Braço Biónico

Os primórdios da Cirurgia passaram por salvar vidas à custa da perda de membros em cenários de guerra. Muito se aprendeu sobre Medicina ao longo dos anos neste contexto. Com o passar do tempo, o grau de exigência mudou. Da sobrevivência passou a exigir-se funcionalidade. Depois subiu-se a fasquia para qualidade de vida. Com os avanços da Medicina Regenerativa, talvez se venha a exigir uma reprodução fiel do membro em falta, copiado até ao último átomo.

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Existem dois tipos de braços robóticos: os que constituem simplificações do seu original biológico, dirigidos a uma determinada função – muito frequentes na indústria – e os que pretendem copiá-lo o mais fielmente possível. São estas últimas que se tornam fascinantes do ponto de vista médico.

Na vanguarda da produção destas peças complexas encontra-se uma dupla de cientistas da Universidade de Washington: Zhe Xu e Emanuel Todorov. Juntos, eles produziram uma versão extraordinariamente fidedigna dos tecidos duros da mão humana,através da impressão a 3D dos ossos da mão e da sua articulação, com ligamentos feitos de um material com consistência muito semelhante aos ligamentos naturais. Por último, adicionaram pedaços de borracha cortada a laser para simular os tecidos moles. Com tudo isto, conseguiram produzir uma mão artificial que consegue reproduzir os movimentos fisiológicos da mão humana. Mas a grande novidade reside no facto de ter sido possível fazer esta mão agarrar delicadamente uma grande variedade de objectos – do envelope à uma caneca – sem ter sensores de pressão que evitem o uso de força excessiva ou insuficiente. Os investigadores atribuem este sucesso inesperado à cinemática desta mão ser em tudo semelhante à mão humana.

Ao longo dos últimos anos, uma equipa do John Hopkins Applied Physics Laboratory tem vindo a desenvolver braços robóticos, financiados pelo exército americano – que pretende dar uma resposta aos seus amputados de guerra. Este grupo desenvolveu um braço modular protésico, passível de ser adaptado a vários níveis de amputação. Desenvolveram também, paralelamente, sensores que permitem ao sistema nervoso central controlar os movimentos da prótese. Discutiram-se múltiplas abordagens para o fazer, desde sensores superficiais não invasivos, sensores intramusculares ou, no outro extremo oposto, as opções mais invasivas de sensores aplicados ao nervo periférico ou ao córtex motor. Chegou-se à conclusão de que não existe uma solução universa. Contudo, que todas estas abordagens funcionam no controlo do braço protésico.

Nesta fase, foi a vez da Medicina dar uma mão à Robótica. Associou-se ao braço protésico modular que já foi referido, uma técnica cirúrgica denominada targeted sensory reinnervation (reinervação sensitiva dirigida) – em que terminações de nervos sensitivos são reposicionados em outras partes do corpo – o que tornou possível receber sinais sensitivos vindos da prótese.

Melissa Loomis, a primeira doente em que se reconhece que esta técnica tenha tido sucesso, consegue, através do uso de uma manga de sensores sobre as terminações nervosas reposicionadas no seu braço, receber sinais vindos da prótese, como, por exemplo, informações de pressão necessárias para agarrar objectos. Consegue-se, desta forma, através de um braço protésico que não se encontra sequer acoplado ao seu corpo, receber informação sensorial, e controlar a resposta à mesma dada pela prótese.

Esta evolução, que tem vindo a acontecer há menos de uma década, abre um mundo extraordinário de opções para estes doentes, reduzindo as limitações que têm no seu quotidiano. Apesar de ainda estarmos a falar de estudos e descobertas recentes, existe uma preocupação por parte dos investigadores (em certa parte por pressão dos patrocinadores da pesquisa) em tornar esta tecnologia suficientemente simples para poder ser aplicada à população em geral. Os doentes amputados aguardam ansiosamente pelo seu aparecimento no mercado destas próteses revolucionárias.

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