CEDOC: Investigação em Quatro Frentes

clinical-translational4

Hoje, mais do que nunca, a Medicina faz-se de Investigação. O Médico, antes de o ser, tem também de entender os mecanismos e raciocínios pelos quais os dogmas da Medicina de hoje foram um dia meras hipóteses num papel. Tem que compreender que uma simples descoberta que envolve uma molécula pode ser o alicerce para a compreensão (e cura) de uma doença.

A FRONTAL foi (re)descobrir o CEDOC – Chronic Diseases Research Center e as suas mentes de vanguarda nas suas quatro principais áreas: Saúde Mental, Doenças Raras, Oncobiologia e Metabolismo e Inflamação.

prof-caldas-de-almeida_2-198x300

Professor Caldas de Almeida – Professor Catedrático de Psiquiatria e Saúde Mental da NOVA Medical School

Professora Gabriela Silva - Docente na NOVA Medical School e líder da equipa dedicada ao estudo da terapia génica

Professora Gabriela Silva – Docente na NOVA Medical School e líder da equipa dedicada ao estudo da terapia génica

Professora Ana Félix – Professora Associada de Anatomia Patológica da NOVA Medical School

M-Joao-Ribeiro-199x300

Professora Doutora Maria João – Prémio De Castro, Heymans and Neil de 2016 e Prémio Ephar Young Investigator de 2014

 

PROF. CALDAS DE ALMEIDAPSYCHIATRIC EPIDEMIOLOGY AND LIAISON PSYCHIATRY

Em que medida é que a investigação pode ser útil no levantamento das necessidades nos cuidados de saúde mental, em especial no que diz respeito a populações menos protegidas ou com necessidades particulares, como os idosos ou a população prisional?
Uma das vertentes pesquisada no CEDOC é o desenvolvimento de algoritmos que permitam estratificar o risco de episódios de depressão e de ansiedade. Tendo em conta a prevalência destes distúrbios na população portuguesa, qual a importância da detecção de grupos de maior risco e a que nível deverão ser aplicados estes instrumentos nos cuidados de saúde?
Foi co-autor de um artigo publicado em 2016 no International Journal of Social Psychiatry que relaciona o desemprego com níveis mais elevados de mal-estar psicológico nas famílias. Qual é a importância desta relação no actual contexto de crise económica e de que maneira pode ser prestado o suporte adequado nestes casos?
Nas últimas décadas assistimos a avanços notáveis nas técnicas de neuroimagiologia, genómica e biologia molecular, mas o progresso tecnológico nem sempre se faz acompanhar de utilidade directa para os doentes. Qual foi, na sua opinião, a mudança mais significativa para a saúde mental na última década?
Na sua perspectiva enquanto médico psiquiatra e investigador, qual a sua opinião sobre o actual ensino da psiquiatria nas escolas médicas?

PROF.ª GABRIELA SILVA – GENE THERAPY

Olhar para o futuro: Terapia Génica

PROF.ª ANA FÉLIX – TUMOR MORPHOLOGY AND MICROENVIRONMENT

Como Médica e Investigadora na área de oncobiologia, quais considera as maiores lacunas atualmente existentes na oncologia relativamente à integração e aplicação dos conhecimentos científicos na prática clínica?
Sendo o cancro uma doença multifatorial, dotada de enorme complexidade a nível científico e clínico, e com uma transformação epidemiológica notável nas últimas décadas, o que acha ser emergente no que concerne à abordagem política, social e familiar desta “doença do futuro”?
Uma das vertentes da investigação que desenvolve no CEDOC centra-se no cancro do colo do útero, um cancro ainda bastante prevalente na população portuguesa face ao aumento da taxa de cobertura geográfica dos rastreios, ao desenvolvimento de vacinas contra o HPV bem como a sensibilização para os fatores de risco inerentes. O que considera ter sido o maior avanço desenvolvido na última década ao nível da prevenção, diagnóstico e tratamento do cancro do colo do útero? Qual pensa ser o impacto, a longo prazo, na incidência desta doença após introdução da vacina contra o HPV no Plano Nacional de Saúde?
Tanto o metabolismo das células tumorais como o seu microambiente tem sido alvo de grande interesse na oncologia, sobretudo pelo seu envolvimento e alteração durante a transformação neoplásica, surgindo novos biomarcadores que permitam realizar um diagnóstico e prognóstico mais precoces e ainda potenciais alvos terapêuticos. Quais os principais alvos de interesse do seu grupo de investigação nesta área?
Uma das últimas investigações científicas na qual participou, publicada na revista Tumour Biology em 2015, levanta a hipótese do lactato estar envolvido na progressão do cancro do colo do útero apontando ainda o monocarboxylate transporter 1 (MCT1) como um possível alvo terapêutico. Perante este resultado, qual a progressão atual desta investigação e quais os passos seguintes após validar o MCT1 como alvo terapêutico no cancro do colo do útero? Teria um impacto a curto prazo na clínica?
Também a influência dos inibidores das histonas deacetilases no cancro do ovário tem sido um foco da sua investigação. Sendo estes fármacos utilizados no tratamento do cancro, quais as principais conclusões que obtiveram com esse estudo?
Também a influência dos inibidores das histonas deacetilases no cancro do ovário tem sido um foco da sua investigação. Sendo estes fármacos utilizados no tratamento do cancro, quais as principais conclusões que obtiveram com esse estudo?
Para finalizar a entrevista, gostaria de a questionar sobre a mítica questão: existirá uma cura para o cancro?

