sangue, ébrios e iludidos; noutra, a redenção lenta, o controlo obsessivo, a morbilidade e a perda célere de capacidades, sonhando uma possível recuperação, quando ninguém vai, de facto, recuperar.

Avé à terapêutica múltipla: dois ao acordar, saqueta a meio da manhã, um antes e outro após o almoço e nunca se esqueça, repetira dose ao jantar; benzo para dormir, benza-se para acordar.

Vejamos: no todo que integra o caminho entre saúde e doença, há um papel declarado de comportamentos e ambiente: uma leitura atenta das últimas informações de Saúde Pública revela que 50% da mortalidade relacionada com as 10 principais causas de morte se deve a fatores comportamentais: tabaco, sedentarismo, drogas, álcool, infeções sexualmente transmissíveis. Contra-argumento: o património genético cumpre o seu papel no determinismo biológico, e podemos, indubitavelmente, adoecer independentemente do que façamos para o evitar ou promover. São inúmeros os casos conhecidos de doenças que surgem sem explicação aparente, como aparentemente saudáveis eram os indivíduos que as adquiriram. Mesmo assim, será esta resposta suficiente para anular todos os argumentos que delegam responsabilidade pessoal pelo estado de saúde do próprio?

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O Jardim das Delícias Terrenas, por Hieronymus Bosch

No fundo, o que falta realmente não é ter consciência do fim, que esse está documentado, estudado, diariamente é alvo de avaliação e reflexão. O que falta, senhores, é a consciência de que a marcha pode ser longa, e de nada vale cumpri-la em prorrogação constante, se for esta feita de pedras soltas e buracos profundos – que ninguém vive duas vezes.