DOUTORA MARIA JOÃO RIBEIRO – TUMOR MORPHOLOGY AND MICROENVIRONMENT

O nosso grupo tem colocado o corpo carotídeo na vanguarda da investigação científica.

O corpo carotídeo (CC) responde a uma vasta panóplia de estímulos, versatilidade que o consagra como o principal quimiorrecetor periférico. Mas e se, além deste papel no controlo hemodinâmico, o CC operasse como um sensor metabólico cuja sobreativação crónica estivesse implicada na fisiopatologia da resistência à insulina? Que impacto daí adviria para a diabetes, epidemiologicamente cunhada como a peste negra do século XXI? E que tem o café a ver com tudo isto?

No seu grupo de trabalho formulou-se a hipótese de o corpo carotídeo (CC) atuar como «sensor de glicose»; contudo, este tema está ainda sujeito a fervoroso debate. Em que medida é que os estudos realizados in vitro e in vivo não permitiram, até à data, ultrapassar a controvérsia existente a este respeito? Devem preferir-se expressões como «sensor de insulina» ou «sensor metabólico» quando apelamos à função do CC no contexto da homeostasia energética?
A insulinorresistência tem-se revelado uma espécie de «chave-mestra» para um alarmante rol de doenças metabólicas e cardiovasculares: por um lado, a “diabesidade”; por outro, a síndrome metabólica, uma doença sistémica em que o efeito dos diferentes fatores de risco é sinérgico e multiplicativo, afetando 20-25% da população mundial (IDF 2006). Como avalia o impacto económico de uma terapia farmacológica apta a reverter a resistência insulínica, tendo como alvo os canais Kv1.3?
Do ponto de vista funcional, a sobreestimulação do CC, e consequente ativação do SNS, poderá figurar como uma das principais engrenagens fisiopatológicas patente nos distúrbios metabólicos. Nestes casos, que abordagem terapêutica será preferível: a desnervação do CC (mediante a resseção do nervo do seio carotídeo) ou uma modulação intermitente?
A inibição da atividade do CC, favorável à homeostasia energética em pacientes com DT2, pode ser conseguida através da hiperóxia proporcionada pela oxigenoterapia hiperbárica (OTH), uma modalidade terapêutica que consiste na inalação de oxigénio puro em ambiente hiperbárico. Poderá a OTH, que possui ainda mais-valias anti-edematosas, pró-cicatrizantes e anti-infeciosas, vir a constituir uma via de tratamento standard para o tratamento da DT2 e das suas comorbilidades, não obstante alguns efeitos prejudiciais?
Diversos estudos epidemiológicos têm demonstrado uma relação estatisticamente relevante entre o consumo de café solúvel e a baixa incidência de DT2. A administração crónica de cafeína – em contraste com a aguda – parece associada à diminuição do risco de DT2 e de síndrome metabólico, um efeito mediado provavelmente pela inibição do SNS. À luz destes resultados, dever-se-á incluir o café num padrão alimentar coadjuvante à terapêutica administrada a indivíduos com DT2? E estará o CC envolvido no mecanismo de atuação subjacente ao efeito protetor do café?
O seu grupo de investigação está a desenvolver um implante que, de entre todas as funções controladas pelo CC, intervirá somente no nervo responsável pela sensibilidade à insulina. Quais são os maiores desafios a ter em conta na conceção deste dispositivo bioeletrónico, e em que fase do projeto se enquadra atualmente?
A investigação conducente à sua tese de doutoramento foi apresentada em diversos congressos científicos nacionais e internacionais. Como posiciona a investigação do seu grupo de trabalho no atual panorama científico?